quinta-feira, 18 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Tempo Esgotado



"Vim só dar despedida..."


Últimas são as palavras que aqui escrevo.
 
Depois de, sei lá, três anos, há um bom momento para anestesiar este espaço. Digo, deixá-lo de molho, ao menos (preventivamente, mantenho as portas abertas à minha inconstância). Se há algum tempo eu já pensava em mudar de ares, em me lançar a um outro lugar que seja, apesar de semelhante a este, novo, dias atrás ganhei um grande motivo para levar adiante meus quase-anseios.
 
Recebi, como presente de minha namorada, um livro escrito por mim mesmo, mas que provavelmente nunca alcançaria o papel. Todos os textos desse blog, exceto este e o último, foram reunidos por ela, editados e impressos em uma publicação homônima ("Tempo Seu"). Ali está registrado tudo o que desenhamos por aqui: meus textos, as imagens selecionadas, e todos os comentários não deletados pelos autores.

É um grande compêndio de minhas emoções literárias, de minha mediocridade adolescente que vislumbrou uma mediocridade madura, quase transparente. Sou eu, em épocas distintas e com sensações mais distintas ainda, mas, essencialmente, eu. Todas as ressalvas, todas as expectativas por comentários, todas as vontades de excluir tudo e gritar ao mundo minha incompreensão, todos os textos que não foram escritos, todos os que permaneceram eternamente em rascunho, todos os enganos.
 
Tenho, afinal, meu nome em minha prateleira.
 
Sarah, com a imprescindível ajuda de alguns amigos, deu-me a chance de sair em um bom momento. O congelamento do "Tempo Seu" é, no final das contas, uma tentativa de homenagem a ela que, cautelosa, deixou algumas páginas em branco no final do livro para que eu as completasse com os novos textos. Tais páginas serão devidamente preenchidas por mim (tomara que "por nós"!) e irão marcar essa miragem de ponto final.
 
Em breve divulgarei (aqui e por email) o endereço de um novo blog que penso em criar e que, por enquanto, só tem nome (talvez provisório): "TEXTANDO". Será minha tentativa de tornar texto, como teste, tudo aquilo que me faz pulsar.
 
A todos vocês, meus mais carinhosos abraços,
e minha insuficiente gratidão.
 
Noubar Sarkissian Junior


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P.S.: o endereço continuará ativo, mas não devo mais promover atualizações. Continuarei recebendo notificações de comentários por email.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Logo ali




"A música expressa o que não pode ser dito em
palavras mas não pode permanecer em silêncio"
(Victor Hugo)


É tão perto que nem há fuso-horário. É tão perto que não se vai de avião. É tão perto que não se leva retratos da família. É tão, mas tão perto, que não vale despedida.

É, no entanto, mudar.

É ter de selecionar o que há de essencial e colocar numa só mala: os discos marcantes (aqueles com encarte e tudo), os livros da fila e os de releitura aleatória, as camisetas mais descoladas (ou listradas, ou sem estampas), as meias menos furadas, e as partituras que esperam eternamente por um olhar.

É o fugir de casa pela porta e, à noite, voltar pela janela. É a valorização do almoço de domingo. É separar um dinheiro pro DDD. É rodovia: pensamentos de estrada, amigos de estrada, estrada devagar, de tardezinha. É a voluntária busca de um sotaque; de um tempero.

É deixar a História pra lá, e levar tudo o que, na História, pude acumular de mundo. É, ao menos, poder mudar a minha "apresentação" no cabeçalho desse blog: de "músico frustrado que brinca de estudar História", passo a "músico tenaz que brinca de estudar música mesmo".

É conhecer um carinho indevido de dezenas de pessoas tão queridas, e reconhecer um alívio, uma força mais perene, uma pré-saudade.

É outro lugar: novo mas perecível; em branco mas contornado.

É meio-saída, e meia-entrada.

É, mais que tudo, uma grande alternativa ao nada (é o ufa!).

É (preciso) fazer as malas, cortar o cabelo, e trocar as cordas.




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Mote: vou a Campinas (UNICAMP) estudar música, mas deixo quase toda minha vida em São Paulo. Vou e volto sempre, mas, ainda assim, vou. (distância campinas/são paulo: uns 100km).



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Torcedor


Se o gol é o orgasmo do futebol, os meninos da vila são os parceiros ideais: são os que proporcionam excitação e orgasmos múltiplos aos torcedores. Têm os hormônios e as pernas em sincronia. Não jogam, seduzem. Não correm, iludem. Não driblam, passeiam. Não cobram ingresso pra jogar, mas passam o chapéu durante e depois do show: são artistas amadores jogando no campo mais bem tratado do mundo. Ainda nem sabem qual o peso da camisa que fora vestida por pelé, pepe (e todos os outros que vocês não aguentam mais ver citados nessa nostalgia futebolística), e é melhor assim. Não cobrem títulos de tais muleques. Não fiquem pensando se eles irão aguentar quando jogarem um clássico. Eles não precisam suportar os beques sizudos e viris: estes que corram atrás, pois a carreira é longa.

