quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Apenas o Começo




Há tantas cidades pra se conhecer, que até me pergunto se não foi demasiada minha teimosia de querer voltar ao Rio de Janeiro. Às vezes eu procuro algum indício de bairrismo, ou algo que me faça ver aquela cidade com menos apreço. Ouço o sotaque carregado, zombo, e em pouco tempo já estou o imitando sem destaque pejorativo. Eu não exageraria a ponto de dizer que sou um carioca por simpatia, mas é mais provável que eu realmente me adequasse melhor àquela geografia. Não há solidão quando se tem a praia ao lado de casa. E além da praia, há o morro de santa tereza (bondinho, parque das ruínas), a lapa, o maracanã, o jardim botânico, os museus todos (em 2º plano), a confeitaria, os mirantes (cristo, corcovado), a ponte rio-niterói: tudo tão perto. Mais ainda: tudo vigiado por favelas tão íngremes quanto próximas. (Tudo vigiando/amontoando as favelas.) Cada morro, ameaça que ronda e orna o discurso da classe média carioca, é um selo de qualidade à cidade. É a prova de que a submissão periférica e escorregadia, imposta há mais de duzentos anos, ainda vale tanta pena. E vale pra caricaturar mais ainda o lugar. Triste ou não, os morros cariocas jã são atração turística. A pobreza está a venda, e mora bem acima de nossos olhos.

Fiquei indagando meus motivos pra gostar tanto de estar no Rio. Vai ver só gosto porque permaneço ao nível do mar, porque me hospedo em regiões relativamente seguras, e porque lá, como vou sempre a passeio, posso andar largado, de regata e chinelo, sempre com uma sunga por baixo da bermuda, pronto pra improvisar um mergulho. Meu Rio é deveras encantador. Quente um pouco além da conta, mas ainda assim agradável. Se antes eu dissera que ir ao Rio é estar no meio do caminho pra Bahia, agora é como se eu já pudesse ter ido a Salvador mas tivesse optado por parar na metade. E aí a metade passou a ser meu fim. E ir à cidade maravilhosa passou a ser um recomeço periódico. Ela tem bastante a me oferecer, e eu tenho lacunas pra preencher por lá. Aliás, tenho muito a mudar ali, ou muito a ratificar. Revisitando minhas impressões de alguns meses atrás depois de ter escrito essas, notei o quanto sou o mesmo, o quanto foram semelhantes os passeios e os modos de narrá-los. Sorrio sozinho, notando coerências e sonhando contradições.

Tudo poderia ser diferente, mas sai de mim, enviesado por intenções mirabolantes e semi-concientes. O Rio é meu espelho. O rio me faz escrever na subida, corrente oposta. Onde chegarei com mais palavras? Quantas memórias hei de juntar até não ter mais tempo de revivê-las? Quando terei minha morada ideal em recortes fotográficos? Voltarei outras vezes, e misturarei de vez minhas lembranças. Por enquanto, pra não ficar no mais do mesmo, apenas comentarei as fotos que virão a seguir (clique sobre as imagens e, num passe de mágica, elas aumentarão).



A primeira, logo acima, é uma referência ao filme "Apenas o Fim" (tal como o título do texto), citado por mim em dois textos, sendo que, no primeiro ("O enterro do prodígio") eu nem sabia do que o filme tratava (sabia apenas que o diretor era precoce), e no segundo ("Olha a gente ali na telona!") eu vivia o êxtase da contaminação imediata pós-sessão. A foto foi tirada na PUC-Rio (onde todo o filme se passa), e remonta uma cena clássica do filme, onde o personagem de Gregório Duvivier fala sobre seu vizinho que costuma escutar Adriana Calcanhoto no repit. Entrar naquela faculdade (privada, protegida, filmada) foi bastante difícil, mas conhecer o que pra nós era mais um set de filmagem do que uma universidade valeu cada argumento gasto com os seguranças. Valeu, Antônio!



Foto tirada do exterior do Museu de Arte Contemporânea, situado em Niterói, e projetado pelo imortal Oscar Niemayer. A vista do lugar é lindíssima, e o que mais me chama a atenção é justamente o fato de o museu ser visitado mais por sua arquitetura do que por seu acervo. Outra coisa pitoresca é que a localização privilegiada foi assim descrita pelo meu irmão: "os cariocas, com certo grau de rivalidade, dizem que o melhor de Niterói é a vista pro Rio"

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Essa do Estádio merecia um texto exclusivo. Trata-se do Engenhão, onde fui ver Botafogo x São Paulo, jogo válido pela antepenúltima rodada do Brasileirão. Eu, sãopaulino inquestionável/fanático/frequente/congênito, fiquei na torcida adversária, e até comprei camisa do Fogão! Vi um dos melhores jogos do ano (5 gols, 2 bolas na trave, muita disputa) e torci pros dois times ao mesmo tempo. Vibrava a cada lance de perigo/gol do Botafogo, e vibrava também (interiormente) nos lances do tricolor. Foi uma dança dentro de mim mesmo. Como se eu tivesse me domando, brincando de rival. Há quem não me perdoe por ter "virado a casaca", mas há aqueles que conseguem ponderar a situação e me absolver. Experiência única, numa tarde muito quente e muito esperada. Nunca havia me imaginado cantando "sai do chão, sai do chão, a torcida do fogão!", mas foi bom à beça, mermão.

