terça-feira, 19 de maio de 2009

X (letra viva)

X deseja voar. Pensa em pedir transferência para o patamar dos números. Quer por qualquer motivo: pelo motivo que lhe emprestarem; ou por qualquer outro que julgarem apropriado para o caso; pelo sem-motivo. As pessoas (e as letras) não desejam voar a fim de ir pra longe. Só almejam chegar mais perto de si, ou chegar num lugar onde não seja normal se ater às orações subordinadas e à busca de coesão, coerência. Lá onde o anonimato é o grande sonho a ser andado. O mundo das palavras avulsas! Pra que apenas as coisas desconexas perturbem X, Y, ou N. Sua existência carece de um lugar sem parágrafos profícuos, quiçá sem nada importante para se dizer. X não gosta da responsabilidade de se amigar em palavras.

X quer viajar, ainda que por terra. Dizem que ele é esperado pelos cariocas, que já andam roubando os sons do S. X não precisa de mapas pra planejar e orientar sua viagem, mas de uma razão pra ficar. Se pedirem pra que fique, sem justificativa nem nada, ele cede. Num ato que lhe soa heróico, abdica do distante para atender a quem quiser sua companhia. Pois é isso que espera: ser querido. Não lhe agradam as ciências, as crenças religiosas, ou as reuniões da academia brasileira de letras. O que mais lhe atrai são os olhares desclassificados, que ainda são lícitos (!): os que ele troca com palavras de seu cotidiano, na poesia, na crônica, no desabafo (seus meios de transporte) ... Essas paixões silenciosas que acontecem pelas manhãs, ensejadas por um acento desarrumado, ou um ou dois pontos desavisados. Aquelas das quais ninguém ficará sabendo, pois não serão escritas nem contadas. X, mancomunado com as outras consoantes, tem autonomia sob os registros. Se não quiserem dizer, não dizem, e ninguém contesta. Azar dos pensamentos, que pleiteiam espaços nas cabeças dos loucos, e logo são descartados.

X vive em crise alfabética, mas só partirá se cá não mais encontrar sentenças encantadoras. Quando tudo finalmente se tornar onomatopéia, ele não suportará a fadiga de seus dias, e irá. Quiséramos todos acreditar que isso passará. Quisera também X. O ceticismo não lhe foi apresentado como uma das opções. Uma vez cultivado, ecoou. Em quantos verbos X está presente? Deixar, puxar, abaixar... Se não fosse a matemática e suas F de X, é provável que lhe esquecessem.

Não há muito que fazer por X. Com vontade de ser um nome real, ele se insinua a todas as vogais que conhece: abertas, fechadas, nasais. Queria todas elas, mas nem ditongos são permetidos no reino das palavras de amor. X também briga, enraivece. Duela com o CH, com o Z, pois sabe que são eles seus maiores inimigos. No dia em que atestarem seu caráter descartável, X terá, forçosamente, de seguir outros rumos. Pedirá abrigo aos outros idiomas que ainda lhe aceitarem como letra viva, embora doente. Como que homeopaticamente, vão dizendo a X que ele faz bem a alguém. Ele está no êxito, no exótico, no exato, no exemplo (notam como o Z é o grande oponente?). Adiam seu desuso. Sub-utilizam.


X, e essa babaquice toda, só existem se escritos; e eu só aguento se os escrevo.

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Lo que pasa es que se creen sábios. Se creen sabios porque han juntado un montón de libros y se los han comido. Me da risa, porque en realidad son buenos muchachos y viven convencidos de que lo que estudian y lo que hacen son cosas muy difíciles y profundas. En el circo es igual, Bruno (X), y entre nosostros es igual. La gente se figura que algunas cosas son el colmo de la dificultad, y por eso aplauden a los trapecistas, o a mí. Yo no sé qué se imaginan, que uno se está haciendo pedazos para tocar bien, o que el trapecista se rompe los tendones cada vez que da un salto. En realidad, las cosas verdaderamente difíciles son otras tan distintas, todo lo que la gente cree poder hacer a cada momento. Mirar, por ejemplo, o compreender a um perro o a um gato. Esas son las dificultades, las grandes dificultades.

(um saxofonista virtuose, num trecho que pode não fazer muito sentido enquanto trecho, mas que me afeta. Em “El perseguidor”, de Julio Cortazar. Indicado a mim por um amigo [“el comedor”].)

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à Carol,
como desculpas por meu desleixo, e gratidão por suas palavras.
Gênia, mesmo.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Rui Barbosa que me desculpe

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
(autor ainda desconhecido. Fiquemos com anônimo do século IV.)