Tudo isso por quê? Porque virei santista de uma hora para outra. Porque fui a Santos, comprei camisa, cantei hino e, ali, no anonimato da multidão, ninguém desconfiara de meu passado tricolor. Tal como eu viraria flamenguista se pudesse ir ao maracanã aos fins de semana ver Adriano e Vagner Love jogar. Tal como eu viro corintiano quando o Ronaldo pega na bola, e torço pra que ele faça grandes jogadas e belos gols. Tal, ainda, como viro palmeirense quando o Diego Souza e o Cleiton Xavier trocam passes e batem de longa distância. E o mais "grave": sou argentino quando me sento pra ver o Messi e o Riquelme jogarem.

Se é o que pensam, confirmo: sou o maior de todos os bandeirinhas. Troco de time como quem troca de canal. Vestiria inúmeras camisas de uma vez só. Iria ver o Grêmio jogar só pra cantar o hino mais bonito de todos os clubes. Trocaria ofensas com qualquer são paulino engessado que me repreendesse por ir ao Engenhão (Rio de Janeiro) e preferir ficar no meio da torcida do Botafogo, de camisa e tudo, a ficar esmagado atrás do gol junto à torcida independente (organizada do são paulo). Foi tão melhor comemorar todos os gols do jogo, mesmo que alguns "internamente", enquanto os imbecis da torcida gritavam odes à violência e salves a si mesmos.

Por essência e anos contados, sou são paulino. Sou um dos maiores são paulinos que você já conheceu. Vou ao Morumbi desde os cinco anos de idade, e cada vez mais assiduamente. Isso, no entanto, é mero acaso. Torço para o São Paulo como poderia torcer para o Corinthians. Quase todos nós escolhemos nosso time antes de ter nascido. Até os cinco anos eu fui santista (time de meu pai), e desde então meu tio me comprou com um uniforme completo do tricolor e com uma ida ao estádio pra ver o time jogar a Libertadores. Pronto: eu já tinha meu time pro resto da vida. Isso é mais covarde do que um casamento. Não há nenhum discernimento na criança que opta por um time do coração, e socialmente somos cobrados pra ficar com ele pra sempre. O divórcio é gradativamente mais e mais aceito, mas a mudança de time é o maior tabu de todos (maior que opção sexual).

Ademais, é impossível negar que a paixão pelo time acaba sendo totalmente assimilada por nossa fase infanto-juvenil, e depois é tão natural quanto o parentesco. Ser são paulino vira quase uma característica inata. É como ter um braço. Não se renega um braço. Pois bem, o fato é que aos poucos vou virando um torcedor genérico. Gosto cada vez mais de futebol e cada vez menos de um time só. Manterei minha parcela tricolor acho que pra sempre, mas o restante se dividirá entre os times que em melhor fase estiverem. Em suma: torcerei para o São Paulo mesmo quando ele não merecer, mas dividirei essa paixão com o Corinthians de Ronaldo, com o Santos de Robinho e Neymar, com o Flamengo de Adriano e Love, e com quem mais merecer atenção especial.

Que o futebol deixe de ser essa redoma machista e conservadora imune a todo o resto das "questões nacionais". Que o Richarlison consiga se declarar homossexual, e que não se dirija mais à torcida que se recusa a gritar seu nome. Que os companheiros tomem atitudes semelhantes às que rejeitam o racismo no futebol, como quando Samuel Etoo se recusou a jogar sob os sons de macacos vindos das arquibancadas. Que os jogadores bobinhos não comemorem os gols fazendo os sinais das torcidas organizadas. Que um dia eu possa vestir a camisa do Corinthians, do Palmeiras ou do Santos sem ser advertido por meus próprios amigos. Que o amor eterno fique reservado à minha avó, ao meu pai e à minha mãe, e não a um só trio de cores consagradas.







quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

À Prova





Temos de definir o que seremos antes de sabermos o que somos.


- No saguão da Universidade onde fiz as provas de segunda fase, em todos os dias um casal de orientais sentava junto à parede, cerca de uma hora antes do início das provas, dava as mãos, e ouvia algo no Ipod. Algo que me perturbava a curiosidade, mas que poderia ser tanto um hit eletrônico, quanto músicas de relaxamento compostas com "sons da natureza", quanto nada, mas simplesmente um aviso implicito de "não nos perturbe";

- Dentro da sala de aula, um candidato que sentou os quatro dias do meu lado esquerdo, antes de começar a resolver as questões, benzia cada uma das páginas da prova. Era um ritual altamente prejudicial ao meu desempenho, pois era impossível desviar a atenção daquele rapaz, demasiado religioso, que freneticamente pedia ajuda aos céus, e era como se precisasse mostrar cada questão ao todo poderoso. Um dos fiscais, no fatídico dia da prova de física, fora por mim surpreendido ao esboçar um risinho no meio das preces;

