terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - II

"Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar"
(Tom/Vinicius)




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Ir ao Rio de Janeiro é trair a identidade paulistana. É admitir que praia de paulista é Shopping Center, e que aceitamos o empréstimo das belezas naturais de nossos "rivais", numa trégua oportuna e turística. É zombar do sotaque alheio, só que às escondidas, quando se tenta imitá-lo. É questionar o movimento de banhistas na praia numa tarde de dia útil (útil pra quê?), apenas pra não esquecer de nossa condição de trabalhadores vorazes e locomotivas do país. No íntimo, o que se quer é tirar o terno e a gravata e ganhar a vida sem tanta seriedade, mas o discurso segue sufocado pelo receio de ser ocioso; de ceder ao ritmo maroto do carioca, que, numa gradação da cultura "sombra e água fresca", ainda não chega perto dos rótulos destinados ao baiano, lento legítimo e folclórico. Paulista não confessa, mas queria sair dos trilhos mais vezes. Ir ao Rio é chocar a rotina. Ir ao Rio é o primeiro passo pra ir à Bahia. Da disciplina do escritório ao gozo do esporte à beira-mar. E daí ao ápice: rede e água de côco.

(Sim, tudo isso no "jeito classe média" de viver. Abaixo disso, fica o suporte pra todo o resto: aquele (a) que serve café no escritório; que monta a rede na praia; que abre o côco. Estes sobrevivem noutro plano, entre parênteses. E textos como esse não fazem a mínima diferença às suas vidas. Sendo assim, deixemos a hipocrisia de lado: falemos de nosso mundinho quase burguês como se ele fosse comum a todos, nesse exercício de culpa atenuada porque assumida (ha)... Pra aproveitar os parênteses: a cidade maravilhosa poderia ser maior. Poderia ser maravilhosa por inteiro, e não apenas pra nós, visitantes dispostos a comprar cartões postais. Mas não é.)

O Rio que eu visitei continua sendo lindo. A exuberância de seus momumentos; a energia de uma tarde no maracanã; a magia de um crepúsculo no Arpoador ("O mar: a tela cristalina. O Sol: o guache já no fundinho do pote"*); o charme de uma noite na Lapa; a indescritível sensação de ser passageiro do bondinho de Santa Teresa, naquele misto de transporte e museu ambulante; o clima bucólico do Jardim Botânico; e as praias todas. Se topar imaginar (ou lembrar) tudo isso, adicione uma pitada de calor aos seus pensamentos. E sinta o Rio, como achar que lhe agrade.



Talvez esta tenha sido minha última viagem dessas férias. Fechou um ciclo repleto de bons momentos. De Joanópolis, pequena e pouco conhecida, ao Rio de Janeiro, imenso em suas famosas atrações internacionais, vivi dias que serão guardados com carinho e apreço. Contemplei grupos de amigos distintos, que distribuem suas qualidades no tempero de cada instante que compõe as viagens. Tenho mais histórias pra contar àqueles que sempre me esperam voltar. Compartilho emoções para revivê-las quantas vezes eu conseguir. Quisera eu passar o tempo vivendo, contando e ouvindo histórias. Não importa que sejam repetidas. São estas (as repetidas) que minha avó conta, sorrindo, e acreditando que sejam inéditas. Não deixam de ser. Ouço-as tentando esquecer o final antes que ele chegue e, assim, me tome a chance de errá-lo. É tão bom ficar surpreso com algo que poderia ser previsto!

Pois bem, trago anedotas do Rio. Lembrarei do David sendo impelido a comemorar um gol do Fluminense; dos caldos que a Geórgia levou na praia de Ipanema; do figuraça do Isidoro, companheiro de espera do bondinho; do mal-humor engraçado do maquinista do bondinho pra com os passageiros e transeuntes. E, como cada uma dessas historietas valeriam um texto, apenas as cito, como referência mnemônica. A partir de tais referências, posso remontar nosso fim de semana. A partir de fins de semana, reconstituo épocas. A partir de épocas não esquecidas ...

Posso ativar minha parcela carioca, juntá-la à minha parcela caipira, e me tornar um paulistano do acaso. Sem orgulho nem mágoa de minha morada. Um paulistano sem cidade natal. Sem raízes intocáveis. Urbano por mera coincidência.

Humano por pura persistência.



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"Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem"
(Ciranda da bailarina - CBH)


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*http://rabiscadores.blogspot.com/

P.S.: as férias vão acabando, e os textos vão ficando cada vez mais raros. é bem difícil falar de experiências coletivas. Esses textos não conseguiram abrilhantar as sensações das viagens. Elas foram inalcançaveis à minha pena.

Saudações aos companheiros de estrada!

5 comentários:

Michelli disse...

Adorei o Rio como o primeiro passo para ir pra Bahia...rs, acho que é bem isso! Belo texto, belas fotos e exertos! Amei a viagem com a galera, e fico feliz em ver algumas de nossas experiências de certa forma descritas no seu texto!

"Urbano por mera coincidência.
Humano por pura persistência."

Lindo isso, viu Nubita...sem dúvida vc conseguiu expressar sensações tão únicas em duas belas frases!

Beijos!
Mi

Dani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
newton disse...

bom texto noubar...
e as férias acabam....

Carol Kuk disse...

Amei! Lindo, como disse a Mi e você foi além, como disse a Dani...

Beijão!!!!!!

Felipe disse...

Que bonita viagem Noubar!!

O Rio é muito bom mesmo...sei la fui la ano passado e reatrasado e da vontade de ir de novo. Não sou muito viajado, mas acho que é uma cidade diferente, gostosa de um balanço leve, sei lá, talvez pq estava de passagem, pq deixei minhas em Sp, o fato é que eu curti muito e acho que vcs devem ter gostado muito.

Abraços