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-Ah, Júniu, esse negócio de estudar nunca foi pra mim, não. Isso de ficar parado, lendo, cansa os olhos, pede uma pestana. Não nasci pra isso, e agora, depois de velho, dá mais preguiça ainda...Se eu me lembro de algo que tenha lido e gostado? Do pouco, quase nada que vi, adoro um poema do Castro Alves, mas ninguém conhece. Já procurei em bibliotecas: ia, pedia os livros do autor, e os vasculhava atrás do poema. Nunca encontrei. Lembro de ter lido, gostado, e meu pecado foi não ter anotado. Um trecho? Dizia algo como “De tanto ver triunfar a injustiça, (é...) (é...não lembro, mas terminava com) o homem chega a ter vergonha de ser honesto”. Uma coisa linda, e que vale bem pra essa sujeira que vemos até hoje, cada vez maior, sem dar chance pra esperança nenhuma. Ah, você vai procurar, então? Bom, mas nem na sua faculdade deve ter. Veja lá pra mim, sim, e assim a gente confirma que isso nem foi publicado. Velho tem o direito de ser caduco. O dever. Cê olha, e depois me conta. Sem pressa, sem trabalho.

Seu Nelson, esse que disse. Velho, contador de causos, sabedor pela vida. É daquelas pessoas capazes de incutir nostalgia em quem não viveu, feito prótese memorial. Mata o tempo, cria o papo, faz de conta. E é ranzinza, todo cheio de rabugem: gosta pouco de fazer esforço inútil. Não entende essa juventude de hoje em dia. Acha que futebol só valia a pena no tempo do Pelé, e que o que se vê nos campos (tempos) modernos é um desfile de pernas-de-pau, ganhadores de dinheiro e prestígio indevidos. Fora meu patrão por dois ou três anos. Em meio ao trabalho, questionava o que me levava a ter disposição pra ler aquelas coisas de escola. Sua palavra era oral, mutável, encenável.

(Por julgar essa descrição bastante, volto direto ao relato. )

Algo me dizia que o tal poema estaria por aí, e que não seria difícil encontrá-lo. Antes de mergulhar na biblioteca, caçando os trechos lembrados em cada escrito, em antologias ou qualquer coisa assim, fiz o fácil: googlei. “De tanto ver triunfar a injustiça + Castro Alves”: nada muito confiável; nenhuma relação imediata. De novo: “de tanto ver triunfar a injustiça” (e só!):lá estava, em diversos links, o texto que continha as frases soltas que eu digitara. O que me atrapalhou, porém, foi a autoria. Nada de Castro Alves. Nem menção. Os sites eram categóricos: o texto era de Rui Barbosa, senador da República, lá pelos primeiros anos do século passado. O mesmo Rui, da alcunha “Águia de Haia”, que por vezes fora tomado por conservador, mas que escrevia direitinho. Que tenha sido, que tenha feito. Era incontestável: Seu Nelson estava enganado, e isso pôde ser atestado pela recorrência das informações. Sua certeza, no entanto, era de assustar. Difundia o nome de Castro Alves, como figura marcante em sua rara vida literária; havia procurado, revirado; male-male, lembrava trechos.

Cheguei à copiadora (local onde eu trabalhava), mostrei a folha com o texto, e Seu Nelson quase não acreditou. De cara, surpreendera-se com a vastidão da imaginária biblioteca. Mal soube que eu havia retirado aquilo da internet, já compôs aquele semblante desconfiado, velhaco de esperto.

- Pois é, o único problema é que na internet diz que o texto é do Rui Barbosa, e não do Castro Alves...
- É por isso que eu falo, Juniô: não dá pra confiar nessas coisas de informática, computador. Tudo parece tão mais fácil, e a vida não é assim. Em todo o caso, lembro que é do Castro Alves, e que era em forma de poema, e não desse jeito, escrito de uma vez.

Eu poderia defender o Rui, falar da credibilidade dos sites consultados, e até provar a falha mnemônica de meu amigo patrão. Mas isso daria um baita trabalho; usaria o que há de melhor em minha capacidade de persuasão; e, pra além de tudo, lesaria o que havia de mais seguro nas lembranças de Seu Nelson. Que ele se atenha ao que realmente lhe importa. Que siga dizendo estórias ao seu modo bom-de-tão-amargo, e que dê as referências que lhe vierem à mente, pois os "poetas" não-creditados também morrem, e tudo se esquece.

