Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Paraty: relatos insuficientes, inacabados, (in)úteis

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Se nada der certo,
tenho pra onde ir.

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Não acabou. Inaugurou. Deixar a cidade fez parte do começo de uma viagem que aumentou meu mundo. Ela está em mim, em meus trajetos (meus trejeitos), em minhas mais novas calorias. Trouxe-me neologismos, literais ou não. É como se eu erguesse um cômodo no quintal de minha imaginação. Melhor, é como se eu ganhasse uma casa na árvore e a cedesse à minha mente. Meu ponto de vista foi alçado, encantado. Voltei pra casa e a suspendi a um lugar mais próximo do céu. Meus pensamentos estão condicionados às lembranças desses últimos dias. As pessoas que me vêm à mente; os lugares por onde passo; as coisas que faço: tudo é submetido a algum momento que por lá vivi.

"Lá, onde o sol descansa."

E onde seguiu recluso, sem tempo nem luz pra tanta gente. Fomos recebidos pela chuva, e por seu ombro amigo: o mar. A chuva, rainha vertical. O mar, rei do além-do-que-se-vê. Foram o que são, e trataram nossos sentidos com um imenso azul. A água, a areia, a Adriana, o Antunes*. A arte, ali. A combinação concebida pra ser breve. Restam seus ecos, infinitos. Fui tão disposto a me apaixonar pelo encontro, que acabei me apaixonando. Fiz da oportunidade minha redenção. Voltei a acreditar nas pequenas soluções para os grandes problemas. A acreditar que há literatura para todos eles (não falo de auto-ajuda).

(A vida é incrível! Enquanto espero que a marginal esvazie, escrevo dentro de um shopping center, sentado num lugar quase ermo, e vigiado por manequins que vestem roupas que nunca poderei comprar. O que justifica a digressão, claro, não é isso: é o fato de minha ex-namorada ter passado agorinha por mim, acompanhada, e nem me notar. Foi a primeira vez que a vi em tal situação, e não me importei tanto em ser um elemento de decoração. É...)



O texto será outro. Sou outro. As palavras estão contaminadas, mas é fascinante combater as sensações. Contrapô-las de súbito, quase à revelia, sem aguardar a maré baixar. Eu dizia que há literatura bastante a qualquer angústia. E há mar suficiente para qualquer olhar. Amar. Desamar. Ir ao mar. Secar. Voltar.

A princípio, uma festa literária. Daniel** diz ser mais festa do que literária. Hoje não lhe dou ouvidos. Hoje os críticos são meus inimigos. Hoje quero estar perto de quem achou tudo lindo. Quero ver Chico Buarque passar novamente pela janela de onde eu tomava um açai. Quero pensar outra vez: "de qualquer jeito eu poderei contar vantagem. Se corro e peço uma foto, farei inveja às inúmeras pessoas que gostariam de dividir uma moldura com o cara. Se permaneço estático, e demonstro certa indiferença à presença de meu compositor predileto, fico bem com aqueles que repudiam (hipócritas!) qualquer tipo de tietagem. Os que não admitem a transferência do carinho que temos pelas obras aos seus autores." Às vezes também digo essas bobagens. O Chico passou.

Minha namorada gritou que o amava. Ouvi, meio corno, meio aquiescente, e lamentei não ter me juntado a ela. Por dentro eu esbravejava carinho àquele final de semana, àquele lugar. À parada em São Luiz do Paraitinga, aos amigos crescentes, à lua cheia, às palavras ouvidas, vistas, tateadas. Muito nos valeu a resignação por acampar na chuva. O risco foi ínfimo diante de sua recompensa. Temos mais histórias a contar. Eu reservaria algumas postagens à FLIP, mas não sei no que vai dar. Não consigo me ater a textos temáticos, ordenados. Não agora.

Exalo meu alumbramento. Compartilho a fantasia de ter sido apresentado, de novo, a Manoel de Barros. De ter clichezado: "como vivi tanto tempo ser me dar conta desse sujeito?" São tantos os impulsos escondidos por aí, e é tão bom descobri-los.

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Quero a irregularidade daquelas ruas,
a magia daquelas janelas,
o barulho daquelas águas.

Vou-me embora pra minha pasárgada
Lá sou amigo do mar






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*Adriana Calcanhoto fez o show que eu mais gostaria de ter visto.
Antonio Lobo Antunes foi uma das gratas surpresas que tivemos por lá!

**Daniel Piza, jornalista/escritor fantástico, e que foi meu pirata numa foto papagaiada e mal-sucedida.








Domingo, 28 de Junho de 2009

O maior inimigo do homem



Eu, escrevendo sobre gatos? Logo eu, que nem pra cachorro tenho muita paciência, escrevendo sobre gatos? Advirto: se me presto a botar no papel esse tema animal, é apenas por legítima defesa. Saibam, amantes dos bichinhos fofinhos, que já são quatro os gatos lá de casa. Há o cachorro, quase morto, e quatro gatos, quase quase sendo mortos, num acaso. Suportei enquanto pude, mas já é tempo de encontrarmos uma solução humana para situação tão peluda.

Conhecem alguma droga, sonífera, para gatos? Receitem. O problema se dá à noite. Os felinos, vagabundos que são, dormem durante todo o dia (em minha cama, por sinal). São provocadores silenciosos. Quando peço-lhes licença, e deito, a fanfarra inicia seus barulhos descompassados (, à bandinha do Chaves). Resignados, descem da cama e começam a saltar feito sapos sem direção definida. Reitero: meus gatos não correm, saltitam. Ademais, devem ser parcialmente cegos. Enquanto brincam, se chocam amiúde com todas as portas do guarda-roupas. Tentem imaginar os sustos que esses estampidos (gato + madeira) me dão.

Não migram aos outros cômodos da casa. Permanecem, gatunos, em meu quarto. Como lá não há porta, é impossível deixá-los pra fora. Até tento dormir, mas eles insistem em puxar meu edredon; em desafiar a resistência da madeira; e em usar meu indefeso violão como elemento cenográfico de suas travessuras.

Os policiais ocupam minha universidade, e os gatos ocupam meu dormitório. Impostores! Aos policiais, gaiatos, eu devo oferecer outro texto. Pros gatos, foras-da-lei, ofereço esse mesmo. Exijo que saiam de meus poucos metros quadrados! Não há mais carinhos nem tentativas de negociação. Voltarei para casa acompanhado de dois cães famintos, ou pedirei socorro ao meu amigo caçador de gatos. Pois sim, um dos blogueiros indicados aí à esquerda de sua tela, é um exímio estrategista. Conhece métodos fulminantes de se abater um gato indesejado. É temido pelos vizinhos. É letal. Pedirei uma força. Pedirei que inclua minha causa nas pautas de nosso indignado momento.




Ei! Tenho coração. Tenho dó. E tenho sono. Tenho a prepotência de priorizar minha espécie, mas me compadeci quando o Bidu, outro gato, morreu*. Minha vó ficou tão triste, mas tão triste, que eu, ateu que sou, rezei pelo bichinho. Agora a velhinha não quer mais conversa com os gatos. Não quer se apegar novamente, diz. Sem outra opção, mais dedicada e/ou presente, eles vêm a mim. Vêm tolos, menores, e soltam aquele olhar de cachorro molhado (e cego).

Abro a torneira do banheiro pra que bebam água (pois preferem gelada); permito que as namoradas, ao fotografá-los, chamem-nos fofos, gatinhos. Intervenho quando julgo estarem brigando. Faço tudo que um bom dono faria. Pra não macular a honra dos resmungões, ameaço um ou outro pontapé, estímulo vôos de uma cama à outra, mas não mais. Marco território, só.

Falo, falo, mas sei que não promoveria churrascadas com suas carnes.

