quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sessão da Tarde


                                        "o filme da minha vida" (legenda atribuída por meu cão)


- Quanto custa a pipoca?
Sem saber de nada, ele me disse:
- Você está desempregado?
Esta não era a palavra mais exata, mas, em seus tantos sentidos, fazia sentido ali também. Por mais que eu estivesse voluntariamente em tal situação, é o termo "desempregado" o que melhor define meu estado (status) diante do mundo. Emprego é o mesmo que uso, e no momento eu não tenho muita utilidade à parcela de vida que une aquele cara a mim. A ele, de nada eu valia. Com certo atraso, respondi:
- Sim, estou inutilizado.
À resposta meio inesperada, ele reagiu com um acréscimo de irritação:
- Aqui ninguém pergunta o preço antes de pedir alguma coisa.
O que havia com ele? Era insólito, e eu não pouparia esforços para constrangê-lo também, assim como não farei esforços para que esse relato tenha ares de veracidade. (se você acha que as falas e as sequências são artificializadas propositalmente, pode estar certo. se achar que foi assim mesmo que aconteceu, pode estar certo também.)
- Aqui ninguém é todo mundo?
- Não, todo mundo é alguém; ninguém é só quem pergunta.
- Eu sou outro ninguém, então: meu dinheiro é finito e prefiro me precaver.
- E você tem jeito de quem fez faculdade... o diploma não ajudou a conseguir trabalho ou você é que ainda não está procurando?
- Sou um vagabundo, não é?
- Não foi o que eu disse. É que há pessoas cujos pais não deixam trabalhar enquanto estudam, e assim elas vão permanecendo na escola por tempo indeterminado. São "acadêmicos", dizem. Alíás, você sabe o que significa isso de "acadêmicos"? Modo tão bonito de dizer que a pessoa é craque nos estudos. Não há ninguém assim no meu bairro, mas vira e mexe eu ouço algum frequentador aqui do cinema soltando essas palavras: acadêmico, erudito, intelectual. Pomposo, não? Outro aliás: você é desses?
- O senhor pergunta bem (, e pergunta muito, pensei). Já não lembro do começo. Sei que o que existe é um certo preconceito das duas partes: os acadêmicos abdicam do trabalho braçal por poder não concordar com o sistema e os trabalhadores ironizam os estudantes ao notar o quanto suas falas justiceiras contrastam com seus chinelos de dedo. E não, eu não sou "um desses", nem sou vagabundo.
- Eu não tinha nem citado os chinelos...
- Mas eles é que denunciaram meu desemprego a você. Todas suas perguntas estão baseadas apenas no modo como me visto, e minhas respostas tendem a considerar também uma certa limitação de seu entendimento, já que eu, no fundo, acho que você é manipulado por seus patrões sem se dar conta disso, e sua alienação é governante de suas opiniões. Nós dois jogamos sujo o tempo todo e eu, como último recurso retórico, finjo estar ciente dessa camada implícita que há em nossa conversa.
- Você é que responde a coisas não perguntadas. Bastava dizer que está desempregado, que a vida está dura, que os políticos não prestam, e nada seria tão difícil. As coisas são mais fáceis quando as pintamos difíceis: encontram respaldo nas aquiescências convencionais. Não me olhe desse jeito! Não se surpreenda com o fato de eu também saber falar. Logo você, que entende tanto o que há por trás das coisas, ficar com esse semblante de quem não pode conceber que haja alguém além do estereótipo que você criou para os vendedores de pipoca?
Era inequívoco: sua primeira pergunta era a desforra; era sua vingança diária contra aqueles que cabiam no perfil dos pseudo-intelectuais que frequentavam a "cena alternativa" da cidade. Ao perguntar se eu estava desempregado, queria apenas me abalar e explicitar a iniquidade que nos cerca.
- O filme já vai começar...
- Claro, os filmes são sempre convenientes...(risos)
- Olha, você sabe mais do que eu sobre a vida, tá? Ficamos aqui rondando o que há de simbólico em meu desemprego, e você esteve jogando comigo. Se o que queria era confundir meus discursos, se deu bem.
- O filme não ia começar?
- Sim, mas é preciso que você saiba que eu nem prefiro usar chinelos quando vou pra longe de casa, e que só os calcei como sinal de alteridade. Que agora eu sei que foi por isso. Minha identidade está relacionada ao meu estilo de pisar. Pedi demissão na semana passada, e terminei minha faculdade ainda ontem. Sou o alguém (bacharel) e o ninguém (vagabundo) ao mesmo tempo. O grande problema é que não sou um acadêmico nem sou um trabalhador "de verdade": estou nesse limbo composto pelos que foram deslocados pelo mundo. Eu não vendo a pipoca nem crio o filme: sou cliente; sou platéia.
- Mocinho, não é pra tanto. As coisas um dia se aprumam, ou a gente se conforma com elas. Todos têm seus problemas, e logo passa.
- Agora quer conduzir nosso diálogo aos lugares-comuns para amputá-lo de uma vez? De que adianta se livrar de mim se ninguém compra sua pipoca?
- Você tem sérios problemas. O filme já deve ter vencido os traillers, e sua sessão de terapia terminou. Não tenho mais o que lhe dizer, e não me importo com o índice de vendas das pipocas. Com ou sem movimento, sempre haverá o pipoqueiro.

Suas últimas palavras pareciam decepcionadas, e eu sabia que esse era o derradeiro filme que eu assistiria naquele lugar enquanto aquele fosse o pipoqueiro. Culpei-me por essa exposição saideira ao constatar que ela decretara o fim de nossa conversa. Lamentei estar sozinho e não ter a quem procurar quando entrasse na sala. Vi, então, que eu vivo procurando um algo que sempre me é indefinido ou indeferido.
Ele, provocador, ainda soltou:

- O filme já começou e, nesse horário, é sempre o mesmo.
- Já entendi. Eu nunca gostei de pipoca, sabia?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Você tem orkut?



                                                                               (Após duas ou três frases trocadas, ela me perguntou:
                                                                                   - Você tem orkut?
                                                                                   - Tenho. Digite "noubar" e só encontrará a mim.
                                                                                   Estava selada nossa amizade.)



Está tão fácil estabelecer contato com quem tem acesso à internet, que eu ando meio assustado comigo mesmo. A possibilidade de acompanhar a vida de meus amigos, inimigos e, vá lá, de meus ídolos, é tão instigante quanto preocupante. Ninguém mais sai de nossa vida de vez, a menos que queira. Extinguiram-se os amores de verão: é simples encontrá-lo no inverno, à distância. O anonimato, até nos casos em que é requerido, funciona cada vez menos. A despeito das pistas falsas plantadas para resguardar a identidade, qualquer deslize produz um indício passível de ser rastreado na web.

Quantos amigos de amigos nossos são alvo de nossa curiosidade sem ao menos suspeitar dela? Consideremos que você, contrário, pensasse: "mas só se expõe na internet quem quer". Em parte, teria razão. Eu, insistente, diria que a existência virtual já foi institucionalizada. Toda ficha cadastral pede email, e eu já vi algumas em que ele é obrigatório. Antes cedíamos aos amigos nosso endereço, depois o telefone, depois os telefones; hoje os msn's, twitter's, emails, orkut's, etc. Cada uma de nossas atividades possui seu próprio grupo de mensagens: amigos do colégio; amigos da faculdade; colegas/amigos do trabalho; galera do futebol; curso tal; etc (de novo).