- Ah, deve estar errado mesmo. Sabe que eu também não boto fé nesse mundo virtual? De certo eles fizeram alguma confusão.
- Sim, sim...essa gente! Faz o seguinte: imprima com letras grandes, e cole esse texto no mural, pr’esses alunos verem e aprenderem algo que presta...rs (quase sorriso):



"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

(CASTRO ALVES, e tenho dito!)



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Seu Nelson segue trabalhando na copiadora (onde se tira xerox) da Unicastelo, em Itaquera. Beira os setenta anos, e alegra. E o texto não tem pretensões de mostrar um lado "humanitário", "solidário", de seu autor. Ele ilustra uma decisão, boa pra mim, e que julguei boa pro seu nelson também. Reflitam: quantos alunos da faculdade podem ter visto o trecho no mural, e ainda referenciam castro alves por aí. Pra eles, fui nocivo, ao menos por confundir suas cabeças. escolhas.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Registro (suplente) de uma noite



Adentrei noutro mundo: Caetano estava ali. Memo. A dois palmos. Ao alcance de um tapão. Onde deveria morar o inimigo. E era o cara, desblindado, mais Carlinhos Nader, mais Antonio Cícero. Vá lá: compositor; cineasta; e poeta: todos bobos, rindo juntos, dando palmas. Na ordem em que você quiser. Deles, Do Dito Depois: Da Desordem danada! Filmes bons.

Meio documentários
/ Meio ficcionários

?
("Por que ele está escrevendo desse jeito?"*)

Mas tá: os vídeos valeram, só que eu fui até lá pra ver Caitâno. Sabe essas palestras que ambicionam "discutir" o filme? Ia rolar. Os três estavam intimados a falar. Eu, a ouvir. Agora, com aquela muganga toda; aquele jeito tranquilo e gostoso de ser baiano, nosso tropicalista não tem tanto tato pra falar. Tagarela fraco. Descumpre seu tempo, não conclui, repete introduções. Quem não o conhece, abdica. Quem já ouviu falar, teima e fica. Quem já o idolatra, torce ripa**: "vamos, meu rei, desembush!, desenrole, clareie o dizer".

Eu? Nem nada não. Gosto o bastante pra ir, mas não o suficiente pra torcer por ele. Se mandarem chamar, eu vou. Sou desses, tenazes pressas coisas: qualquer dia se encontra um mote. Entende, o buscar pretextos? Meio que caçá-los em selvas mais abundantes. Sim, sim: volto. Cae ta n o ia no seu ritmo, parcelado. Eu? encantado desde o caminho. Falasse o que fosse. Xingasse minha mãe. Desimporta: eu queria era o esoterismo de sua presença. Cheirar o mesmo ar. Encenar no inconsciente de um bom criador. Mas não só. Paradoxal que sou, meto o pau nessa putaria de ficar o tempo todo com a câmera na mão, mas, vez ou outra, até gostaria de uma foto ao lado dessa gente que nos nutre de impulsos. Vai ver, fui pra isso, ó.

Cheguei.

Na foto. Ou no autógrafo, que também registra. Ele ali, na cinemateca erma de uma quarta-feira. Mal divulgado. Acessível, então. Duas dezenas de pessoas, talvez. Quem quis, quase trocou msn. De riso fácil, o coroa. Humano, na média, e mais que eu. Fotografável, que é o tema. Assaltei os bolsos e lembrei que meu celular não manda dessas. Nem câmera digital eu tinha ali. Circundavam o lugar uns fotógrafos de jornal, outros de Jardins. Praqueles, era pedir na camaradagem: até comprar. Nestes, bastava chegar e puxar assunto: "a fotografia ousada de Carlos Nader; o cosmopolitismo de Caetano; a __________ de Antonio Cícero; e a modernidade, o Obama, a banana, melância, moranguinho..."

Melhor não, achei. Uma foto não valeria essa sucessão de constrangimentos. Certo, mas e o autógrafo? Ah, bandido! Esse era só pedir: uma vergonha só. Depois, sair contando: "o caetano? amigo meu...". Eu, meio intelectual, meio de esquerda, até estava lendo um "Folha Explica Caetano Veloso" (se eu fosse intelectual por inteiro, entenderia sozinho: sim, também foi o que pensei agora. Ora, e se eu fosse de esquerda por inteiro? aí, o sinistro! o sem-destreza!), e era só aproveitar e pedir a assinatura ali mesmo, na página de rosto. Folha explica, e caetano atesta.