Peço que os camaradas policiais saiam do campus e voltem a patrulhar a casa de nossos nobres estudantes (onde dividirão a tarefa com grandes esquemas de segurança). Peço que a reitora, esta sim, saia sem ressalvas. Sem saia nem tridente.

E convido os gatos, melhores amigos do homem, a ficarem mais um pouco.



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*(seu nome de batismo era "Zizu", mas minha vó, por não se dar bem com a pronúncia, logo desvirtuou para "Bidu", algo mais cachorro.)

P.S.: o texto foi escrito há uma semana, mas só digitado agora: a polícia já deixou o campus, e os gatos seguem por aqui.


P.S.2: eles aprendem.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Despedida (ou *)


Estou indo embora. De vez. Foi-se o tempo de ser covarde. Não sou daqui. Sou de "lá", do efêmero morar. De um lugar mais senil (mais pueril!), mais contador de histórias (mais ouvidor!), mais cheio de mentiras leves (mais vazio). Sei não, mas vai ver agora é que é o tempo de ser covarde. Fugir é meio que desistir, dizem eles, os vivos. Ora, ora...ora, ora: ir embora não precisa ser fugir. É deixar; é partir; é prometer voltar. Certo, não prometo, e isso nem é possível. Se é inexorável, não é fuga. Não há culpa.

Toda a minha saudade se concentrará no que vivi até ontem. Ali encontrarei minha primeira bola de futebol, meu primeiro cavaquinho, e meu primeiro amor ("que bonitinho"). E tudo que veio daí. Tudo que se juntou a essas experiências e, quase sem avisar, construiu meu relicário. Ah, é tanta intensidade, e tão pouca capacidade pra expressar...

Eu pretendia escrever sobre os gatos lá de casa, sobre a Lapa cantada por Caetano e pouco vivida por mim, ou até sobre meu status de bebedor oficial de yakult, mas há sempre as tais prioridades. Toda essa inesgotável rede de hierarquias que cerca nosso caminhar (e nosso escrever). Há o que vem antes. Que não pode esperar. Falo de um tema idoso, gestante, com criança no colo. Amanhã entrarei noutro plano da normalidade. Será também rotina, mas longe daqui...

Será como espiar o fim de um tempo. Mais meu do que seu; mais descompromissado com o resto do mundo; mais sempre-tudo-novo. O fim que não é apenas o fim. Faz-se real, mesmo imerso em minha existência caricata, ordinária, ficcional. Deixar pra trás aquilo que ignora, e que pede pra ser ignorado. Aqueles que podem rasgar fotos, rasgar bilhetes, doar presentes, mas não poderão deletar suas memórias. As lembranças, tão involuntárias. Indeletáveis, à prova de rasgos. Eu... devo ser outro alguém.

Já não há o que fazer por aqui. Trajo terno e gravata, e sem o elemento garboso de se vestir pra uma festa de formatura ou pra um casamento de prima. É este, o traje, meu principal símbolo, anúncio de final, de que cheguei onde não queria chegar.

Que estranha vontade de sair dizendo: "esse é o lugar ideal para perder alguém ou para perder-se de si próprio". E de emendar, semi-cantando: "For a minute there / I Lost myself, I lost myseeeeeelf!" Descabelar um "não faz sentido? A primeira não é a representação fílmica da segunda, que é música?" Claro que é! Veem? Que vontade perversa de estar num elevador com um estranho, sentindo um odor desagradável, e ter a babacada de falar, meio Selton Melo: "Tá sentindo esse cheiro (,)estranho? Não vem de mim, mas do ralo do segundo andar...". Se der tempo, perguntar ainda: "You lost yourself? Hein?"

Não importa o que entenderíamos um do outro. Minhas referências e idéias fixas são tão singulares quanto as de vocês. São estranhas, mas só até. Hoje posso, por um direito que recorre às convenções comemorativas, prescindir dos sentidos de minhas atitudes ou palavras. Hoje, se não posso, quero. Por querer abandonar tudo, tudo me fez tão bem. Hoje as grandes resoluções vieram acompanhadas de pequenas tréguas.

É inevitável: adiarei minha partida. Até amanhã cedo, fingirei que esse dia não chegou. Roubarei vinte e quatro horas da vida de meu novo algarismo (clonado a partir do antigo). Prolongarei ao máximo meus irrecuperáveis vinte e um anos. E esperarei mais três, até cantar, noutro tom: "tenho vinte e cinco anos... de sonho, de sangue, e de América do Sul!" (por afeição à música; não por uma espécie de "nacionalismo continental"). Terminarei um "ciclo" tentando remontá-lo num silêncio de madrugada. Vigiarei esse texto de parágrafos curtos, que bailaram num ônibus urbano, e quase não saíram. Digitação encerrada: um boa noite a vocês, que aqui resta uma vontade de não dormir.



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* Nesta data querida - versão 2009

P.S.: agradeço às pessoas que fizeram deste um de meus melhores aniversários. Aos presentes inesperados, às mensagens, ligações, recados, às lembranças introvertidas que estiveram em tantas cabecinhas por aí.

Quanto às referências, vale a pena compartilhar com quem ainda não as trombou por aí. Citarei as explícitas, que já chegam:

"lá" - música de Ceumar - música de Marisa Monte ("Vilarejo")
"eles, os vivos" - "Vocês, Os vivos" - Filme
"lugar ideal para se perder alguém ou para perder-se de si próprio" - "Terra Estrangeira", de Walter Salles e Daniela Thomas - filme! A foto do post também é do filme.
"O fim não é apenas o fim" - tosca citação do texto anterior.
o "I Lost myself" - "Karma Police", quinta música de "OK, Computer", quiçá o melhor disco de que tenho conhecimento. Banda? Radiohead;
Cena do elevador - "o Cheiro do Ralo" - livro do Lourenço Mutarelli; filme do Heitor Dahlia.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Olha a gente ali na telona!


Eu não poderia deixar a poeira baixar. Não nesta noite. Quantas vezes ficamos extasiados com alguma coisa e perdemos a chance de registrar tal encanto? Muitas, mas hoje não. Hoje minhas horas de sono valem menos. Iludo-as num convite a dias sonâmbulos. Se eu não escrevesse agora, morreriam os exageros de uma mente neurastênica. Portanto, aguentem. Vocês se contentam em suportar meu ímpeto, e eu satisfaço minha vontade de "contar pra mais alguém".

Saí há pouco de uma sessão de cinema, e ela ainda não saiu de mim. Ela merece qualquer clichê ou paixonite, dessas bobinhas. Ela não, ele: o filme. Vi "Apenas o Fim", que é de um moleque chamado Matheus Souza, se não me engano. E moleque mesmo: tem a minha idade, e vários centímetros a menos. É um prodígiozinho formado em cinema pela PUC-Rio. Desde o trailer, coisas boas se anunciavam. Ouvir "Pois é"* assim, em cheio, só poderia ser incrível. Num filme em que as referências de alguém que cresceu nos anos noventa saltam, então...

Foi uma das melhores experiências desse ano. Depois de me esbaldar com "Sinédoque, Nova York", e com "Palavra (en)cantada", me deparo com algo tão marcante quanto, e tão mais próximo de minha vidazinha pacata. Se se pensar que a trama se concentra na última hora que um casal tem pra passar junto antes que a mocinha suma pelo mundo, não há de se eperar muito. Que nada! O filme é isso, e é mais. É uma sucessão de diálogos fantásticos, plenamente interpretados, que fazem com que você transporte aquelas falas para a sua pouca história. Você, como eu, que tem entre dezesseis e trinta anos, deve reservar um horário (ou mais) pra espiar essa película precoce. Pra outras faixas etárias pode não soar tão "identitário", mas, ainda assim, há o que se aproveitar.