Há vida longe das telinhas: miserável ou antiquada, mas há. Embora eu me surpreenda com os "amigos sugeridos" pelo orkut (tem gente ali que eu nunca adicionaria, nem gostaria de ter notícias), de resto, essa integração que a rede proporciona sempre me fez bem. Nela, conheci pessoas que mudaram minha vida, expus e modelei minhas palavras (minhas personalidades), e anunciei ao (meu) mundo o que bastava pra que eu me calasse. É tanta substituição, tanta foto que a gente já tira dizendo "essa é de orkut" (tanto exibicionismo travestido de compartilhamento), que tudo soa meio invertido: ao invés de publicarmos aqui o que se faz "na vida real", já fazemos sob o formato que melhor se enquadraria ao desejo de publicação. Sim, por várias vezes isso pode ser bom. A mim é: alguns temas só saem de minha cabeça quando os submeto a uma postagem.

O que me coloca em estado de alerta é o espaço que o mundo intateável ocupa em minha vida. Quantos emails já não esperei à toa? Quantos já deixei de responder? Quantos, ao ver o remetente, nem abro mais? A transição de amigo a lixo eletrônico é notada - e lamentada - e revidada sob efeito de anestésicos. Um acervo interminável vai se formando. Dia desses me entreti lendo conversas "antigas" que foram salvas pelo gmail, e mesmo trocas significativas de correios eletrônicos. Como não apago as correspondências virtuais (já que há um espaço sempre crescente para elas), um mundo de palavras vai se acumulando, e dentro em breve será impossível recapitular tudo. Da seleção se farão outras seleções, até sobrar apenas o que eu  escrevi a mim mesmo.

Minha estante de livros tem competido com os blogueiros (semana passada encontrei uma "safra" de pernambucanos que me motivou um bocado); minha dvdteca perde de lavada para o youtube, meus cd's não têm outra função senão enfeitar meu quarto e atestar mais uma de minha coleções adolescentes. E eu, que acompanhei o surgimento dessas inovações todas, já me assemelho a um velho - carinhosamente falando - daqueles que se deslumbram a toda hora com "o novo", que dizem "no meu tempo..." e se veem ultrapassados por sua própria vida.

Tenho saudades da procura, mas não dispenso a chance do encontro.

(Guardo minhas cartas na gaveta pra que elas não confundam minhas digitais.)


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Noubar Sarkissian Junior
sarkissianjr@gmail.com
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Apenas o Começo




Há tantas cidades pra se conhecer, que até me pergunto se não foi demasiada minha teimosia de querer voltar ao Rio de Janeiro. Às vezes eu procuro algum indício de bairrismo, ou algo que me faça ver aquela cidade com menos apreço. Ouço o sotaque carregado, zombo, e em pouco tempo já estou o imitando sem destaque pejorativo. Eu não exageraria a ponto de dizer que sou um carioca por simpatia, mas é mais provável que eu realmente me adequasse melhor àquela geografia. Não há solidão quando se tem a praia ao lado de casa. E além da praia, há o morro de santa tereza (bondinho, parque das ruínas), a lapa, o maracanã, o jardim botânico, os museus todos (em 2º plano), a confeitaria, os mirantes (cristo, corcovado), a ponte rio-niterói: tudo tão perto. Mais ainda: tudo vigiado por favelas tão íngremes quanto próximas. (Tudo vigiando/amontoando as favelas.) Cada morro, ameaça que ronda e orna o discurso da classe média carioca, é um selo de qualidade à cidade. É a prova de que a submissão periférica e escorregadia, imposta há mais de duzentos anos, ainda vale tanta pena. E vale pra caricaturar mais ainda o lugar. Triste ou não, os morros cariocas jã são atração turística. A pobreza está a venda, e mora bem acima de nossos olhos.

Fiquei indagando meus motivos pra gostar tanto de estar no Rio. Vai ver só gosto porque permaneço ao nível do mar, porque me hospedo em regiões relativamente seguras, e porque lá, como vou sempre a passeio, posso andar largado, de regata e chinelo, sempre com uma sunga por baixo da bermuda, pronto pra improvisar um mergulho. Meu Rio é deveras encantador. Quente um pouco além da conta, mas ainda assim agradável. Se antes eu dissera que ir ao Rio é estar no meio do caminho pra Bahia, agora é como se eu já pudesse ter ido a Salvador mas tivesse optado por parar na metade. E aí a metade passou a ser meu fim. E ir à cidade maravilhosa passou a ser um recomeço periódico. Ela tem bastante a me oferecer, e eu tenho lacunas pra preencher por lá. Aliás, tenho muito a mudar ali, ou muito a ratificar. Revisitando minhas impressões de alguns meses atrás depois de ter escrito essas, notei o quanto sou o mesmo, o quanto foram semelhantes os passeios e os modos de narrá-los. Sorrio sozinho, notando coerências e sonhando contradições.

Tudo poderia ser diferente, mas sai de mim, enviesado por intenções mirabolantes e semi-concientes. O Rio é meu espelho. O rio me faz escrever na subida, corrente oposta. Onde chegarei com mais palavras? Quantas memórias hei de juntar até não ter mais tempo de revivê-las? Quando terei minha morada ideal em recortes fotográficos? Voltarei outras vezes, e misturarei de vez minhas lembranças. Por enquanto, pra não ficar no mais do mesmo, apenas comentarei as fotos que virão a seguir (clique sobre as imagens e, num passe de mágica, elas aumentarão).



A primeira, logo acima, é uma referência ao filme "Apenas o Fim" (tal como o título do texto), citado por mim em dois textos, sendo que, no primeiro ("O enterro do prodígio") eu nem sabia do que o filme tratava (sabia apenas que o diretor era precoce), e no segundo ("Olha a gente ali na telona!") eu vivia o êxtase da contaminação imediata pós-sessão. A foto foi tirada na PUC-Rio (onde todo o filme se passa), e remonta uma cena clássica do filme, onde o personagem de Gregório Duvivier fala sobre seu vizinho que costuma escutar Adriana Calcanhoto no repit. Entrar naquela faculdade (privada, protegida, filmada) foi bastante difícil, mas conhecer o que pra nós era mais um set de filmagem do que uma universidade valeu cada argumento gasto com os seguranças. Valeu, Antônio!



Foto tirada do exterior do Museu de Arte Contemporânea, situado em Niterói, e projetado pelo imortal Oscar Niemayer. A vista do lugar é lindíssima, e o que mais me chama a atenção é justamente o fato de o museu ser visitado mais por sua arquitetura do que por seu acervo. Outra coisa pitoresca é que a localização privilegiada foi assim descrita pelo meu irmão: "os cariocas, com certo grau de rivalidade, dizem que o melhor de Niterói é a vista pro Rio"

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Essa do Estádio merecia um texto exclusivo. Trata-se do Engenhão, onde fui ver Botafogo x São Paulo, jogo válido pela antepenúltima rodada do Brasileirão. Eu, sãopaulino inquestionável/fanático/frequente/congênito, fiquei na torcida adversária, e até comprei camisa do Fogão! Vi um dos melhores jogos do ano (5 gols, 2 bolas na trave, muita disputa) e torci pros dois times ao mesmo tempo. Vibrava a cada lance de perigo/gol do Botafogo, e vibrava também (interiormente) nos lances do tricolor. Foi uma dança dentro de mim mesmo. Como se eu tivesse me domando, brincando de rival. Há quem não me perdoe por ter "virado a casaca", mas há aqueles que conseguem ponderar a situação e me absolver. Experiência única, numa tarde muito quente e muito esperada. Nunca havia me imaginado cantando "sai do chão, sai do chão, a torcida do fogão!", mas foi bom à beça, mermão.