Sem suspense, soa assim: saí só, sem sombra sequer. Nem foto, nem letras. Nem o tapa que eu tive a chance de dar. Ele voou da Bahia exlusivamente praquilo. Pro tapa não; pra palestra. Pouco pôde palavrear. Perdeu pontos com a paulistanada, perdeu a oportunidade de autografar meu livro, e de figurar no meu álbum do orkut. Com uma legendazinha e tudo: aspas, abraço e sorriso falsos, produção de desprezo, inveja e quais-quais-quais. Nem somos amigos, mas eu saio na vantagem. Contento-me com o que dele ouço e leio; com o que vejo mal-falarem; com minha preguiça (de) e incapacidade pra debater sua obra, e a solicitude pra recebê-la.

Mãe de Carlos Nader (autor dos filmes exibidos e tema da mesa), na última das intervenções da platéia:

-Filho, por que você não faz uma comédia romântica?!

Gargalhadas e aplausos inacadêmicos!


Tanto - tempo - titubeio - torno - tudo - tão - tolo... quanto artigos e preposições.
(P.S. dentro do texto)



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* Porque tem uns caras que fazem isso e me agradam. Eu copio, até firmar.


** Baita tesão por colocar "Quem já o idolatra, siririca!"; pra ceder à insinuação silábica, e gozar de (em!) minha rima e simetria pedantes. Se o lance é registrar, que fique também a heresia incompleta, quase só pensada.

No normal, a orientação: trata-se de um texto motivado por rabiscos que fiz nesse dia e situação descritos. Rabiscos, se mantidos, podem mesmo ser ininteligíveis. Local: Cinemateca Brasileira (antes de voltar a esse blog, passe lá). Vídeos: uns curtas bem bacanas do Carlos Nader. Depois: mesa de debates com Carlos, Caetano e Antonio Cicero. Avaliação: satisfatório. Quando: mês passado.


Ok, o tempo acabou. Ronaldo em campo: por duas horas, sou corintiano.

domingo, 12 de abril de 2009

E acho que é tão normal

"Se o seu corpo ficasse marcado
por lábios ou mãos carinhosas,
eu saberia
(ora, vá mulher!)
a quantos você pertencia"

("Mora na Filosofia" , de Monsueto / Arnaldo Passos - ouço pelo Caetano)
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O rompimento. Com toda a força que o termo traz. É como se realmente não houvesse mais vínculo. O que passou, passou. Tolice. Fica. Ressignifica, e fica. Vira nostalgia, ou ódio. Mas não desaparece. Rola tentar fingir, mas apenas pra produzir fracassos. O erro do tentativa e erro. Vestimos uma capa que isola o passado do presente. Como se o futuro tivesse medo dele (do passado!), concorresse. Ou limitamos o que foi vivido a um simples aprendizado. Assim é fácil, pois aprender é o que sempre fizemos. Encarar os rompantes de felicidade derivada de instantes remotos deveria ser mais natural. Ao invés de conversar variedades, que é o mais aceitável, poderíamos partilhar alegrias. Falamos da previsão do tempo que cada um faz (se vai chover, se esfriou, se a donzela vai parir), mas dissimulamos o tempo que nos interessa, que nos preenche os pensamentos. Poupamos as pessoas que nos fazem felizes das lembranças daquelas que nos fizeram. Elas não podem conviver. É mais difícil competir com o abstrato. Pra quê? Hein? Prefiro o risco. Caio no engodo. Não reviro, revivo. Pra juntar emoções e fazer com que elas se completem. Se nada é eterno, então pra quê fugir do que nos faz bem? Dane-se o que é habitual. Por amar não se arrepende. Nem se arremeda. Enquanto nossos pensamentos não forem transparentes, é provável que continuem acreditando em nossa segurança (a babaca segurança!). Nas voltas por cima. Na superação. Gostamos de ouvir comparações, mas só as favoráveis. As outras ficam indefinidas em algum lugar dos coraçõezinhos feridos. Sabe aquela história de produzir provas contra si mesmo? É o que posso estar fazendo, e que aconselho a quem quiser dormir.

Exibam suas cicatrizes. Se elas resistirem à exposição, ao fechar, ornarão sua pele. Feito tatuagem, mesmo.


(P.S.: por aqui: tô gostando de escrever sem dar chance pra desistir de publicar. É estranho criticar as peças que você mesmo protagoniza, em público. Como dissera C. Nader: "é estranho, eu existo entranho".)
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"Tive sim,
outro grande amor antes do teu,
tive sim
o que ela sonhava eram os meus sonhos,
e assim,
íamos vivendo em paz.

Nosso lar,
em nosso lar sempre houve alegria,
eu vivia,
tão contente,
como contente ao seu lado,
estou..."

("Tive Sim", de cartola)

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Aos tempos que se alternam em minha vida (O passado, o presente, e o futuro).