- Na saída era um burburinho comparável ao que ouvíamos/fazíamos na hora de nosso recreio, nos tempos de escola. Cada constatação de erro era motivo para lamúria, e cada acerto confirmado pelo colega japonês era o começo de um "yes!";

- Nas provas de aptidão, éramos todos caricaturas. Gente de todo o estado, gente de fora do estado, músicos profissionais que pouco sabiam de matemática, vestibulandos compulsivos que sabiam pouco de música, músicos de Deus, e músicos do Diabo: cada qual com sua história tremendamente particular, agrupados por razões estranhas às conversas, mas rapidamente compreendidas quando alguém esboçava as primeiras notas. Ainda não éramos amigos, mas, tocando, fingíamos ser.


Em todo esse processo eu me senti bastante à vontade, sempre gozando de uma sensação paradoxal: ao mesmo tempo em que eu participava do vestibular, eu também o via de uma posição mais afastada, menos apegada. Ali eu era um graduado tentando reinventar seu destino. No entanto, aquilo não era meu único destino. Se não desse certo, apelaria aos tantos outros que já pediram espaço em meus pensamentos. Isso certamente me rendeu certa vantagem no que diz respeito ao preparo emocional pra essa bateria sacal de exames. Tal tranquilidade não perdurara até as provas de aptidão, mas, só por ter me levado a elas, já teve sua hora de ser decisiva. Agora que não há mais o que fazer senão esperar, vejo a sensação de distanciamento se esvair, e me junto a todos que aguardam os resultados para dar rumos às suas vidas. Acabo escravo do que eu mesmo procurei, e noto que minha dificuldade de me projetar como "gente grande" só aumenta com o passar dos anos. Enquanto cresce meu passado, sei cada vez menos de meu futuro.

Todo aquele papo de destinos independentes do vestibular ainda existe, e é verdadeiro, mas após tanto sacrifício psicológico, não há como dizer que a preferência não é voltar à universidade, e dessa vez com o violão não mais levado nas coxas, mas licitamente nas costas, como material escolar que pretende ser.


Quando eu lhe disser que encontrei o meu destino, não dê ouvidos: dê de ombros e marque um novo encontro para a semana seguinte.




domingo, 3 de janeiro de 2010

Tempo Seu


                                                         (clique sobre a imagem para ampliá-la)


Há cerca de um ano eu publiquei aqui minha primeira "canção oficial" ("Abandonar") e, após promessas de fazer um arranjo melhorzinho, de gravar um arquivo de áudio com mais canais e tal, acabei deixando por isso mesmo. No fundo, é mais uma vontade de fazer música e uma preguiça de acabá-las. Por enquanto, que fiquem ilimitadas.

Hoje publico a terceira (?) de minhas músicas, que é a que eu  mais gosto. Pra essa eu devo mesmo providenciar um arquivo de áudio com algum capricho (basta que eu arrume computador com som e microfones!), mas isso fica pra depois. O videozinho que aqui veem foi gravado no útimo dia de 2009, com local sugerido pelo Caio (que também filmou) e horário providencial (6 e 15 da matina), pois em qualquer outro teríamos um mar de pessoas ou a ausência (total) de luz. Dessa vez o chiado valeu a pena, e mesmo o carinha que passa no final está perdoado. Peço-lhes a gentileza da audição, e lhes sugiro acompanhar a letra (que está na foto - como rascunho original, e mais organizadinha logo abaixo do video) também com a visão, pois eu também penso nela sendo vista (além de ouvida). Quando ouvirem uns "uapápá"s (inclusive há uma desafinada no segundo!), imaginem que essa melodia seria feita por instrumentos de sopro (metais), pois foi nisso que pensei quando a fiz. Há ainda um trecho da introdução e uns gracejos do final que eu esqueci de fazer nessa versão da praia, mas que farei no "arquivo sério". Ficou escuro, né? Pois é...

Como último detalhe, vale a ressalva de que o nome da música é sim uma homenagem ao nome desse blog. Não digo que ela tenha sido inspirada por ele, mas é provável que tenha colhido forças por aqui. Comentários de qualquer ordem serão muito apreciados. Agradecimentos antecipados à Sarah e ao Caio, que possibilitaram a gravação e a publicação dessa brincadeirinha sonora.




Tempo Seu


Se o nosso tempo fosse feito de-vagar
Sobrava tempo pro que falta preu sonhar
[Mas não quero
Mais] o tempo atrás
a me puxar de volta

E há tanto tempo que eu toco sem cantar
No meio tento pelos cantos te tocar
[Sei o tempo é
Seu] invento o meu
pra me puxar pra longe

Pra algum lugar sem tempo
de eu me sentir detento
Ou pra um lugar que dê tempo
pra mim

(parte dos "metais")

Saudade o tempo faz
O vento tanto faz




Versão 2, com um pouco mais de luz e som (e participações especiais de amigos):