De uma relação amorosa nascida no colégio e que resistiu à universidade, o cara extrai apontamentos à beça. Sei lá: o que você faria nos últimos minutos que pudesse passar com a mulher que um dia foi a da sua vida? (mas só sexo?) E, porra, você sabe que ela não vai morrer, e que apenas quer ir embora pra algum lugar desconhecido por você. É, camarada, fugir. Não dá tempo pra entender as razões dela: há uma vida pra isso. Tem de se protagonizar mais alguns belos momentos. Olhar bem pra ela. Guardar seu cheiro nos pulmões. E esperar como quem aprecia os segundos. Há tanto disso no filme.

Esperam que eu fale de fotografia, de luzes, de trilha? Não falo tanto. Sou aficcionado por diálogos e, quando eles jorram com tamanha agudeza, me distraio do resto. Certo, a trilha também se afeiçoou aos meus ouvidos (não só por ter "Pois é" na cena final, viu!). Isso não se nega. Não se nega quando se a está procurando pela net. A fotografia veio de bandeja com a beleza que é o campus da Puc no Rio. Luz? Do dia, já que a galera filmou com câmera emprestada, que era devolvida, sem choro, às 17:00hs. Como o filme se passa no espaço de uma hora, tudo bem.

Não sou crítico de cinema, nem de bosta nenhuma. Tenho até certa dificuldade pra transmitir minhas sensações a ponto de convencer alguém a querer senti-las. Quando falo de algo, não sou convincente, e por vezes é melhor nem falar. No caso de hoje, pouco importa. Escrevo apenas para não ignorar esse impulso. Pra não trair a conversa que tive há pouco no metrô, com João e Raquel: "dá vontade de chegar em casa e escrever...", concordamos. Ainda brinquei, dizendo ser perigoso até ligar o computador. A tentação seria muita, como estava sendo até que eu a libertasse: deixo que goze por mim. Amanhã é o depois: o dia seguinte à transa. É o ir embora como se nada tão importante tivesse acontecido. É olhar pro texto e não sentir mais tanto tesão. Pensar: "foi tudo isso mesmo?".

Agora, abraçando meus sentidos como quem acabara de amá-los, solto sorrisos bobos, juro eternidade.

Paletó esvoaçante, "Magic Pie"** a todo volume, cabeça longe, longe...pessoas encenando minha hora e vez: tal foi o caminho da estação até aqui.

Hoje não devo mais nada a mim mesmo***.



www.apenasofimfilme.com.br

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* Los Hermanos (ainda!)
** Oasis (no filme tem uma cena em que o cara fala da fase em que pega bem gostar de rock inglês!)

***Nem devo nada à amiga que, ao dizer que não poderia ir conosco à pré-estréia, desejou (pediu!) que tivéssemos uma noite memorável!

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Calma: ainda não terminei a página!



Não é preciso comprar jornais, livros ou revistas pra ler nos meios de transportes. Nem mesmo compilações de palavras cruzadas. Basta treinar a visão transversal, ter uma altura privilegiada, e estar preparado pra o que vier do (mal) gosto alheio. Nisso tudo, sou doutor. Vanglorio-me de não aceitar nem os folhetins gratuitos: escolho a fragmentação do saber pelas mãos dos outros. A ter o trabalho de folhear uma revista, prefiro o desafio de correr contra as outras mentes e terminar a página antes que ela seja virada.

Você vive fazendo isso também, não? Digo, bisbilhota o meio de comunicação dos outros passageiros do metrô, do ônibus, ou do trem? Claro que sim. Se não o faz, é porque se contenta com a TVO, a TVtrem ou Aquela-tv-do metrô. Se esse for o motivo, você é um fraco! Aquilo sim é o funeral do par jornalismo/entretenimento. Além de horóscopo e propaganda da SimPlan (um troço de implantes dentários que tem uma dublagem à novela-mexicana-que-passa-no-SBT), só restam as instruções que o metrô dá aos "usuários", que são julgados como retardados: "facilite o embarque e o desembarque: mantenha-se no corredor" (porque, obviamente, os corredores estão sempre vazios e nós, idiotas, preferimos ser enlatados pela "rapaziada do Brás" ali na região das portas); "chegou o Bilhete Amigão! Agora, nos finais de semana, você viaja por oito horas com uma única passagem" (que se foda o final de semana! Essa droga tem de funcionar é agora!). Não dá.

O que sobram? Axilas e letras. Se bem que há sempre um espertinho que leva um radinho (ou celular) sem fone e toca um som pra galera. Sempre há. E acham que trouxeram diversão ao busão. Quase dançam ao ritmo de um pancadão ou de uma música do Belo (ele mesmo...)Torço pra que lancem uma campanha de apoio aos sem-fone. Eu contribuo com o que puder: pares velhos, de 1,99, ou armas de fogo. TVO mais DJ's do bom dia: desespero. Chega a ser pior que trabalhar.

Ao grande tema: a chance de furtar as notícias dos próximos. Pra começar, é sempre bom quando alguma boa e máscula alma traz um caderno de esportes. Se for um Lance!, então, você pode ter a certeza de que irá ter tempo de sugar algo. Pelo tempo que o cara fica no espaço destinado a cada grande clube paulista, dá pra descobrir pra quem ele torce. São paulinos leem mais, e costumam ser até chatos, já que você termina a página antes mesmo do que eles, donos (vira a página, camarada!). Corintianos se preocupam em comentar com o truta ao lado: "esse jornaísta tá tirano o Ronaldo de gordinho, é? Vacilão!". Palmeirenses e santistas só compram os periódicos quando a fase é muito boa. Agora, que não me venham com a página de esportes do Metrô News.

Há dias piores. Nestes, só se veem livros do Augusto Cury, do Dan Brown, do Paulo Coelho, ou da Zíbia Gasparetto. Como se não bastasse, chovem revistas "minha novela", "caras", "capricho". Pra não passar batido, leio também. Bom, tenho irmã, converso com as pessoas na copa do trabalho, nas filas de banco (mentira, pois nem costumo ir ao banco), na fila do pão (muito menos!). Ah, e como há livros de Direito! Como! Códigos não-sei-das-quantas pra todo lado! Esses, como exceção, não leio, já que nem os próprios donos costumam abrir.

Mas...leitor barato é leitor barato: completa cruzadinhas na imaginação; garimpa alguma notícia sobre o último avião frustrado; descobre onde será o lançamento da próxima capa da playboy; planeja suas atitudes de acordo com o que o horóscopo da namorada prevê; conhece uma página de cada best-seler. Acima de tudo, tem uma classe a representar. Não pode dar mole aos egoístas que leem um livro com ele quase fechado só pra não vermos! Um leitor moleque não se conforma; se contorce. Fala sobre qualquer assunto numa mesa de bar, mas não se sustenta por mais de cinco minutos em cada um deles. É, num eufemismo, eclético. Panorâmico.

Não sou apenas um parasita. Levo mnhas leituras e alimento esse mundo clandestino dos grandes picaretas do transporte público. Brinco com eles. Noto um rabo-de-olho, e paro alguns minutos numa mesma página. Viro e, nesta, permaneço nem dez segundos! Perco eu, mas perde ele. Mais ele do que eu: tenho o livro, e regresso à página quando quiser. Na próxima estação, talvez. Por uma questão de valores, não compro o Lance!. Por outra maior e mais vexatória, não faço cruzadinhas em público. É horrível não lembrar de uma palavra e pensar que um careca qualquer está zombando de você em pensamentos ("ah, animal com quatro letras e que começa com P? Porco!"). Porco é você, careca! Sei que quer rir!

Ria, porque eu desço na próxima. E é pato. Não porco, que tem cinco letras.