À D. e à S.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Vômito (de um amigo de um amigo meu)



Seguem seus sintomáticos dizeres:


"E as coisas começam a se revirar. O mundo, a sair do avesso. Ou a entrar nele, no redemoinho. Pessoas pedem demissão antes de serem demitidas. Adiantam-se. Deixam tudo sem ter nada. Arriscam (?). Nem tanto, porque, embora estejam sob uma pressão incansável, preferem o alívio finito de um desabafo. Agem de baixo do viaduto, mas enlevados, extasiados. Agir, de verdade. Sujo, mas íntegro mesmo enquanto despedaça. Usar as gravatas pra distrair um cão. Ou pra prender uma à outra e pular cordas. Induzir os sãos a enlouquecerem. Puxar os pés. Pra junto daqueles que compõem o chão. Nivelar o asco; socializá-lo. Pra que todos mergulhem em sua mesquinhez existencial e desistam de ser algo melhorzinho, e enfim tenhamos o célebre espetáculo da barbárie descortinada. O caos interior, globalizado: mundialmente interligado. Nós, comendo nós. E a trapaça vai virar lei. A cortesia será hedionda. Carnaval se extinguirá e levará consigo as máscaras todas. Desses seres que se fingem de humanos pra me confundir. No atual, a norma: suspeitar. Pé atrás; ouvidos dilacerados; olhar sem piscar. Nem os casais servem mais. Propagam ilusões. Adiam. Não têm vontade de ser eternos. Contentam-se com a felicidade efêmera, de sábado à noite. Filhos, uma crueldade. É botar outro pra correr desse vulcão em erupção parcelada. Endividar a consciência. Reviver. Pra arrepender. E comprar mais um lote de culpa. O mundo está ao contrário, e eu reparei. Vigiei essa mudança. Daqui, contaminado por ruídos e poeira, mas parado. Estático no pensar. Autômato por exigência. Do camarote de minha desistência, vi tudo. Pago o preço. Nada me surpreende. Perdi o discernimento. Há muita arte (droga), muita sacanagem, muita gente. Quando se perde o filtro, isso tudo se embola. Daí pra frente, chamam-me louco. E, só então, me notam: sou alguém. "


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Maluco de pedra. Enviou-me esta a carta e não deu mais sinais de vida. Dizem tê-lo visto por aí, disfarçado, num estilo segunda-à-sexta, safado fino.

Se o virem, não hesitem: prendam-no. Louco bom é louco dopado. Só peçam aos psiquiatras um pouco de cautela. Peçam pra não o chocarem ainda mais.


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"Suppondo o espirito humano uma vasta concha, o meu fim (...) é ver se posso extrahir a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora d’ahi insânia, insânia e só insânia".

("O alienista" . Machado de Assis, 1951, p. 31)




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motivado pelas idéias de J.P. e seu lúcido "Só para loucos". http://omomentodecisivo.blogspot.com/?ext-ref=comm-sub-email

segunda-feira, 23 de março de 2009

Que é tudo que vale a pena

- Quer seu guarda-chuva?
- Não! Eu quero a chuva!

Sua banda predileta estava no palco e, pra ela, talvez aquele momento fosse digno de chuva. Se o sol já havia se posto, e a lua era ofuscada por nuvens e holofotes, que a natureza se fizesse lembrar assim, jorrando. Que marcasse presença e trouxesse mais lembranças à baianinha, que as colecionava.

Sim, viera de Salvador para vê-los tocar, e fez pequenos os trinta quilômetros que me separavam do local do show.

Ressaltou as saudades da mãe; preteriu a cerveja e tomou refrigerantes; elegeu aquela noite como a mais feliz de sua vida. Da sabedoria casta de seus dezessete anos, envergonhou minha experiência indesejada. Recordou-me de que é mais gostoso ser pequeno, pra poder acreditar, sem ressalvas, na plena beleza de um instante; num domingo nublado.

Não trocamos uma palavra sequer, e palavras podem realmente ser desnecessárias. Quando nossos olhares se cruzaram, ao som de Último Romance, foi como se tivéssemos sido apresentados pela afinidade. Compartilhamos lágrimas. Poucas. Apenas o suficiente pra que pudéssemos voltar ao nosso infinito particular. Travamos uma relação de simbiose conveniente: emprestamos um ao outro a sensação de que é legítimo se emocionar.

Espelhamo-nos.





E as músicas seguiram, com pressa de acabar. O tumulto conduziu a baiana para outro lugar. Qualquer. Ainda restavam três horas até o mais badalado show da noite, e eu não ficaria surpreso se ela nem quisesse mais espiá-lo.