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Referência à viagem que fiz ao Rio no começo desse ano, onde, nesse mesmo lugar (entrada do Jardim Botânico), as meninas tentaram imitar as estátuas. Dessa vez, fomos nós, e o resultado ficou bem melhor.



Arpoador. Baita clichê turístico, mas chichê justamente por ser magnífico estar ali em um fim de tarde. É virar as costas pra cidade e encarar o mar de frente, e ver a água de cor indefinida junto às pedras. Aí lembrar do caetano cantando "barra, gávea e arpoador" e fazer o caminho mentalmente. Lembrar também quando liguei lá de cima pro Bruno querendo saber como tinha sido o show dos Los Hermanos na noite anterior e ele, desolado, disse ter perdido o voo. Bom, tradiçãozinha.



"Pensamos que todo pássaro cantando é feliz. Pode estar pedindo ajuda." (Fabrício Carpinejar)



Rocinha. Maurício nos alertou: "quando terminar o túnel, olhem pra trás. Sigam em frente, mas olhem pra trás. Irão ver a Rocinha." Impactante, não?



"Tem sempre de tudo no trem que sai lá da central". Esse lugar também soa meio anacrônico. Não tanto quanto os bondinhos de Santa Tereza (que, ao estarem tão deslocados no tempo, evocam um anacronismo delicioso), mas um pouco. E, no meio de tanto "arcaísmo", há os novos trens, cheios de ar-condicionado e letreiros eletrônicos. Algum envolvimento com esse lugar, com o filme do Walter Salles, com a música adolescente do Zeca.



Vontade de fazer lual na prainha. Integridade pra cantar "Hoje a tarde a ponte engarrafou..." e saber que poderíamos, sim, estar falando da ponte rio-niterói (mote da música). Não precisar, então, cantar "hoje a marginal engarrafou...". Junção de duas coisas tão caras a tantos de nós: música e praia.



Lapa. Sambistas fantasiados de sambistas, cantando "eu fui fazer um samba em homenagem a nata da malandragem...eu fui à lapa...". Tudo o que se espera ouvir ali, mas com uma autenticidade quase que involuntária. O rapazinho do pandeiro, com seus máximos 17 anos, era um fenômeno. Tinha os trejeitos e as marcas (dedos com esparadrapos à Seu Madruga) de um esforçado percussionista, e a habilidade e segurança de um bom percussionista. A mim aquele samba foi uma sessão de hipnose nostálgica. Pedi músicas outrora cantadas por meu grupo de pagode juvenil, ameacei pagar uma rodada de cerveja se tocassem "Falsa Consideração", não paguei, e revivi.




Paulistas.

E é isso. Sigo assim: esrevendo e contando o que eu vi, e desenhando meus passos em deslizes virtuais, nessa mistura de referências e reverências.

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"Eu não sou da sua rua,
Não sou o seu vizinho.
Eu moro muito longe, sozinho.
Estou aqui de passagem.

Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.
Estou aqui de passagem.
Esse mundo não é meu
Esse mundo não é seu"
(Arnaldo Antunes)

6 comentários:

Tiago Fagner disse...

Acabei chegando por aqui e gostei do lugar. Você me fez querer conhecer o Rio. É fundamental estarmos onde gostamos. Volto outras vezes, se a porta estiver aberta.
www.tiagofagner.blogspot.com

Noubar Sarkissian Junior disse...

Tiago, volte sempre!
Você, como escritor de blog, deve saber o quanto é bom quando alguém novo dá uma passada em nossa página.
Um abraço!

César Fernández disse...

Um dia eu leio esse seu post imenso (:

Ahá! Esse negócio de um blog levar a outro é interessante mesmo, e também já me proporcionou muitos inícios de sábados bem divertidos. Mas eu sou chato e não linko ninguém no meu blog, as pessoas são obrigadas a parar quando chegam no meu. (a idéia é fazer com que leiam todos os meus posts, já que não podem fugir pra outro blog)

Natália é minha namorada, e nos conhecemos por blogs. Interessante, não? hehe
Legal o seu nome (:
Abraço e volte sempre! o/

Tiago Fagner disse...

Valeu pelo comentário rapaz, também estou esperando novos textos seus! Apareça mais vezes por lá sim!

Natália Corrêa disse...

Oi seu moço, desculpa a demora pra aparecer aqui. É que eu ainda não tinha tido tempo de ler seu post, e não queria comentar sem ler. Aliás, senti uma super invejinha, eu nunca fui ao Rio. Na verdade, nunca fui a muitos lugares, minha bagagem de viagem é bastante limitada, mas tenho planos de mudar isso. haha
Na verdade, eu sou Pernambucana fanática, então dificilmente me permitiria amar tanto um outro estado. Mas não sou cabeça fechada ;)

Muito obrigada pelo comentário no meu blog! Fiquei feliz que gostou. Engraçado que muita gente falou de "Construção" quando leu meu poema, e só depois eu percebi que seguiam uma mesma linha (amo muito Chico). Na verdade, eu me "inspirei" em uma música de Zeca Baleiro, chamada "Pastiche" em que as frases terminam sempre com iche, ache e acho. haha

Mais uma vez obrigada pela visita *-* Voltarei para ler mais dos seus posts. Volto também quando eu assistir "Apenas o Fim", que você me deixou com curiosa para ver. E ah, continue lendo os textos de Tiago e do meu namorado (César), vc nem vai se arrepender. :D

Beijo!

Natália Corrêa disse...

Nossa, porque eu falo tanto? u.u


beijo =P