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P.S.: Isso vale pra uma pequena parcela de meus dias. Nos que restam, sou uma ilha, como você. Percebo apenas o que há de gado em cada passageiro.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

X (letra viva)

X deseja voar. Pensa em pedir transferência para o patamar dos números. Quer por qualquer motivo: pelo motivo que lhe emprestarem; ou por qualquer outro que julgarem apropriado para o caso; pelo sem-motivo. As pessoas (e as letras) não desejam voar a fim de ir pra longe. Só almejam chegar mais perto de si, ou chegar num lugar onde não seja normal se ater às orações subordinadas e à busca de coesão, coerência. Lá onde o anonimato é o grande sonho a ser andado. O mundo das palavras avulsas! Pra que apenas as coisas desconexas perturbem X, Y, ou N. Sua existência carece de um lugar sem parágrafos profícuos, quiçá sem nada importante para se dizer. X não gosta da responsabilidade de se amigar em palavras.

X quer viajar, ainda que por terra. Dizem que ele é esperado pelos cariocas, que já andam roubando os sons do S. X não precisa de mapas pra planejar e orientar sua viagem, mas de uma razão pra ficar. Se pedirem pra que fique, sem justificativa nem nada, ele cede. Num ato que lhe soa heróico, abdica do distante para atender a quem quiser sua companhia. Pois é isso que espera: ser querido. Não lhe agradam as ciências, as crenças religiosas, ou as reuniões da academia brasileira de letras. O que mais lhe atrai são os olhares desclassificados, que ainda são lícitos (!): os que ele troca com palavras de seu cotidiano, na poesia, na crônica, no desabafo (seus meios de transporte) ... Essas paixões silenciosas que acontecem pelas manhãs, ensejadas por um acento desarrumado, ou um ou dois pontos desavisados. Aquelas das quais ninguém ficará sabendo, pois não serão escritas nem contadas. X, mancomunado com as outras consoantes, tem autonomia sob os registros. Se não quiserem dizer, não dizem, e ninguém contesta. Azar dos pensamentos, que pleiteiam espaços nas cabeças dos loucos, e logo são descartados.

X vive em crise alfabética, mas só partirá se cá não mais encontrar sentenças encantadoras. Quando tudo finalmente se tornar onomatopéia, ele não suportará a fadiga de seus dias, e irá. Quiséramos todos acreditar que isso passará. Quisera também X. O ceticismo não lhe foi apresentado como uma das opções. Uma vez cultivado, ecoou. Em quantos verbos X está presente? Deixar, puxar, abaixar... Se não fosse a matemática e suas F de X, é provável que lhe esquecessem.

Não há muito que fazer por X. Com vontade de ser um nome real, ele se insinua a todas as vogais que conhece: abertas, fechadas, nasais. Queria todas elas, mas nem ditongos são permetidos no reino das palavras de amor. X também briga, enraivece. Duela com o CH, com o Z, pois sabe que são eles seus maiores inimigos. No dia em que atestarem seu caráter descartável, X terá, forçosamente, de seguir outros rumos. Pedirá abrigo aos outros idiomas que ainda lhe aceitarem como letra viva, embora doente. Como que homeopaticamente, vão dizendo a X que ele faz bem a alguém. Ele está no êxito, no exótico, no exato, no exemplo (notam como o Z é o grande oponente?). Adiam seu desuso. Sub-utilizam.


X, e essa babaquice toda, só existem se escritos; e eu só aguento se os escrevo.

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Lo que pasa es que se creen sábios. Se creen sabios porque han juntado un montón de libros y se los han comido. Me da risa, porque en realidad son buenos muchachos y viven convencidos de que lo que estudian y lo que hacen son cosas muy difíciles y profundas. En el circo es igual, Bruno (X), y entre nosostros es igual. La gente se figura que algunas cosas son el colmo de la dificultad, y por eso aplauden a los trapecistas, o a mí. Yo no sé qué se imaginan, que uno se está haciendo pedazos para tocar bien, o que el trapecista se rompe los tendones cada vez que da un salto. En realidad, las cosas verdaderamente difíciles son otras tan distintas, todo lo que la gente cree poder hacer a cada momento. Mirar, por ejemplo, o compreender a um perro o a um gato. Esas son las dificultades, las grandes dificultades.

(um saxofonista virtuose, num trecho que pode não fazer muito sentido enquanto trecho, mas que me afeta. Em “El perseguidor”, de Julio Cortazar. Indicado a mim por um amigo [“el comedor”].)

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à Carol,
como desculpas por meu desleixo, e gratidão por suas palavras.
Gênia, mesmo.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Rui Barbosa que me desculpe

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
(autor ainda desconhecido. Fiquemos com anônimo do século IV.)

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-Ah, Júniu, esse negócio de estudar nunca foi pra mim, não. Isso de ficar parado, lendo, cansa os olhos, pede uma pestana. Não nasci pra isso, e agora, depois de velho, dá mais preguiça ainda...Se eu me lembro de algo que tenha lido e gostado? Do pouco, quase nada que vi, adoro um poema do Castro Alves, mas ninguém conhece. Já procurei em bibliotecas: ia, pedia os livros do autor, e os vasculhava atrás do poema. Nunca encontrei. Lembro de ter lido, gostado, e meu pecado foi não ter anotado. Um trecho? Dizia algo como “De tanto ver triunfar a injustiça, (é...) (é...não lembro, mas terminava com) o homem chega a ter vergonha de ser honesto”. Uma coisa linda, e que vale bem pra essa sujeira que vemos até hoje, cada vez maior, sem dar chance pra esperança nenhuma. Ah, você vai procurar, então? Bom, mas nem na sua faculdade deve ter. Veja lá pra mim, sim, e assim a gente confirma que isso nem foi publicado. Velho tem o direito de ser caduco. O dever. Cê olha, e depois me conta. Sem pressa, sem trabalho.

Seu Nelson, esse que disse. Velho, contador de causos, sabedor pela vida. É daquelas pessoas capazes de incutir nostalgia em quem não viveu, feito prótese memorial. Mata o tempo, cria o papo, faz de conta. E é ranzinza, todo cheio de rabugem: gosta pouco de fazer esforço inútil. Não entende essa juventude de hoje em dia. Acha que futebol só valia a pena no tempo do Pelé, e que o que se vê nos campos (tempos) modernos é um desfile de pernas-de-pau, ganhadores de dinheiro e prestígio indevidos. Fora meu patrão por dois ou três anos. Em meio ao trabalho, questionava o que me levava a ter disposição pra ler aquelas coisas de escola. Sua palavra era oral, mutável, encenável.

(Por julgar essa descrição bastante, volto direto ao relato. )

Algo me dizia que o tal poema estaria por aí, e que não seria difícil encontrá-lo. Antes de mergulhar na biblioteca, caçando os trechos lembrados em cada escrito, em antologias ou qualquer coisa assim, fiz o fácil: googlei. “De tanto ver triunfar a injustiça + Castro Alves”: nada muito confiável; nenhuma relação imediata. De novo: “de tanto ver triunfar a injustiça” (e só!):lá estava, em diversos links, o texto que continha as frases soltas que eu digitara. O que me atrapalhou, porém, foi a autoria. Nada de Castro Alves. Nem menção. Os sites eram categóricos: o texto era de Rui Barbosa, senador da República, lá pelos primeiros anos do século passado. O mesmo Rui, da alcunha “Águia de Haia”, que por vezes fora tomado por conservador, mas que escrevia direitinho. Que tenha sido, que tenha feito. Era incontestável: Seu Nelson estava enganado, e isso pôde ser atestado pela recorrência das informações. Sua certeza, no entanto, era de assustar. Difundia o nome de Castro Alves, como figura marcante em sua rara vida literária; havia procurado, revirado; male-male, lembrava trechos.

Cheguei à copiadora (local onde eu trabalhava), mostrei a folha com o texto, e Seu Nelson quase não acreditou. De cara, surpreendera-se com a vastidão da imaginária biblioteca. Mal soube que eu havia retirado aquilo da internet, já compôs aquele semblante desconfiado, velhaco de esperto.