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Referência à viagem que fiz ao Rio no começo desse ano, onde, nesse mesmo lugar (entrada do Jardim Botânico), as meninas tentaram imitar as estátuas. Dessa vez, fomos nós, e o resultado ficou bem melhor.



Arpoador. Baita clichê turístico, mas chichê justamente por ser magnífico estar ali em um fim de tarde. É virar as costas pra cidade e encarar o mar de frente, e ver a água de cor indefinida junto às pedras. Aí lembrar do caetano cantando "barra, gávea e arpoador" e fazer o caminho mentalmente. Lembrar também quando liguei lá de cima pro Bruno querendo saber como tinha sido o show dos Los Hermanos na noite anterior e ele, desolado, disse ter perdido o voo. Bom, tradiçãozinha.



"Pensamos que todo pássaro cantando é feliz. Pode estar pedindo ajuda." (Fabrício Carpinejar)



Rocinha. Maurício nos alertou: "quando terminar o túnel, olhem pra trás. Sigam em frente, mas olhem pra trás. Irão ver a Rocinha." Impactante, não?



"Tem sempre de tudo no trem que sai lá da central". Esse lugar também soa meio anacrônico. Não tanto quanto os bondinhos de Santa Tereza (que, ao estarem tão deslocados no tempo, evocam um anacronismo delicioso), mas um pouco. E, no meio de tanto "arcaísmo", há os novos trens, cheios de ar-condicionado e letreiros eletrônicos. Algum envolvimento com esse lugar, com o filme do Walter Salles, com a música adolescente do Zeca.



Vontade de fazer lual na prainha. Integridade pra cantar "Hoje a tarde a ponte engarrafou..." e saber que poderíamos, sim, estar falando da ponte rio-niterói (mote da música). Não precisar, então, cantar "hoje a marginal engarrafou...". Junção de duas coisas tão caras a tantos de nós: música e praia.



Lapa. Sambistas fantasiados de sambistas, cantando "eu fui fazer um samba em homenagem a nata da malandragem...eu fui à lapa...". Tudo o que se espera ouvir ali, mas com uma autenticidade quase que involuntária. O rapazinho do pandeiro, com seus máximos 17 anos, era um fenômeno. Tinha os trejeitos e as marcas (dedos com esparadrapos à Seu Madruga) de um esforçado percussionista, e a habilidade e segurança de um bom percussionista. A mim aquele samba foi uma sessão de hipnose nostálgica. Pedi músicas outrora cantadas por meu grupo de pagode juvenil, ameacei pagar uma rodada de cerveja se tocassem "Falsa Consideração", não paguei, e revivi.




Paulistas.

E é isso. Sigo assim: esrevendo e contando o que eu vi, e desenhando meus passos em deslizes virtuais, nessa mistura de referências e reverências.

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"Eu não sou da sua rua,
Não sou o seu vizinho.
Eu moro muito longe, sozinho.
Estou aqui de passagem.

Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.
Estou aqui de passagem.
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu"
(Arnaldo Antunes)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Decreto

Ao sindicato da dor
declaro, dormente,
eterno feriado;
trago, prudente, doutor,
dou terra e telhado...

e decreto adeus.

Ao sindicato da saudade
dedico o detalhe do dia;
o que um dia      distante,
depois,
traz nós dois em dueto,
do lado,
de tantos sonetos
ditados...

e desligo o adeus.

Ao sindicato da vontade
entrego o destino;
destaco o p-a-s-s-a-d-o
e deito, 'detido',
de dias contados
vendo a tarde anoitar...

e adiaaaar meu adeus.


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P.S.: relevem o uso desses "efeitos". Fiquei entre publicar o poema (exercício) "normal" ou assim, ressignificado. Reforço minha interpretação de mim mesmo, e lhes aponto o que se passa comigo enquanto escrevo. Por outro lado, limito (ao expandir) e direciono sua leitura. Tudo bem?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ao atlântico

Se eu queria algum poder?

Queria poder sair:  daqui
                                           de vez
                                           do sério
                                           da  linha
                                           mais cedo
                                           de mansinho
                                           voando


E o mar? o mar não acaba nunca. A estrada? demora bastante pra terminar. Termina porque o mar é maior, e aparece. Vá até o fim da estrada, e tudo vira água. Saia. Eu sairia também, mas (mais) covarde é o receio que me habita. Estranho é querer tanto uma coisa, como queremos tanto tantas coisas, e apenas vigiá-la de longe. O olhar basta ou atenua. Não deveria. Melhor se atiçasse, impulsionasse. Ontem renovei meus impulsos de aventureiro. Ontem acumulei mais planos de fuga. Uma hora a gaveta enche de projetos, e há de se fazer algo: joga-se fora ou aplica-se. Aquele filme sabe muito de mim. Investigou meus anseios e os apresentou à telona. O acaso, a falta de ação, o olhar acentuado em detrimento dos sentimentos, o seio branco da mariana ximenes, a diretora no após, a saborosa velhice nas palavras, o caio em suas paixões-relâmpago, a descida da augusta, o outro seio dela, os finais todos, a rodoviária do tietê, o tal do hotel, a sensação de que quase sempre vale a pena, o cansaço. Isso sou eu, e estava ali: no convite, no filme, no voltar pra casa, no ter de escrever sobre isso, no não tentar clarear as idéias, mas sim libertá-las. Pegou, pegou. O que não sacar critica, invalida, esquece, lê de novo. A tal da kinderovologia do melamed. O danoninho que dava pra colocar no congelador e virava sorvete. Há algo melhor? Não há: a minha combinação preferida (agora) é estudar kinderovologia enquanto chupo um sorvete de danoninho. Ainda melhor se fosse na casa da árvore, com Tom Yorke fazendo um fundo musical. A experiência desse filme me fez bastante bem, mas isso não garante a recomendação. Vá ver "hotel atlântico" algum dia desses. Vá pelo seu deslocamento no mundo, por suas vontades mal-resolvidas, pela chance de cantarolar "socorro, não estou sentindo nada", pela bela fotografia, pelos ótimos Julio Andrade e João Miguel, pelos inesquecíveis seios da ximenes, pela vontade de usar um possível desapontamento para desfazer de mim em qualquer situação permissiva. Vá sim, me conte o que viu, como reagiu. Conte-me onde sua vida foi parar. A cena em que dois dos personagens vão ao encontro do mar é das mais belas que já vi. O mar, que "não acaba nunca". Ainda mais contagiado, saio agora, com danoninho e kinder ovo na mala, e vou à praia, pra ver se ela ainda é aquilo tudo mesmo.





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Em cartaz no Espaço Unibanco da Augusta, São Paulo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lá Maior




Lá (é) mais alto, oitava acima.

Lá, em volta da pirâmide, eles gritavam:

Cadê o Belchior?

Lá as coisas demoram a chegar. Independem da pressa. Lá é a terra dos vadios. Vadio, lá, é adjetivo carinhoso. É caricato, com violão nas costas, sem saber da morte do Raul, a suspeitar as horas pelo sol. Eu lá gosto de vadio? Aprendi a simpatizar. Pedi passagem, pedi um pouquinho de pôr-do-sol, pedi uma canção que não fosse reggae. Eu lá gosto de reggae? Nem lá.