Eu queria.

Fui ficando cada vez mais espremido. Suspenso pela massa. Pernas partindo-se. Sede. Fome. E uma contraditória vontade de fugir de lá. Atrás de mim, o mundo. Melhor ficar.

Sem maiores enrolações. Próxima.

No deslocamento involuntário oferecido por esses lugares abarrotados, surgiu a segunda menina. Havia chegado a hora do espetáculo (foi o que literalmente se viu), e a moça já aparentava ter uma empolgação acima da média

Camiseta da USP, dezenas de piercings no rosto, e um risada indecifrável. Primeira impressão: medo. Desde o primeiro acorde, ela entrou em êxtase. Conhecia e berrava cada sílaba das vinte e cinco músicas tocadas. Não tinha noção. Sacudia-se freneticamente, e acertava todos os outros fãs com sua cabeça e seus braços. Certo temor.

Do alto de meus quase dois metros, pude me esquivar, mas, se ela realmente viesse pro meu lado, não haveria escapatória. O friozinho não impediu que ela ficasse ensopada de suor. Nalguns momentos ela encostou em mim. Pensem nos peludos que jogam futebol sem camisa´: é quase isso. De um modo quase inaceitável pra um lugar daqueles, um espaço foi se abrindo em volta da garota. Todos se protegiam daquela que herdara da baianinha uma boa parcela da felicidade contida naquele ambiente.

Não a culpo por sua entrega. Ainda que seu comportamento e seu prazer explícito atrapalhassem todos ao seu redor, indiscutivelmente, ela vivia algo mais marcante do que eu. Desviei; contive meu pânico; e ainda deu tempo de admirar uma performance incrível, vinda lá de baixo das luzes. A distinção: eu contemplei; ela gozou. Talvez essa seja uma das únicas vezes em que eu admita que meu "jeito de curtir" pode ser inferior.

- Eu quero morrer! Eu POSSO morrer! - disse ela, tão logo soou a última nota.




Pronto. De bom mesmo, foi isso. Guardarei essas imagens na gaveta das primeiras impressões. Ficarei com o encanto juvenil da primeira menina, e com a postura autenticamente inescrupulosa da segunda. Elas compuseram o conc(s)erto inesperado de meu dia. Encenaram pra uma platéia de um homem só. Só.

Seguirão por aí, anônimas e distantes. Unidas pelo acaso de uma folha em branco.

E pelo deslocamento de um fã. Um caçador de histórias a serem contadas.

Porque falar dos outros é não precisar falar de si. É a trégua.

quarta-feira, 18 de março de 2009

"Se eles são bonitos...se eles têm três carros..."



Por que nossa vida teima em ser regida pelas comparações? Por que, em tempos conflituosos, para nos sentirmos melhores, funciona a estratégia de prestar atenção em pessoas ainda menos privilegiadas que nós? Se não estamos bem, há sempre quem esteja pior. E seguimos nesse jogo hierárquico que conduz a balança de nossa auto-estima. Não enxergamos o cume nem a base dessa estrutura, mas fazemos parte dela, e nosso transitar é pautado por várias restrições.

Quais catracas você está habilitado a atravessar? Quantas senhas a vida lhe proporcionou?

Seria melhor (pra quem?) que a hipocrisia nos impedisse de cultivar tanta indignação e inveja. Que reinasse a resignação. Sobrariam discursos serenos e compreensivos, que justificariam a condição peculiar de cada um (já não sobram?). E então o mundo seria amistoso, com todos celebrando sua desgraça, mas agradecendo a Deus por (não) terem três refeições diárias. Pois o que importa é ter saúde, e um pouco de terra no feijão é bom pra criar anticorpos, não é mesmo?

A rua proporciona milhões de casos anônimos pra todos nós, juízes silenciosos. É procurar e julgar, pra classificar os condenados e enviá-los, mentalmente, aos respectivos jazigos destinados às suas certidões de nascimento (ou óbito: tanto faz). São os que nasceram com o destino atrofiado; com uma vida cercada por obstáculos.

Na viagem até o trabalho, olho pros lados, dentro de conduções entupidas e rastejantes, e penso identificar muitos deles. Volto a mim e vejo que, a despeito de me achar um cara injustiçado pelo berço*, não tenho a coragem de reclamar diante do espetáculo matinal de inércia que se apresenta diariamente a quem quiser assisti-lo**. O tudo é relativo é auto-ajuda: faz menos ensurdecedor o zunido da campainha do metrô, que avisa que, devido a problemas na linha vermelha, os trens estão circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Se o teor desesperador de tais “im”previstos também é relativo, eu deveria agradecer pelo fato de inexistirem acidentes graves nos transportes urbanos: é como se fôssemos enlatados, mas vivos.