- Pois é, o único problema é que na internet diz que o texto é do Rui Barbosa, e não do Castro Alves...
- É por isso que eu falo, Juniô: não dá pra confiar nessas coisas de informática, computador. Tudo parece tão mais fácil, e a vida não é assim. Em todo o caso, lembro que é do Castro Alves, e que era em forma de poema, e não desse jeito, escrito de uma vez.

Eu poderia defender o Rui, falar da credibilidade dos sites consultados, e até provar a falha mnemônica de meu amigo patrão. Mas isso daria um baita trabalho; usaria o que há de melhor em minha capacidade de persuasão; e, pra além de tudo, lesaria o que havia de mais seguro nas lembranças de Seu Nelson. Que ele se atenha ao que realmente lhe importa. Que siga dizendo estórias ao seu modo bom-de-tão-amargo, e que dê as referências que lhe vierem à mente, pois os "poetas" não-creditados também morrem, e tudo se esquece.

- Ah, deve estar errado mesmo. Sabe que eu também não boto fé nesse mundo virtual? De certo eles fizeram alguma confusão.
- Sim, sim...essa gente! Faz o seguinte: imprima com letras grandes, e cole esse texto no mural, pr’esses alunos verem e aprenderem algo que presta...rs (quase sorriso):



"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

(CASTRO ALVES, e tenho dito!)



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Seu Nelson segue trabalhando na copiadora (onde se tira xerox) da Unicastelo, em Itaquera. Beira os setenta anos, e alegra. E o texto não tem pretensões de mostrar um lado "humanitário", "solidário", de seu autor. Ele ilustra uma decisão, boa pra mim, e que julguei boa pro seu nelson também. Reflitam: quantos alunos da faculdade podem ter visto o trecho no mural, e ainda referenciam castro alves por aí. Pra eles, fui nocivo, ao menos por confundir suas cabeças. escolhas.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Registro (suplente) de uma noite



Adentrei noutro mundo: Caetano estava ali. Memo. A dois palmos. Ao alcance de um tapão. Onde deveria morar o inimigo. E era o cara, desblindado, mais Carlinhos Nader, mais Antonio Cícero. Vá lá: compositor; cineasta; e poeta: todos bobos, rindo juntos, dando palmas. Na ordem em que você quiser. Deles, Do Dito Depois: Da Desordem danada! Filmes bons.

Meio documentários
/ Meio ficcionários

?
("Por que ele está escrevendo desse jeito?"*)

Mas tá: os vídeos valeram, só que eu fui até lá pra ver Caitâno. Sabe essas palestras que ambicionam "discutir" o filme? Ia rolar. Os três estavam intimados a falar. Eu, a ouvir. Agora, com aquela muganga toda; aquele jeito tranquilo e gostoso de ser baiano, nosso tropicalista não tem tanto tato pra falar. Tagarela fraco. Descumpre seu tempo, não conclui, repete introduções. Quem não o conhece, abdica. Quem já ouviu falar, teima e fica. Quem já o idolatra, torce ripa**: "vamos, meu rei, desembush!, desenrole, clareie o dizer".

Eu? Nem nada não. Gosto o bastante pra ir, mas não o suficiente pra torcer por ele. Se mandarem chamar, eu vou. Sou desses, tenazes pressas coisas: qualquer dia se encontra um mote. Entende, o buscar pretextos? Meio que caçá-los em selvas mais abundantes. Sim, sim: volto. Cae ta n o ia no seu ritmo, parcelado. Eu? encantado desde o caminho. Falasse o que fosse. Xingasse minha mãe. Desimporta: eu queria era o esoterismo de sua presença. Cheirar o mesmo ar. Encenar no inconsciente de um bom criador. Mas não só. Paradoxal que sou, meto o pau nessa putaria de ficar o tempo todo com a câmera na mão, mas, vez ou outra, até gostaria de uma foto ao lado dessa gente que nos nutre de impulsos. Vai ver, fui pra isso, ó.

Cheguei.

Na foto. Ou no autógrafo, que também registra. Ele ali, na cinemateca erma de uma quarta-feira. Mal divulgado. Acessível, então. Duas dezenas de pessoas, talvez. Quem quis, quase trocou msn. De riso fácil, o coroa. Humano, na média, e mais que eu. Fotografável, que é o tema. Assaltei os bolsos e lembrei que meu celular não manda dessas. Nem câmera digital eu tinha ali. Circundavam o lugar uns fotógrafos de jornal, outros de Jardins. Praqueles, era pedir na camaradagem: até comprar. Nestes, bastava chegar e puxar assunto: "a fotografia ousada de Carlos Nader; o cosmopolitismo de Caetano; a __________ de Antonio Cícero; e a modernidade, o Obama, a banana, melância, moranguinho..."

Melhor não, achei. Uma foto não valeria essa sucessão de constrangimentos. Certo, mas e o autógrafo? Ah, bandido! Esse era só pedir: uma vergonha só. Depois, sair contando: "o caetano? amigo meu...". Eu, meio intelectual, meio de esquerda, até estava lendo um "Folha Explica Caetano Veloso" (se eu fosse intelectual por inteiro, entenderia sozinho: sim, também foi o que pensei agora. Ora, e se eu fosse de esquerda por inteiro? aí, o sinistro! o sem-destreza!), e era só aproveitar e pedir a assinatura ali mesmo, na página de rosto. Folha explica, e caetano atesta.

Sem suspense, soa assim: saí só, sem sombra sequer. Nem foto, nem letras. Nem o tapa que eu tive a chance de dar. Ele voou da Bahia exlusivamente praquilo. Pro tapa não; pra palestra. Pouco pôde palavrear. Perdeu pontos com a paulistanada, perdeu a oportunidade de autografar meu livro, e de figurar no meu álbum do orkut. Com uma legendazinha e tudo: aspas, abraço e sorriso falsos, produção de desprezo, inveja e quais-quais-quais. Nem somos amigos, mas eu saio na vantagem. Contento-me com o que dele ouço e leio; com o que vejo mal-falarem; com minha preguiça (de) e incapacidade pra debater sua obra, e a solicitude pra recebê-la.

Mãe de Carlos Nader (autor dos filmes exibidos e tema da mesa), na última das intervenções da platéia:

-Filho, por que você não faz uma comédia romântica?!

Gargalhadas e aplausos inacadêmicos!


Tanto - tempo - titubeio - torno - tudo - tão - tolo... quanto artigos e preposições.
(P.S. dentro do texto)



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* Porque tem uns caras que fazem isso e me agradam. Eu copio, até firmar.


** Baita tesão por colocar "Quem já o idolatra, siririca!"; pra ceder à insinuação silábica, e gozar de (em!) minha rima e simetria pedantes. Se o lance é registrar, que fique também a heresia incompleta, quase só pensada.

No normal, a orientação: trata-se de um texto motivado por rabiscos que fiz nesse dia e situação descritos. Rabiscos, se mantidos, podem mesmo ser ininteligíveis. Local: Cinemateca Brasileira (antes de voltar a esse blog, passe lá). Vídeos: uns curtas bem bacanas do Carlos Nader. Depois: mesa de debates com Carlos, Caetano e Antonio Cicero. Avaliação: satisfatório. Quando: mês passado.


Ok, o tempo acabou. Ronaldo em campo: por duas horas, sou corintiano.