Sou vadio de mentirinha, de chinelo e barba esporádicos. Sou vadio domado, de violão sem palheta. Também gosto de Belchior, mas, vadio incompleto que sou, já sei que ele está no Uruguai. Antes não soubesse, e ficasse a gritar "Cadê o Belchior?". Já gritou/falou/pensouemgritar isso? Soa bem, e já vale o esforço. Aquela imagem de galera reunida, contando até três e soltando naquela tradicional quase-sincronia: "Cadê o Belchior?". Não importa se alguns da galera saibam onde ele está. Importa o som entoado. Não faz muito sentido a vocês? Certamente faria se ouvissem os vadios: iria ficar na sua lembrança.

Lá é muito mais coisas. (Eu não perdoaria o Belchior se sua digressão me tomasse o texto todo.) Lá é o lugar do misticismo construído: da pirâmide que nasceu como boteco fracassado, da gruta com fim desconhecido - e que dizem levar a Machu Picchu -, da ladeira onde o carro sobe sozinho. Ceticismo lá é inconveniente, mas não inegociável.

Aproveita-se a cidade em suas camadas: há quem acredite estar num atalho pra terra dos incas, e há quem apenas queira brincar com morcegos; há quem jure ter visto Raul Seixas na noite anterior, e há quem nem goste de Raul; há quem se banhe nas cachoeiras pensando na magia incomum daquelas águas, e há quem só aprecie a beleza do contorno esboçado pela natureza molhada; há quem goste do pôr-do-sol, e há quem espere a lua.

É mato. É pedra. É começo de caminho pra um monte de gente. É refúgio praqueles que buscam voltar a acreditar na transcendência. É refúgio pra mim, que nem sei acreditar em nada, mas que ainda acredito em meus sentidos. É bonito demais. É cheiroso. É sonoro em seu silêncio. É gostoso.

E é tão fotográfico. Segue sendo um lugar tão iníquo quanto o que há de turístico por aí. Se fosse filme, não seria lírico, mas é foto: é o que eu quis enquadrar. É o mundo forjado (fascinado) por meu inconsciente. É a expectativa pronta pra ser atendida: água doce contada, e depois cantada.

Não há culpa em ver o que se quer ver. Não há mal em guardar a quintessência de nossas lembranças. Eu quero mesmo é ter saudades. Lá é o que as duas meninas me pintaram, carinhosas, comparsas. Lá agora é o lugar das três meninas (caídas d'água), e elas o emprestaram preu ver de perto.

Devolvo-o de bordas roídas.

Guardei um pedaço pra mim.

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P.S.: um pouquinho de São Thomé das Letras. Clique nas imagens para vê-las maiores.










P.S.2: Cadê o Belchiorrrrr?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Chuva e Praia





"Respirar
sentir o sabor do que comer
Caminhar
se chover, tomar chuva"
(arnaldo antunes)





Não é comum eu repetir temáticas. Menos normal ainda é escrever dois textos seguidos sobre eventualidades climáticas. É notória a irregularidade do tempo: que a minha também seja permitida.


Comprometi-me a falar sobre a junção de mar e chuva. De praia e chuva, na verdade. Essa mesma imagem que já deve ter surgido em sua cabeça. E as outras possíveis. É isso: vamos de praia, não só de mar.


Mar e chuva é dois; praia e chuva é par.


Mar é prosa: é todo extenso, sabe de tudo. É explorado devagarinho, vez em vez, com a certeza de quem sabe que irá encontrá-lo sempre, verde, azul, sem cor...ondulado.


Chuva é poesia: pode ser pequena, quase haikai. Pode ser grandona, quase lusíada. É devorada, arrebata, deixa todo mundo sem entender nada. Gera um sentimento sempre relativo. Chuva na cidade: inferno. No campo: vida. Na praia:


Esperem! Na praia. É disso que eu prometera falar.


A chuva chegou. Pense nela vindo pela voz do Arnaldo Antunes, da "epígrafe" ali de cima. "Chuva naquela voz é trovão"*. Chuva na voz do Lirinha, ali do "epílogo", é trrruvão. Na minha é papel. Escrevo minha voz pra não ter de falar muito. Chovo escrevendo c + h + u + v + a: chuva!


Agora, admitam, por mais que o sol seja automaticamente associado à praia, é lindo o encontro das águas, não? Ver o mar bebendo água. Ele, que chove em si mesmo, que é todo molhado, não manda na chuva. Espera-a. Quando não chove, o mar é sertão. É minguante.


Praia com chuva é deserto. Soa estranho praia e deserto, mas é o que é. E praia deserta é tão praia, tão bonita de ver. Começa a chover, e é contramão: famílias fugindo pros seus refúgios, areia esvaziando, e a chance de meninas chegarem correndo, cantando, traindo o sol.


A mão aberta, espalmada, conta-gotas.


E o ponto de exclamação não lembra gota, água? Sintam: ! (gota); !!! (chuva);
!!!!!!!
!!!!!!! (temporal)

(Procurando fotos que ilustrassem esse texto, o que eu mais vi foi gente se protegendo da chuva em plena praia. Tão desvirtuada fica a paisagem. Desvinculem de minhas palavras a noção de tempestades assustadoras, que essas também me afastam. No mais, deixemos chover. De leve, haikai, lembra?)


Gosto de sol. Gosto, feito todos nós, de vê-lo nascer e morrer, mas também gosto de chuva. Daquelas cenográficas, de tardezinha, que vêm e desiludem o pôr-do-sol (sei que o que pareço estar dizendo é que gosto de praia, seja como for. E é, mas não importa, pois era a vez da chuva, ok?)


Que o sol venha outro dia, e eu o escrevo com igual prazer.


Hoje chove por aqui, e é como se eu precisasse estar na praia pra ao menos constatar meus exageros. Eles resistiriam, literários, prescindindo da realidade, que é tão mais distante... e não vale a pena.



"O sabiá no sertão
quando canta me comove
passa três meses cantando
e sem cantar passa nove
porque tem a obrigação
de só cantar quando chove"
(declamado por Lirinha)

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Texto resultante de uma proposta feita por Camila de Sá. Nós dois tínhamos de escrever algo sobre praia + chuva. Se quer mesmo me ser leal, vá ao blog dela e complete suas impressões! http://rabiscadores.blogspot.com/

* frase de camila de sá

P.s.: foi eu falar da chuva e pedir que ela não viesse na hora do futebol, e pronto: ela veio, no último sábado!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Com que roupa?





"vai chover... de novo
deu na tevê...que o povo
já se cansou...de tanto céu desabar"
(Marcelo Camelo)



Basta não ter o que dizer, e se recorre à instabilidade do tempo. Conversa de elevador, de sala de espera, de semi-conhecidos. Quem explica esse frio de hoje se estava tão quente ontem? Será que vai chover no fim da tarde? E eu sempre saio sem blusa...que tempo doido, não? Acrescente as frases similares que cansamos de repetir por aí, trocando tempos e semblantes gentis, e teremos nosso repertório de insatisfações climáticas. Agora o coloque sob seus olhos, e pressinta o que irei dizer.

Escrevo pra me opor a essas reclamações. Sou conhecido e caçoado por não me dar bem com guarda-chuvas e, vez ou outra, chegar a algum lugar com umas gotas a mais no traje. Há ainda os maldosos, que dizem que meu cabelo (de microfone, cotonete, valderrama, etc) é que substitui o protetor chuvar, e que, portanto, não é mérito nenhum eu abdicar de seu auxílio artificial. Descontadas as calúnias, garanto: prefiro a chuva, sempre. Andaria sem guarda-chuva ainda que a chuva fosse a mais provável das supresas verpertinas.