Ora, ora, especulações acerca da relatividade das coisas são suficientes pra que eu também fique anestesiado, e me contente com o que há de verdadeiramente bom a minha volta. Se as condições são distintas e iníquas, não vou lutar para vencê-las. Não é natural aceitar o fato de ter de ultrapassar etapas que outros venceram antes de nascer. Uma droga? Claro! Mas correr atrás cansa demais! E é nesses momentos de cansaço que escrever me recupera. Fica um baita clima de desabafo e de repúdio à humanidade, e é isso mesmo. Não há arte, nem um mero tempero agradável no texto, mas há uma espécie de radiografia de mim.

Ando distante das palavras. Próximo de signos que me trazem comunicações mais sensoriais. Ausentei-me do blog por não conseguir articular quase nada. Vivo semanas de um adulto que tem saudades da adolescência. Saudades de poder agir como um moleque, legitimamente. Sair do trabalho e afrouxar a gravata: eis um prazer garoto.

Sigo ouvindo as mesmas melodias de três anos atrás, tempo em que eu sabia muito menos sobre mim. Ouço-as e noto entonações diversas, que geram emoções invertidas. O avesso (lado B). O que outrora deu sentido a tanta coisa, hoje não me faz mais bem.

Parece que todas as letras e músicas foram feitas pra conduzir minhas angústias. Pra esse momento de mudanças e amores encruzilhados. Num ou noutro verso, de um modo quase conveniente, as canções me traduzem. Dizem aquilo que eu não queria ter dito, mas que disse, involuntariamente. Todas aquelas coisas de que se ouve falar, mas não se espera pra si. Que são cantadas como algo que ultrapassa a capacidade que temos de sentir. Alguns versos saem da poesia (e da poesia musicada) e invadem meu mundo real. Adentram meu peito e desarrumam meus batimentos: os anulam ou acentuam.

Perdi minha autonomia. Não domino meus humores nem minhas palavras. Estou despreparado. Incapaz de encarar tantos turbilhões de sensações e lembranças.

Cansaço. Letargia.

Parem o trem, ou liguem o rádio.







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P.S.: foi o que rolou...


* Alto lá! Tenho uma família fantástica. Não é esse o problema. Eles largaram bem atrás, e conseguiram me entregar o bastão num nível até inacreditável.

**Espetáculos:
Quando: segunda a sexta, com saída às 7 da manhã, e retorno às 6 da tarde.
Onde: de um ao outro extremo da cidade, mas é mais gostoso saindo da ZL! Ê, suvaqueira!.
Quanto: R$2,55 (estudantes pagam meia: R$1,27)
Atrativos: todos nós, em massa, e sozinhos.


Anexo:

Um exemplo banal e talvez apelativo, e que por isso fora retirado do texto:

Quando avisto um deficiente físico: fico na dúvida entre ajudá-lo, e assim me sentir como uma pessoa do bem, ou fazer-me de despercebido e inútil (por constrangimento, até.), esperando que outro ser se compadeça e conceda minha anistia. Depois penso: “por que não ofereci minha ajuda?” “Bom, porque eu não posso prever a reação dele. Quem sabe ele queira provar sua independência, ou não queira ser um fardo a ninguém”: a omissão não é necessariamente cruel. Por preferir os comodismos, é mais simples acreditar nessas possibilidades.

Porque, quando se está mal, dá uma culpa absurda ver alguém que têm as faculdades físicas ou mentais limitadas. Vem aquela impressão: “nossa, do que eu estou reclamando? Sou um idiota”. E isso também faz parte dessa história de que o importante é ter saúde, mas a vida nos condiciona a considerar isso comum, universal.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sobre a Dança. E a Vida.


Como se bailar fosse fácil!

Como se agir fosse tudo. O "vai lá e pronto!". O "Se solte! Deixe que a música te leve, leve".

Quem não dança, quer dançar. Pode até saber quais são os movimentos aceitáveis pra cada ritmo, mas não consegue abstrair a matemática dos membros do corpo: não sente, calcula passos. Acha lindo assistir. Aprecia os exímios dançarinos que parecem ter raptado a desenvoltura de todos os que vêem as próprias pernas teimarem em não amolecer. Inveja cada deslizar, cada giro. Pergunta-se: "será que meu calçado é apropriado?"; "será que não é apenas uma questão de sobriedade inconveniente? (e estar ébrio ajudaria!)".