Domingo, 12 de Abril de 2009

E acho que é tão normal

"Se o seu corpo ficasse marcado
por lábios ou mãos carinhosas,
eu saberia
(ora, vá mulher!)
a quantos você pertencia"

("Mora na Filosofia" , de Monsueto / Arnaldo Passos - ouço pelo Caetano)
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O rompimento. Com toda a força que o termo traz. É como se realmente não houvesse mais vínculo. O que passou, passou. Tolice. Fica. Ressignifica, e fica. Vira nostalgia, ou ódio. Mas não desaparece. Rola tentar fingir, mas apenas pra produzir fracassos. O erro do tentativa e erro. Vestimos uma capa que isola o passado do presente. Como se o futuro tivesse medo dele (do passado!), concorresse. Ou limitamos o que foi vivido a um simples aprendizado. Assim é fácil, pois aprender é o que sempre fizemos. Encarar os rompantes de felicidade derivada de instantes remotos deveria ser mais natural. Ao invés de conversar variedades, que é o mais aceitável, poderíamos partilhar alegrias. Falamos da previsão do tempo que cada um faz (se vai chover, se esfriou, se a donzela vai parir), mas dissimulamos o tempo que nos interessa, que nos preenche os pensamentos. Poupamos as pessoas que nos fazem felizes das lembranças daquelas que nos fizeram. Elas não podem conviver. É mais difícil competir com o abstrato. Pra quê? Hein? Prefiro o risco. Caio no engodo. Não reviro, revivo. Pra juntar emoções e fazer com que elas se completem. Se nada é eterno, então pra quê fugir do que nos faz bem? Dane-se o que é habitual. Por amar não se arrepende. Nem se arremeda. Enquanto nossos pensamentos não forem transparentes, é provável que continuem acreditando em nossa segurança (a babaca segurança!). Nas voltas por cima. Na superação. Gostamos de ouvir comparações, mas só as favoráveis. As outras ficam indefinidas em algum lugar dos coraçõezinhos feridos. Sabe aquela história de produzir provas contra si mesmo? É o que posso estar fazendo, e que aconselho a quem quiser dormir.

Exibam suas cicatrizes. Se elas resistirem à exposição, ao fechar, ornarão sua pele. Feito tatuagem, mesmo.


(P.S.: por aqui: tô gostando de escrever sem dar chance pra desistir de publicar. É estranho criticar as peças que você mesmo protagoniza, em público. Como dissera C. Nader: "é estranho, eu existo entranho".)
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"Tive sim,
outro grande amor antes do teu,
tive sim
o que ela sonhava eram os meus sonhos,
e assim,
íamos vivendo em paz.

Nosso lar,
em nosso lar sempre houve alegria,
eu vivia,
tão contente,
como contente ao seu lado,
estou..."

("Tive Sim", de cartola)

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Aos tempos que se alternam em minha vida (O passado, o presente, e o futuro).

À D. e à S.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Vômito (de um amigo de um amigo meu)



Seguem seus sintomáticos dizeres:


"E as coisas começam a se revirar. O mundo, a sair do avesso. Ou a entrar nele, no redemoinho. Pessoas pedem demissão antes de serem demitidas. Adiantam-se. Deixam tudo sem ter nada. Arriscam (?). Nem tanto, porque, embora estejam sob uma pressão incansável, preferem o alívio finito de um desabafo. Agem de baixo do viaduto, mas enlevados, extasiados. Agir, de verdade. Sujo, mas íntegro mesmo enquanto despedaça. Usar as gravatas pra distrair um cão. Ou pra prender uma à outra e pular cordas. Induzir os sãos a enlouquecerem. Puxar os pés. Pra junto daqueles que compõem o chão. Nivelar o asco; socializá-lo. Pra que todos mergulhem em sua mesquinhez existencial e desistam de ser algo melhorzinho, e enfim tenhamos o célebre espetáculo da barbárie descortinada. O caos interior, globalizado: mundialmente interligado. Nós, comendo nós. E a trapaça vai virar lei. A cortesia será hedionda. Carnaval se extinguirá e levará consigo as máscaras todas. Desses seres que se fingem de humanos pra me confundir. No atual, a norma: suspeitar. Pé atrás; ouvidos dilacerados; olhar sem piscar. Nem os casais servem mais. Propagam ilusões. Adiam. Não têm vontade de ser eternos. Contentam-se com a felicidade efêmera, de sábado à noite. Filhos, uma crueldade. É botar outro pra correr desse vulcão em erupção parcelada. Endividar a consciência. Reviver. Pra arrepender. E comprar mais um lote de culpa. O mundo está ao contrário, e eu reparei. Vigiei essa mudança. Daqui, contaminado por ruídos e poeira, mas parado. Estático no pensar. Autômato por exigência. Do camarote de minha desistência, vi tudo. Pago o preço. Nada me surpreende. Perdi o discernimento. Há muita arte (droga), muita sacanagem, muita gente. Quando se perde o filtro, isso tudo se embola. Daí pra frente, chamam-me louco. E, só então, me notam: sou alguém. "


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Maluco de pedra. Enviou-me esta a carta e não deu mais sinais de vida. Dizem tê-lo visto por aí, disfarçado, num estilo segunda-à-sexta, safado fino.

Se o virem, não hesitem: prendam-no. Louco bom é louco dopado. Só peçam aos psiquiatras um pouco de cautela. Peçam pra não o chocarem ainda mais.


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"Suppondo o espirito humano uma vasta concha, o meu fim (...) é ver se posso extrahir a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora d’ahi insânia, insânia e só insânia".

("O alienista" . Machado de Assis, 1951, p. 31)




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motivado pelas idéias de J.P. e seu lúcido "Só para loucos". http://omomentodecisivo.blogspot.com/?ext-ref=comm-sub-email

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Que é tudo que vale a pena

- Quer seu guarda-chuva?
- Não! Eu quero a chuva!

Sua banda predileta estava no palco e, pra ela, talvez aquele momento fosse digno de chuva. Se o sol já havia se posto, e a lua era ofuscada por nuvens e holofotes, que a natureza se fizesse lembrar assim, jorrando. Que marcasse presença e trouxesse mais lembranças à baianinha, que as colecionava.

Sim, viera de Salvador para vê-los tocar, e fez pequenos os trinta quilômetros que me separavam do local do show.

Ressaltou as saudades da mãe; preteriu a cerveja e tomou refrigerantes; elegeu aquela noite como a mais feliz de sua vida. Da sabedoria casta de seus dezessete anos, envergonhou minha experiência indesejada. Recordou-me de que é mais gostoso ser pequeno, pra poder acreditar, sem ressalvas, na plena beleza de um instante; num domingo nublado.

Não trocamos uma palavra sequer, e palavras podem realmente ser desnecessárias. Quando nossos olhares se cruzaram, ao som de Último Romance, foi como se tivéssemos sido apresentados pela afinidade. Compartilhamos lágrimas. Poucas. Apenas o suficiente pra que pudéssemos voltar ao nosso infinito particular. Travamos uma relação de simbiose conveniente: emprestamos um ao outro a sensação de que é legítimo se emocionar.

Espelhamo-nos.





E as músicas seguiram, com pressa de acabar. O tumulto conduziu a baiana para outro lugar. Qualquer. Ainda restavam três horas até o mais badalado show da noite, e eu não ficaria surpreso se ela nem quisesse mais espiá-lo.

Eu queria.

Fui ficando cada vez mais espremido. Suspenso pela massa. Pernas partindo-se. Sede. Fome. E uma contraditória vontade de fugir de lá. Atrás de mim, o mundo. Melhor ficar.

Sem maiores enrolações. Próxima.

No deslocamento involuntário oferecido por esses lugares abarrotados, surgiu a segunda menina. Havia chegado a hora do espetáculo (foi o que literalmente se viu), e a moça já aparentava ter uma empolgação acima da média

Camiseta da USP, dezenas de piercings no rosto, e um risada indecifrável. Primeira impressão: medo. Desde o primeiro acorde, ela entrou em êxtase. Conhecia e berrava cada sílaba das vinte e cinco músicas tocadas. Não tinha noção. Sacudia-se freneticamente, e acertava todos os outros fãs com sua cabeça e seus braços. Certo temor.