Pois bem, apelo à delícia que é o acaso. Defendo a imprevisibilidade do tempo. Sem ela, seríamos tão mais sisudos. Do que falaríamos quando nada fosse contrário à normalidade e à rotina humanas? Aí que está a chave: o "normal" de nosso clima é ser caótico. Semelhante ao que se dá com a metrópole mal-criada: via de regra, é caótica. Patológico seria se pudéssemos domar também o clima que nos abriga (já que as cidades, excepcionalmente, podem ser domesticadas até o habitável). Obviamente, há um pouco de (descaso) humano no caráter descontrolado do tempo, mas há também a insubordinação da natureza às nossas leis. Que ótimo, não?

Tanto escrevo, tanto escrevo, e ainda não disse. A pergunta: quem é/está maluco? O tempo? Ou nós que, condicionados à vidinha de filhos-que-não-saem-de-casa-sem-uma-blusa-de-frio-na-bolsa, blasfemamos aos céus a cada pé d'água insuspeitado? (essa é a típica pergunta tendenciosa, que quase o obriga a concordar comigo. Se não quiser, no entanto, não o faça. Responda: "maluco é o tempo mesmo." e terá, no mínimo, a aprovação segura de minha avó. Segundo ela, no Egito tempo de frio era frio, de calor era calor: cobertores dobrados no fundo do armário. De qualquer modo, lembre-se: pirado é você)

Passo um pouco de frio, mesmo que apenas sirva pra chegar em casa e, ao ouvir o "não te falei que ia esfriar a noite. Passou frio, né?" de minha mãe, dizer: "Não, não passei." Tomo bastante chuva, imaginando cenas de cinema onde casais fazem da água um motivo pra se molhar. Onde o homem torce pela chuva pra poder, cortês, oferecer asilo à sua dama. Meloso, até. Vá lá, molhado.



O certo é que o clima descompassado é uma de minhas últimas esperanças.
Enquanto desafiar nossa lógica e se rebelar contra ela, estará a salvo.

(e enquanto os grandes desastres naturais não chegam até nós, ocidentais marrentos, continuemos fingindo que o tempo é que está maluco.)






"Rain, down
rain, down
Come on rain, down
on me"
(Tom Yorke)



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P.S.: enquanto eu escrevia, Carol falava (sem nem saber o que eu estava fazendo): "aí começamos a falar do tempo...puta conversa de taxista, de... (não lembro o outro)"


P.S.2: e que só não chova na hora do futebol.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Papel

Pra palavra
é o palco
postado
a esperar...
um papel.


Papel dá palavra

Papel no começo
enga  tinhado
sentido, sem tema:
[papel pintado

    de uma só vez]
    pequena mão
    papel ras-ga-do
    se digo não.

Papel dá palavra

      Papel em branco
      de canto enfeitado
      e letra aprumada
      com tanto a dizer:
      papel de carta

         Amor de papel
         par tido, sonhado,
         em véu [escondido]
         papel    ________
                        assinado,
         passado.

(Papel dá palavra

            e serve o poeta
            que pena, pondera
        papel rasurado,
            amassado,
            ocupado
            com a palavra papel.)

Papel dá palavra

                 e adoece
                 marcado, timbrado
                 [cercado] de fel

                       papel amarelo
                      tão perto do céu
                       pra quê o papel?



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P.S.: Papel dobrado:
          passarinho

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Queime depois de ler

"Minha mão está suja

Preciso cortá-la." (CDA)



Quanto  vale uma lembrança?

Como maltratá-la? A quem ela serve?

Escrevo por não gostar de esquecer.  ( e quem gosta de ser esquecido?)


Dedicatórias. Mais gostoso que ganhar livros, é notá-los dedicados. De um calhamaço genérico e replicável, cria-se o especial. Cria-se a vontade de saber o que a pessoa quis lhe dizer ao oferecer esta ou aquela obra. Separemos os planos: há as dedicatórias formais, feitas geralmente pelos autores (como na foto acima), que refletem apenas uma admiração unilateral, idealizada; e há as dedicatórias sentimentais, tecidas por amigos, namorados, admiradores secretos. A estas me apego. Dedico-lhes gavetas e estantes, mais estas linhas. Às outras reservemos os museus, os grandes memoriais, e os póstumos leilões. 

Escrevo dedicatórias como quem prefacia um livro, tencionando me aproximar das palavras que virão e das pessoas a quem me dirijo. Junto as frases alheias às minhas, e ensaio a intimidade pela literatura. Crio a expectativa da avaliação do outro. Se gostar, reitera nossas afinidades. Se não, é questão de gosto (, né?). Chegará o dia em que eu escreverei dedicatórias em cadernos em branco, oferecendo-as como protagonistas, não como aperitivos. Poderão escrever maravilhas nas folhas, agigantando minhas palavras, ou simplesmente as deixarão alvas, constituindo o livro sobre o nada: o meu pretexto pra dedicar.

Dia desses eu soube que uma de minhas dedicatórias fora destacada de um livro. Sob a alegação de que o ato serviu para evitar um constrangimento com a pessoa que iria recebê-lo por empréstimo, a folha de rosto, pintada por meus dezenove anos, fora suprimida. Melhor que tivesse me pedido outro exemplar, ou que tivesse negado o empréstimo. Antes mesmo tivesse, num acesso de raiva, queimado todo o livro. Que ele tenha resistido, dissimulado, amputado, é que me chateia. Voltou a ser mais um dentre os tantos ensaios sobre a lucidez. Voltou a ser papel inanimado, comercializável.

(Numa situação semelhante, talvez eu hesitasse ao pensar no que fazer, mas o provável é que eu delegasse à própria pessoa a opção de lidar ou não com palavras supostamente indesejadas)

A folha dedicada, ao que parece, está guardada nalguma gaveta intocável. Ficará lá, aguardando (o quê?), alheia à trajetória do livro que a motivou. Antes carinho, agora veneno. Por ser nociva, fora afastada. No fundo... não a culpo. (porque) Conheço-a. Não peço que partilhe de meus valores cacetes. Mais: não pretendo escrever para crucificar os que abdicam de palavras a si dedicadas. Minhas palavras é que são corporativistas, e defendem umas às outras.

De algum modo, é como se eu cantalorasse Adriana Calcanhoto (o retrato que eu eu te dei / se ainda tens, não sei / mas se tiver, devolva-me). É como se eu precisasse saber quem eu fui. É como se, pelas minhas próprias palavras, eu voltasse aos meus anos pregressos. Não prescindo mesmo daquilo que já não é mais meu. As coisas passam, mudam... e algumas páginas já não dizem nada: é preciso [cortá-las.(?)

Ou reescrevê-las.(.)]


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"Pra esvaziar o já deserto
desorienta o incerto
ruma sem trajeto
nunca existiu mas eu deleto".
(Lenine)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

p&b

Basta que batam as botas:
brotam palmas.

Podre mas bento.
e palmos abaixo,
putrefato palácio.

Palavras prudentes
abraços impostos
dispostos parentes

bradam compostos:
"um bom rapaz..."

De paz precoce
e inesperada

Padece parado,
pequeno, partido,
embalado.
(pode o padre puni-lo?)

Balelas: e a benção.

Célebre epitáfio,
espetáculo hipnótico
de patética hipocrisia

Bravo!
Poucos aplausos
e um breve brilho fúnebre.

Pó.




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"A morte aumenta o caráter"
(se alguém souber a autoria, que diga.)

P.S.: poema escrito em exercício que autoriza apenas o uso de palavras que contenham "p" ou "b", mais artigos e preposições.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

é Briga



Foi bem em frente à Rede Globo. Bem ao lado da ponte nova, pomposa. Diria até que sob o alcance das câmeras de segurança da emissora. Após a freada, também esteve vigiada pelos meus olhos. A batida. Dois ônibus fretados, que acabavam de passar pela Berrini, e deixavam seus últimos passageiros nas respectivas empresas. O da frente brecou sem motivo explícito, e o de trás não teve tempo de parar: estampido. Quem bate atrás, dizem as leis de trânsito, SEMPRE está errado. Um sempre importante por ser objetivo (já que lidamos com versões normalmente opostas), mas inócuo e falho. No acidente de há pouco, o de trás não tinha o que fazer. E isso ele mesmo soube, mas assimilou com uma indignação por mim inesperada. O motorista, já de meia idade, saltou do ônibus e se dirigiu tresloucado ao motorista da frente, que saía com um semblante de "eu posso explicar". Não houve tempo. De súbito, uma tentativa de soco no rosto. Então, só porradas: desconexas, míopes, de raspão. Brigavam como quem erra de propósito. Como quem tem de brigar mas torce pra que a turma dos apaziguadores chegue logo e separe. Eu estava na calçada, meio atônito, meio nos tempos de briga no recreio, meio "que se matem", meio "e os passageiros?", meio "será que esperam que eu corra pra separar?". Mantive-me inerte, com uma leve reduzida de passo. Eu realmente não queria completar o ritual dos machões. Que ficassem lá até cansarem de errar um ao outro. Se fosse eu no ônibus da frente, sei lá, viu. O cara de trás já veio socando. Como eu me explicaria? Não teria jeito: seria correr ou sair no braço. Imagine um cara do meu tamanho (1,90m) correndo de um tiozinho barrigudo, bigodudo, clássico cobrador, mas motorista. Imagine um cara de minha pacatez (ficha limpa) trocando mãozadas com um quase-senhor. Foi nisso que fui pensando: em como eu também era um motorista da frente, sem voz, sem razão, sem rumo. E eu não era um motorista de trás, mas simplesmente por não saber brigar, porque nervosismo eu teria de sobra, sabendo que meu meio de trabalho estava avariado, que vários procedimentos burocráticos me aguardavam, e que haviam outras pessoas dependendo de meus serviços. Passei como mero espectador, sem o heroísmo dos "deixa-disso" nem a maldade dos que botam fogo ("orra...orra, vai deixar?"). Logo uns carros pararam, e motoristas engravatados "fizeram sua parte", mostrando que "não precisa disso", pedindo calma, e zelando pela paz mundial. Buzinas. Segurança comenta: "Que cacetada, hein?". Crachá. Catraca. Elevador. Tempo deles.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Corpo


Um instante,
e já és outro.
Olha, ouve, olfata...

Ou finge.
Finge que sente,
e mente, crente de saber
do teu poder de ser depois

Tente sobreviver à
minha morte,
eternizar meu mundo inerte,
fingindo beber a sorte
que nos fez dois

Tente, corpo estranho,
ser meu legado torto,
minha pena destacada,
meu aborto de mim mesmo

Verás que nunca tive alma,
que vivi pela metade,
pela maldade de assistir sua
liberdade
sem sequer anunciá-la



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Outra vez, tema e título obrigatórios.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Uma vontade de tocar violão



Sol maior.

Não tenho a destreza de um instrumentista profissional, nem a agradabilidade do timbre dos cantores de ofício, mas gosto tanto disso: sentar em qualquer lugar, fazer o ritual de afinação, e ensaiar a música favorita do dia. Com ou sem ouvintes, é bom. Com, o repertório é um grande desejo de satisfazer a expectativa do(s) outro(s). Sem, o que se passa é um repit interminável do que move meus ouvidos. Ontem mesmo, toquei "Last flower in the Hospital" umas oito vezes. (Quem mais suportaria?)

O violão é o instrumento mais indicado a pessoas como eu, já que é tão portátil e tão genérico. Leva-se pra onde for, e toca-se de tudo sem a necessidade de mais nada. Em casa ficam os adereços (cavaquinho, guitarra, bandolim), mas eles demandam coisa mais séria, de grupo. Pra legislar sobre minhas sensações, só o violão. Se estou triste, seu som faz da tristeza algo tão bonito que dá vontade de ter sempre. Se feliz, é como se ele levasse a mais gente uma dose de alegria.

E é até insólito o fato de eu me aproximar do violão ao mesmo tempo em que ele se distancia de meu ganha-pão. Já não vejo como muito plausível a possibilidade de viver DE música, mas cada vez mais vivo COM ela. Aos poucos vou fazendo as minhas próprias, e só a sensação que isso me causa já parece valer a pena. É decifrar um mundo antes intocável, apresentar-se a si mesmo, ser seu juiz. Se não convencer, é só voltar às dos outros, e tá bom!

Minha relação com a música parece mais madura, estabelecida. E por vezes juvenil, que é pra descompassar um pouco. Crescer é bom apenas porque as manias de jovens entram em evidência, ganham em importância. As reuniões violonísticas têm sido mais frequentes, e os espaços da usp têm me apresentado diversos malucos desejados, que param ao ver alguém com um violão, e logo se abrem, cantam junto, compartilham fraquezas e entusiasmos!

Acho sempre gostoso: cantar com os conhecidos e com os estranhos. Com estes normalmente não me encontro mais, e fica a promessa do "a gente marca de se encontrar". Fica a semi-amizade construída somente pela música que fizemos juntos, e a impressão de que muitos de nós poderíamos ter nos encontrado antes, com o auxílio de algum acaso de violão convidativo.

Cheguem mais perto, tragam suas folhas cifradas, suas memórias, seus anseios a serem cantados, que eu vou afinando por aqui.

(Apareçam!)



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Desenho de Camila de Sá (clique sobre ele para ampliar).

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Quase um pedido de perdão. Vão.

E não vou pagar. Alguns males são inafiançáveis. Virão dizer que minha atrocidade era inesperada, que minha credibilidade nunca fora questionada. Tão condicionados, tão ingênuos. E não cheiro a leviano mesmo. Sou um cara certinho, sem prestações nem favores a quitar. Ergui minha reputação, e agora a jogo ao chão. Não vou pagar. Por acharem a situação reversível, hão de me multar, de me intimar, de me espancar. Não, não pago. O que mais importa nesse momento é ser não-eu. Confabular, atirar giz no coleguinha, pular a catraca do metrô, inaugurar facções. Gravata froucha. Tragam terno branco e cartola, e se juntem a mim. Tracem planos hediondos, e me envolvam. Lesem o erário público, e depois me contem, que eu publico. Hoje a culpa é minha! Ajudem-me a redimensionar meus valores. Mostrem-me o quão tépida minha vida pode ser. O quão entregue a pessoas que sequer me notam, e tão relapsa aos que carecem de meu carinho. O quão é dependente de feriados nacionais. Não me paguem, e digam "não pago,e aí?". E aí nada. Os credores se equilibram. Na média, é chapéu por chapéu. Roubam-me umas horas, e eu roubo paciências. Não falo de dinheiro, mas de outras manias. Dinheiro não se paga desde antes. Eu não pagarei é todo o resto. Aceitem notas musicais, e eu as garanto falsas. Calculem em pentagramas, e me mandem a partitura. Se quiserem, mandem apenas as cifras. Quem sabe eu não consiga redimir os danos causados nesse dia torto, irrepetível. Hoje a culpa é minha, e aproveito pra ser mau de verdade. Não espero desculpas; curto a sordidez de minhas palavras antes de me arrepender por completo. Antes de botar o último ponto. Amanhã me procurem sabendo que voltei a ser o de sempre, mas hoje me evitem. Hoje a culpa é minha, e não o afirmo por ser mais digno, mas por ser mais covarde ainda. Que ficassem com a impressão alterada, e seria justo. Culpo-me pra limiar meu perdão. Escrevo às pessoas que pouco me sabem, e me calo diante dos que me alimentam.