Do alto de meus quase dois metros, pude me esquivar, mas, se ela realmente viesse pro meu lado, não haveria escapatória. O friozinho não impediu que ela ficasse ensopada de suor. Nalguns momentos ela encostou em mim. Pensem nos peludos que jogam futebol sem camisa´: é quase isso. De um modo quase inaceitável pra um lugar daqueles, um espaço foi se abrindo em volta da garota. Todos se protegiam daquela que herdara da baianinha uma boa parcela da felicidade contida naquele ambiente.

Não a culpo por sua entrega. Ainda que seu comportamento e seu prazer explícito atrapalhassem todos ao seu redor, indiscutivelmente, ela vivia algo mais marcante do que eu. Desviei; contive meu pânico; e ainda deu tempo de admirar uma performance incrível, vinda lá de baixo das luzes. A distinção: eu contemplei; ela gozou. Talvez essa seja uma das únicas vezes em que eu admita que meu "jeito de curtir" pode ser inferior.

- Eu quero morrer! Eu POSSO morrer! - disse ela, tão logo soou a última nota.




Pronto. De bom mesmo, foi isso. Guardarei essas imagens na gaveta das primeiras impressões. Ficarei com o encanto juvenil da primeira menina, e com a postura autenticamente inescrupulosa da segunda. Elas compuseram o conc(s)erto inesperado de meu dia. Encenaram pra uma platéia de um homem só. Só.

Seguirão por aí, anônimas e distantes. Unidas pelo acaso de uma folha em branco.

E pelo deslocamento de um fã. Um caçador de histórias a serem contadas.

Porque falar dos outros é não precisar falar de si. É a trégua.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

"Se eles são bonitos...se eles têm três carros..."



Por que nossa vida teima em ser regida pelas comparações? Por que, em tempos conflituosos, para nos sentirmos melhores, funciona a estratégia de prestar atenção em pessoas ainda menos privilegiadas que nós? Se não estamos bem, há sempre quem esteja pior. E seguimos nesse jogo hierárquico que conduz a balança de nossa auto-estima. Não enxergamos o cume nem a base dessa estrutura, mas fazemos parte dela, e nosso transitar é pautado por várias restrições.

Quais catracas você está habilitado a atravessar? Quantas senhas a vida lhe proporcionou?

Seria melhor (pra quem?) que a hipocrisia nos impedisse de cultivar tanta indignação e inveja. Que reinasse a resignação. Sobrariam discursos serenos e compreensivos, que justificariam a condição peculiar de cada um (já não sobram?). E então o mundo seria amistoso, com todos celebrando sua desgraça, mas agradecendo a Deus por (não) terem três refeições diárias. Pois o que importa é ter saúde, e um pouco de terra no feijão é bom pra criar anticorpos, não é mesmo?

A rua proporciona milhões de casos anônimos pra todos nós, juízes silenciosos. É procurar e julgar, pra classificar os condenados e enviá-los, mentalmente, aos respectivos jazigos destinados às suas certidões de nascimento (ou óbito: tanto faz). São os que nasceram com o destino atrofiado; com uma vida cercada por obstáculos.

Na viagem até o trabalho, olho pros lados, dentro de conduções entupidas e rastejantes, e penso identificar muitos deles. Volto a mim e vejo que, a despeito de me achar um cara injustiçado pelo berço*, não tenho a coragem de reclamar diante do espetáculo matinal de inércia que se apresenta diariamente a quem quiser assisti-lo**. O tudo é relativo é auto-ajuda: faz menos ensurdecedor o zunido da campainha do metrô, que avisa que, devido a problemas na linha vermelha, os trens estão circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Se o teor desesperador de tais “im”previstos também é relativo, eu deveria agradecer pelo fato de inexistirem acidentes graves nos transportes urbanos: é como se fôssemos enlatados, mas vivos.

Ora, ora, especulações acerca da relatividade das coisas são suficientes pra que eu também fique anestesiado, e me contente com o que há de verdadeiramente bom a minha volta. Se as condições são distintas e iníquas, não vou lutar para vencê-las. Não é natural aceitar o fato de ter de ultrapassar etapas que outros venceram antes de nascer. Uma droga? Claro! Mas correr atrás cansa demais! E é nesses momentos de cansaço que escrever me recupera. Fica um baita clima de desabafo e de repúdio à humanidade, e é isso mesmo. Não há arte, nem um mero tempero agradável no texto, mas há uma espécie de radiografia de mim.

Ando distante das palavras. Próximo de signos que me trazem comunicações mais sensoriais. Ausentei-me do blog por não conseguir articular quase nada. Vivo semanas de um adulto que tem saudades da adolescência. Saudades de poder agir como um moleque, legitimamente. Sair do trabalho e afrouxar a gravata: eis um prazer garoto.

Sigo ouvindo as mesmas melodias de três anos atrás, tempo em que eu sabia muito menos sobre mim. Ouço-as e noto entonações diversas, que geram emoções invertidas. O avesso (lado B). O que outrora deu sentido a tanta coisa, hoje não me faz mais bem.

Parece que todas as letras e músicas foram feitas pra conduzir minhas angústias. Pra esse momento de mudanças e amores encruzilhados. Num ou noutro verso, de um modo quase conveniente, as canções me traduzem. Dizem aquilo que eu não queria ter dito, mas que disse, involuntariamente. Todas aquelas coisas de que se ouve falar, mas não se espera pra si. Que são cantadas como algo que ultrapassa a capacidade que temos de sentir. Alguns versos saem da poesia (e da poesia musicada) e invadem meu mundo real. Adentram meu peito e desarrumam meus batimentos: os anulam ou acentuam.

Perdi minha autonomia. Não domino meus humores nem minhas palavras. Estou despreparado. Incapaz de encarar tantos turbilhões de sensações e lembranças.

Cansaço. Letargia.

Parem o trem, ou liguem o rádio.







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P.S.: foi o que rolou...


* Alto lá! Tenho uma família fantástica. Não é esse o problema. Eles largaram bem atrás, e conseguiram me entregar o bastão num nível até inacreditável.

**Espetáculos:
Quando: segunda a sexta, com saída às 7 da manhã, e retorno às 6 da tarde.
Onde: de um ao outro extremo da cidade, mas é mais gostoso saindo da ZL! Ê, suvaqueira!.
Quanto: R$2,55 (estudantes pagam meia: R$1,27)
Atrativos: todos nós, em massa, e sozinhos.


Anexo:

Um exemplo banal e talvez apelativo, e que por isso fora retirado do texto:

Quando avisto um deficiente físico: fico na dúvida entre ajudá-lo, e assim me sentir como uma pessoa do bem, ou fazer-me de despercebido e inútil (por constrangimento, até.), esperando que outro ser se compadeça e conceda minha anistia. Depois penso: “por que não ofereci minha ajuda?” “Bom, porque eu não posso prever a reação dele. Quem sabe ele queira provar sua independência, ou não queira ser um fardo a ninguém”: a omissão não é necessariamente cruel. Por preferir os comodismos, é mais simples acreditar nessas possibilidades.

Porque, quando se está mal, dá uma culpa absurda ver alguém que têm as faculdades físicas ou mentais limitadas. Vem aquela impressão: “nossa, do que eu estou reclamando? Sou um idiota”. E isso também faz parte dessa história de que o importante é ter saúde, mas a vida nos condiciona a considerar isso comum, universal.

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Sobre a Dança. E a Vida.


Como se bailar fosse fácil!

Como se agir fosse tudo. O "vai lá e pronto!". O "Se solte! Deixe que a música te leve, leve".