Hoje, por causa de um livro amassado, uma bosta de um Ulisses eternamente por começar, fiz minha mãe chorar.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Água




Rio de tua essência
antes que zombes de minha inútil solidez
Antes que leve, rio descendo,
as folhas envelhecidas,
envenenadas por si mesmas,
e foragidas de minha tez

Rio por ver-te mar,
por te perder de vista,
por não dimensionar sua vontade

Não temo sua liberdade,
mas seu poder, líquido lírico,
de ser o mais em mim

Se eu pudesse, chovia,
e riria, num raio que te anuncia,
ao ver sua força minha,
falha e frágil

Rio de ti, mesmo em poema.

O riso é o sol, raio que te evapora e te reforma
Rio se triste, se contente,
e concedo-lhe um lar
Te dou proteção
e não te faço lágrima
pois só és minha enquanto eu não chorar



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P.S.: texto produzido como exercício: gênero (poema), tema e título impostos e, descontado o desconforto da "primeira vez" (poema), bem aceitos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Primeiro dia de aula

Chego mais devagar do que o normal, inventando obstáculos, desamarrando os sapatos apenas pra ter o que amarrar. Sem pressa, buscando o encima da hora. Estar no limite, tal como estar atrasado, é cartão de visita: coisa de gente compromissada. Ou coisa de quem mora longe. Pontos a favor. Ou coisa de vagabundo mesmo. Deem os pontos que quiserem, e eu ofereço minha cumplicidade. Sou o quase vagabundo, disfarçado de pontual. Esbaforido na essência, mas relapso no simular.

Ver um bando de rostos desconhecidos, e não ter mais a vontade de conhecê-los. Coabitar sem conviver. Cumprir, esperar acabar, desnotar. Desentender os motivos que me fazem continuar, e me conformar com o brinde de papel enrolado, quiçá enquadrado. Os amigos vão saindo pra rua, pra vida. A porta, traiçoeira, mostra a sombra, e nem dá pista de luz. O mundo é escuro ou meus olhos é que nasceram cansados?

Quando criança ainda havia a inibição, o medo de gente. Ouvir o nouBAR da chamada era o mote pras risadas dos "coleguinhas". Preferia as semanas seguintes, quando éramos chamados pelo número. 27, 28, até 30 fui. Tinha tempo suficiente pra fazer tarefas de casa enquanto os colegas das primeiras dezenas iam mostrar o caderno pra tia. Registrarei meus filhos do M pra frente, e lhes darei, de primeira, vários pontos positivos no diário da professora. Mentira. Filho é coisa do passado. Eu sou melhor avô do que pai, e ainda não descobri como driblar a genealogia.

Eu agia assim. Ia totalmente contrariado. Tinha pavor de conversar com meninas, pois "elas gostavam mesmo era dos caras das séries superiores". Ou se era um galãzinho, ou se tinha vergonha de estar ali perto delas, deusas de nossa imaginação. Procurava me amigar dos outros meninos, e optava pelos também estranhos. Formávamos turmas estranhas, falávamos de futebol (sem saber jogar), mulher (sem sonhar pegar), e de lições (que era o que restava). Tudo se ajustava, estranhamente.

Conversa. Hoje chego tão devagar quanto sempre. O distinto é não ter mais a esperança de que a gente muda com o tempo. As características crescem conosco, e apenas se adaptam às novas pessoas, aos novos lugares. Não há medo, há indisposição. Não há chacotas, mas nem risadas. Somos adultos, e deveríamos escolher melhor. Autonomia: engodo bom. "Introdução aos estudos da educação: enfoque sociológico": o curso.

Desgaste. Outro item pra coleção dos parágrafos melindrados. Vontade de começar as coisas pelo meio, de atalho.

Tão estranho e constrangedor: meu primeiro dia de aula.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir!"



É tão gostoso descobrir alguma coisa e depois elevá-la ao nível das coisas indispensáveis à nossa sobrevivência. Meio que pra fundi-la a si, dar-lhe um sentido absoluto. Oferecer um bom motivo pra que ela se integre à gama de experiências que nos compõem, esculpem. Eu também adoro, e tendo sempre a ser passional, a me auto-flagelar pelas lacunas que ainda habitam minha personalidade. No específico caso que me faz escrever, há ainda mais culpa, pois essa descoberta está se dando aos poucos, devido a uma teimosia de minha parcela musical.

Todos nós, em algum momento da vida, esbarramos com os caras dos Beatles. Pra uns há a influência de parentes fanáticos pela banda, pra outros há o embalo comum entre um grupo de amigos, e há ainda os que embarcam nessa por simples curiosidade: querem entender o que existe de tão especial no som desses ingleses. Eu sempre achei um grande exagero o ufanismo destinados a eles. Pra além disso, nunca manjei de inglês (isso atrapalha bastante a recepção de qualquer arte expressa por um idioma - pela palavra), e considerava-os musicalmente comuns. As pessoas foram insistindo, insistindo. Apontaram-me alguns atalhos. Topei.

Muito do que ouço deles ainda me soa estranho, mas o que alcancei pelos atalhos (indicações) já valeu os anos de resistência. Blackbird foi meu grande pretexto. Estranho pensar que uma música de 2 minutos fosse preencher tantas horas dos meus últimos dias. Ela e Across the Universe são o ponto de inflexão que me fez despertar: Beatles é bom demais. Depois vieram outras várias, sempre avalizadas, que me instigaram a arrumar qualquer desculpa pra pegar o carro no último fim de semana e colocar o som bem alto, imitando filmes. Eu gritava Let it Be e When I'm 64 como quem domina a língua saxã. Como quem substitui as buzinas e sirenes por um mundo só seu, de vento e som.

Os carros me servem mais é pra isso mesmo. Pra andar sozinho, com as músicas que me fazem sentir algo transformador, ou nostálgico. Os carros são os quartos de filho único, onde se tranca pra mergulhar em si mesmo. A diferença é que as pessoas te veem. No mais, continuam não lhe notando, por nem valer a pena, por correrem pra chegar mais rápido. Sigo. Irresponsavelmente ilhado entre os vidros. Passageiro de minhas músicas preferidas. Gosto disso.

Gosto dos Beatles desde o último fondue na casa da Carol. Desde a versão de Blackbird do Carlos. (Desde Criança.) Transformo minhas frustações em fixações pueris. Envolvo-me de um modo inegável. Gasto minhas fichas de uma só vez. Depois cansa? E aí descansa. Bom dizer agora, no crescente da paixão, pra que fiquem com o que há de melhor.

Numa esfera paralela, a vida vai passando. Vou anexando afinidades, intercaladas a cada brecha que me aparece. Vou fingindo parcerias, projetando futuros, dublando canções alheias. Quase sempre pegando a via melancólica de um fim de texto. Quase sempre escrevendo menos, almejando menos. Doses de desilusão estão cada vez mais permitidas aos maiores de idade. Confundam-me com um garoto. Permitam-me sonhos baratos, respiros fantásticos, e me ajudem a não ver o mundo real.