Quem não dança, quer dançar. Pode até saber quais são os movimentos aceitáveis pra cada ritmo, mas não consegue abstrair a matemática dos membros do corpo: não sente, calcula passos. Acha lindo assistir. Aprecia os exímios dançarinos que parecem ter raptado a desenvoltura de todos os que vêem as próprias pernas teimarem em não amolecer. Inveja cada deslizar, cada giro. Pergunta-se: "será que meu calçado é apropriado?"; "será que não é apenas uma questão de sobriedade inconveniente? (e estar ébrio ajudaria!)".

Inseguranças dos durões. Porque dançar é uma linguagem, e não dominá-la é viver com a impressão de ser um analfabeto corporal. A noite fica incompleta pra quem não dança. Mesmo a vida, parece que fica mais curta. Não é o máximo ver casais de velhinhos dançando nos bailes por aí? Tais cenas não configuram uma reação à inexorabilidade do tempo? Talvez nem seja pra tanto, mas dançarinos autênticos me alegram. E agora não falo apenas dos bons, mas de todos que dançam pra si mesmos. Os que dançam de olhos fechados, alheios à platéia. Olhos fechados mesmo quando abertos. Porque, se abertos, restritos. Enquadram um pequeno campo de visão pra ilimitar o mundo dos sonhos.

Fixar um olhar distraído e contemplar a imaginação, escorregadia e flutuante.

Falo, falo, mas não me dou muito bem com a dança. Pretenso músico desde o fim da infância, os ritmos sempre estiveram por perto, mas foram inalcançáveis aos meus pés. Fiz dançar, mas dancei pouco e mal. Quase nem tentei. Pulo carnaval, vagueio num som dos anos dourados, sem saber direito o que estou fazendo. Aceito os bons momentos sem interrogá-los. Os maus, torturo.

Hoje, vejo minha cabeça dançar. De mãos dadas com meu coração, deixa tudo rodopiando por aqui. Por memórias e projetos. Por sensações opostas e flagelantes. Inéditas.

Vida boa, e vida ruim. A incompreensão dos outros. A incompreensão de si mesmo. Tudo muito líquido e novo, esperando o que não se pode esperar; ou o que se pode cobrar apenas do tempo, vulgo infalível. Como numa dança, a magia pode acabar no fim de uma música, mas a parceria, nem por isso, fora em vão.

(A Vida entrou atrasada nesse texto. Minha intenção era falar apenas da Dança. E não é que as coisas se misturam sem avisar? Quando notei, a Dança era a Vida.)

Matei a eternidade.

Por não saber dançar, pisei no pé de nossa história.







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P.S.: Música, maestro!

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Oração

Essa é outra música, também não finalizada, mas nem tão aberta assim. Falta algo, mas talvez fique por isso mesmo. Na falta de tempo e de tino pra escrever, enrolo com canções! (quem não conseguir visualizar, apele ao youtube! :

http://www.youtube.com/watch?v=ofd_iE1ZA0Y



Oração


Se Tua força é maior que a minha
Não vou mais jogar
pra não perder
o que eu quero ser
se Você me deixar crescer

Se insiste em cortar a linha
Só vou me importar
em sobreviver
sem ver Você
prefiro não confessar
não mais brincar

E pra não Te esperar
Caminho só...

Deixo Teu jogo pra depois
Que há pouca vida pra nós dois
Não quero andar sobre o mar...
Porque sei na-dar!

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - II

"Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar"
(Tom/Vinicius)




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Ir ao Rio de Janeiro é trair a identidade paulistana. É admitir que praia de paulista é Shopping Center, e que aceitamos o empréstimo das belezas naturais de nossos "rivais", numa trégua oportuna e turística. É zombar do sotaque alheio, só que às escondidas, quando se tenta imitá-lo. É questionar o movimento de banhistas na praia numa tarde de dia útil (útil pra quê?), apenas pra não esquecer de nossa condição de trabalhadores vorazes e locomotivas do país. No íntimo, o que se quer é tirar o terno e a gravata e ganhar a vida sem tanta seriedade, mas o discurso segue sufocado pelo receio de ser ocioso; de ceder ao ritmo maroto do carioca, que, numa gradação da cultura "sombra e água fresca", ainda não chega perto dos rótulos destinados ao baiano, lento legítimo e folclórico. Paulista não confessa, mas queria sair dos trilhos mais vezes. Ir ao Rio é chocar a rotina. Ir ao Rio é o primeiro passo pra ir à Bahia. Da disciplina do escritório ao gozo do esporte à beira-mar. E daí ao ápice: rede e água de côco.

(Sim, tudo isso no "jeito classe média" de viver. Abaixo disso, fica o suporte pra todo o resto: aquele (a) que serve café no escritório; que monta a rede na praia; que abre o côco. Estes sobrevivem noutro plano, entre parênteses. E textos como esse não fazem a mínima diferença às suas vidas. Sendo assim, deixemos a hipocrisia de lado: falemos de nosso mundinho quase burguês como se ele fosse comum a todos, nesse exercício de culpa atenuada porque assumida (ha)... Pra aproveitar os parênteses: a cidade maravilhosa poderia ser maior. Poderia ser maravilhosa por inteiro, e não apenas pra nós, visitantes dispostos a comprar cartões postais. Mas não é.)

O Rio que eu visitei continua sendo lindo. A exuberância de seus momumentos; a energia de uma tarde no maracanã; a magia de um crepúsculo no Arpoador ("O mar: a tela cristalina. O Sol: o guache já no fundinho do pote"*); o charme de uma noite na Lapa; a indescritível sensação de ser passageiro do bondinho de Santa Teresa, naquele misto de transporte e museu ambulante; o clima bucólico do Jardim Botânico; e as praias todas. Se topar imaginar (ou lembrar) tudo isso, adicione uma pitada de calor aos seus pensamentos. E sinta o Rio, como achar que lhe agrade.



Talvez esta tenha sido minha última viagem dessas férias. Fechou um ciclo repleto de bons momentos. De Joanópolis, pequena e pouco conhecida, ao Rio de Janeiro, imenso em suas famosas atrações internacionais, vivi dias que serão guardados com carinho e apreço. Contemplei grupos de amigos distintos, que distribuem suas qualidades no tempero de cada instante que compõe as viagens. Tenho mais histórias pra contar àqueles que sempre me esperam voltar. Compartilho emoções para revivê-las quantas vezes eu conseguir. Quisera eu passar o tempo vivendo, contando e ouvindo histórias. Não importa que sejam repetidas. São estas (as repetidas) que minha avó conta, sorrindo, e acreditando que sejam inéditas. Não deixam de ser. Ouço-as tentando esquecer o final antes que ele chegue e, assim, me tome a chance de errá-lo. É tão bom ficar surpreso com algo que poderia ser previsto!

Pois bem, trago anedotas do Rio. Lembrarei do David sendo impelido a comemorar um gol do Fluminense; dos caldos que a Geórgia levou na praia de Ipanema; do figuraça do Isidoro, companheiro de espera do bondinho; do mal-humor engraçado do maquinista do bondinho pra com os passageiros e transeuntes. E, como cada uma dessas historietas valeriam um texto, apenas as cito, como referência mnemônica. A partir de tais referências, posso remontar nosso fim de semana. A partir de fins de semana, reconstituo épocas. A partir de épocas não esquecidas ...

Posso ativar minha parcela carioca, juntá-la à minha parcela caipira, e me tornar um paulistano do acaso. Sem orgulho nem mágoa de minha morada. Um paulistano sem cidade natal. Sem raízes intocáveis. Urbano por mera coincidência.

Humano por pura persistência.



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"Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem"
(Ciranda da bailarina - CBH)


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*http://rabiscadores.blogspot.com/

P.S.: as férias vão acabando, e os textos vão ficando cada vez mais raros. é bem difícil falar de experiências coletivas. Esses textos não conseguiram abrilhantar as sensações das viagens. Elas foram inalcançaveis à minha pena.

Saudações aos companheiros de estrada!