Help!



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terça-feira, 28 de julho de 2009

O nó de minha gravata

dada
dada


Não sei dar nó em gravata.


(Não entortem o olhar)


Não tomem por preguiça, ou tomem apenas pelo pouco que é justo tomar. O certo é que não quero aprender a dar nó em minha gravata. Descartem a idéia de que isso seja um modo de protestar contra o mundo corporativo. Ele é um desmundo, mas não é responsável por minha inabilidade com o acessório vestuário mais estranho que conheço. Meus motivos são outros, sérios.


Não amarro minha gravata pra não desapontar meu pai. Usando-a há quase seis meses, poderia ser vergonhoso admitir que nem suspeito como ajeitá-la, mas não é. Retirar dele essa tarefa matinal é que seria hediondo. Pais sentem orgulho em olhar pros filhos, vê-los entregues ao mundo, preparados (talvez não nos entendam tão bem). Meu pai apruma minha camisa, e me despede como quem diz: "já fiz minha parte". E aí já sou um anônimo homem, moldado, estereotipado, resignado. Pro Noubar que me fez junior, mantenho a fragilidade de quem não sabe se virar sozinho. Sustento a dependência paterna, e a enlaço com minha gravata, desamarrada.


(Não me ensinem)


Não o exploro. Assim como não maltrato minha avó ao permitir que ela ainda arrume minha cama. Obviamente, é mais cômodo pra mim. É mais simples (egoísta) cultivar relações que sejam onerosas apenas a eles. Aqui em casa, é assim: há territórios e ações que não podem ser desreipeitados. Gostamos de reiterar nossa importância. Há problemas quando alguém se mete a estender o lençol quando acorda, ou quando se recusa a oferta de um suco de maracaujá com leite. O ideal é sair atrasado, bebendo o suco num só gole, e dando um beijo na avó enquanto o pai dá um jeito na gravata. Ritualmente assim.


Não. Dias atrás baixei uns tutoriais na internet que ensinam a dar os sacais nós. Tem nó inglês, nó francês, e até português. Deixei na mala, pra qualquer emergência. Antes de consultá-los, porém, pensei no que esse desconhecimento representava pra mim. Pensei, pensei, e vim escrever. Contento-me em ser um respeitável amarrador de sapatos, em saber fazer a barba, e em ser razoável em despentear o cabelo casualmente. A gravata, deixo pra ele, como uma homenagem diária, personalizada.


(Não o substituam)



Ao meu pai, amplo.

domingo, 19 de julho de 2009

Qual mais?

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Ressalvas feitas, voltemos ao meu mundinho.

Preciso falar de uns rótulos que andam me atribuindo. Estou aí, mesmo pra isso, mas devo discordar de umas coisas, e explicar outras.

De cara, rejeito o título de tiozão. Pode? Pois sim, há quem diga. Uma amiga de um amigo meu, que mais tarde teria suas opinões avalizadas por outra menina, disse que eu tenho um baita "pique de tio". Comentário absurdo. Essas moças de dezoito estão sem muitas referências. Necessitam de uma reciclagem ótica, no mínimo. Noutros tempos, em que minha barba poderia sugerir um aspecto cansado, estragado, tudo bem. Hoje, com o asseio facial que o mundo corporativo exige, ando com cara de menino. Nem os trajes sociais poderiam justificar classificação tão inadequada. Mal entrei na vida adulta. Peço calma. Tenho de resistir ao menos a esse arquétipo. Tiozão, não. Próximo.

Que não venham com essa de que sou fresco pra comer. Há critérios, e eu os tenho. Molestam minha paciência com chacotas motivadas por minhas caretas-pós-anúncio-de-que-terá-berinjela-no-almoço. Berinjela é o de menos. Assustadoras mesmo são as bem-vistas escarola e abobrinha. Quanto às frutas, só não gosto das que quase todos não gostam: manga, pêssego (aqueles em calda é sacanagem), melão, mamão, entre outras. Só por isso, já me levam a mal. Quando entramos no terreno das sopas, dos caldinhos (verdes, de feijão, etc) e das canjicas, prefiro nem discutir. Vez ou outra é menos trabalhoso comer essas coisas cruéis do que ter de ficar inventando algum trauma de infância para recusar cada prato indesejado. Essa dos traumas eu deixo pro café: digo que meu avô derrubou em mim ou que café me lembra escravidão. Querem saber? O caso do café merece um parágrafo exclusivo.

Falo com segurança sobre o café, pois acabo de ler um texto do Antonio Prata em que ele comenta o mesmo problema: tem dificuldades de sociabilidade por não tomar café. Também posso desabafar. É algo quase ritualístico. As pessoas oferecem café como quem se apresenta a alguém. É um dos melhores primeiros contatos. Quem não sabe lidar com o "tempo pro cafezinho", que tome bastante água com açúcar. Faz sentido zombarem por eu optar por um Ninho Soleil ou um Yacult depois do almoço, ao invés de uma xícara do líquido energético? Não faz.

Como último de hoje, repudio o rótulo de nerd. Esse é mais circuscrito, mais zona leste. Entre meus parentes, amigos de infância, e vizinhos, sou tido como CDF. Isso soa de modo até bizarro, penso, quando alguém da faculdade lê. Lá, sou o autêntico picareta; aqui, estudo além da conta. É meio desconfortável ficar explicando pros tios o porquê de eu estar na graduação há cinco anos, e perigar ficar mais um. Como acham que sou um exemplo de dedicação, têm difuldades em entender a lentidão de minha formação, mas se conformam em dizer, sem muita base, que na usp o ensino é mais "puxado"(termo de tio, não? Não olhe pra mim, engraçadinho.). Acrescento o obstáculo que é o trabalho, a distância, e logo restabeleço minha imagem. Eu, o garoto da família que deveria usar óculos-fundo-de-garrafa e suspensório, e que possivelmente é fanático por RPG e xadrez. Leio pouco, e o que há dentro de meus livros envelhecidos são pornografia, tiras humorísticas, e figuras. Se letras, em fonte grande, gastona. Nada de filosofia ou outras leituras amaldiçoadas.

E saibam que, quando esse texto foi apontado por meus poucos pensamentos, havia outro rótulo, quase que principal. Ele faria a grande dupla com o do "pique de tiozãõ", mas escapou de minha memória por algum motivo desconhecido. Fiquei com esses três, e dei mais espaço ao do café. O outro, tão liso e indolente, não merece a importância que eu tinha lhe dado. Vejam, através desse esquecimento, o quão indiferente eu me posto aos estigmas que me oferecem. Descontraio, levo na boa. Na zl, levo "de boa", na maloqueiragem do falar.

As moças hão de ver o garoto que sou; a Carol descobrirá que muita gente confunde nozes com pedaços de madeira, e não come; pessoas gentis deixarão de me oferecer cafezinhos por aí; e meus colegas de faculdade irão rever seus conceitos, impressionados com minha capacidade de sustentar rótulos ginasiais. Seguiremos nessa selvageria classificatória, que é bacana. Cada um que se explique depois, ou que acate (rótulo de pegador é pra lá de bem-vindo. Um amigo meu adotou o "sobrenome" de "jumentinho" sem maiores problemas).

Linhas menos universais ainda, né?

Ao menos, que tudo esteja esclarecido.




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Imagem meramente ilustrativa. Não há tristeza no momento em que ela fora feita, só oportunismo fotográfico. Agora, há menos tristeza ainda!