Inseguranças dos durões. Porque dançar é uma linguagem, e não dominá-la é viver com a impressão de ser um analfabeto corporal. A noite fica incompleta pra quem não dança. Mesmo a vida, parece que fica mais curta. Não é o máximo ver casais de velhinhos dançando nos bailes por aí? Tais cenas não configuram uma reação à inexorabilidade do tempo? Talvez nem seja pra tanto, mas dançarinos autênticos me alegram. E agora não falo apenas dos bons, mas de todos que dançam pra si mesmos. Os que dançam de olhos fechados, alheios à platéia. Olhos fechados mesmo quando abertos. Porque, se abertos, restritos. Enquadram um pequeno campo de visão pra ilimitar o mundo dos sonhos.

Fixar um olhar distraído e contemplar a imaginação, escorregadia e flutuante.

Falo, falo, mas não me dou muito bem com a dança. Pretenso músico desde o fim da infância, os ritmos sempre estiveram por perto, mas foram inalcançáveis aos meus pés. Fiz dançar, mas dancei pouco e mal. Quase nem tentei. Pulo carnaval, vagueio num som dos anos dourados, sem saber direito o que estou fazendo. Aceito os bons momentos sem interrogá-los. Os maus, torturo.

Hoje, vejo minha cabeça dançar. De mãos dadas com meu coração, deixa tudo rodopiando por aqui. Por memórias e projetos. Por sensações opostas e flagelantes. Inéditas.

Vida boa, e vida ruim. A incompreensão dos outros. A incompreensão de si mesmo. Tudo muito líquido e novo, esperando o que não se pode esperar; ou o que se pode cobrar apenas do tempo, vulgo infalível. Como numa dança, a magia pode acabar no fim de uma música, mas a parceria, nem por isso, fora em vão.

(A Vida entrou atrasada nesse texto. Minha intenção era falar apenas da Dança. E não é que as coisas se misturam sem avisar? Quando notei, a Dança era a Vida.)

Matei a eternidade.

Por não saber dançar, pisei no pé de nossa história.







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P.S.: Música, maestro!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Oração

Essa é outra música, também não finalizada, mas nem tão aberta assim. Falta algo, mas talvez fique por isso mesmo. Na falta de tempo e de tino pra escrever, enrolo com canções! (quem não conseguir visualizar, apele ao youtube! :

http://www.youtube.com/watch?v=ofd_iE1ZA0Y



Oração


Se Tua força é maior que a minha
Não vou mais jogar
pra não perder
o que eu quero ser
se Você me deixar crescer

Se insiste em cortar a linha
Só vou me importar
em sobreviver
sem ver Você
prefiro não confessar
não mais brincar

E pra não Te esperar
Caminho só...

Deixo Teu jogo pra depois
Que há pouca vida pra nós dois
Não quero andar sobre o mar...
Porque sei na-dar!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - II

"Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar"
(Tom/Vinicius)




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Ir ao Rio de Janeiro é trair a identidade paulistana. É admitir que praia de paulista é Shopping Center, e que aceitamos o empréstimo das belezas naturais de nossos "rivais", numa trégua oportuna e turística. É zombar do sotaque alheio, só que às escondidas, quando se tenta imitá-lo. É questionar o movimento de banhistas na praia numa tarde de dia útil (útil pra quê?), apenas pra não esquecer de nossa condição de trabalhadores vorazes e locomotivas do país. No íntimo, o que se quer é tirar o terno e a gravata e ganhar a vida sem tanta seriedade, mas o discurso segue sufocado pelo receio de ser ocioso; de ceder ao ritmo maroto do carioca, que, numa gradação da cultura "sombra e água fresca", ainda não chega perto dos rótulos destinados ao baiano, lento legítimo e folclórico. Paulista não confessa, mas queria sair dos trilhos mais vezes. Ir ao Rio é chocar a rotina. Ir ao Rio é o primeiro passo pra ir à Bahia. Da disciplina do escritório ao gozo do esporte à beira-mar. E daí ao ápice: rede e água de côco.

(Sim, tudo isso no "jeito classe média" de viver. Abaixo disso, fica o suporte pra todo o resto: aquele (a) que serve café no escritório; que monta a rede na praia; que abre o côco. Estes sobrevivem noutro plano, entre parênteses. E textos como esse não fazem a mínima diferença às suas vidas. Sendo assim, deixemos a hipocrisia de lado: falemos de nosso mundinho quase burguês como se ele fosse comum a todos, nesse exercício de culpa atenuada porque assumida (ha)... Pra aproveitar os parênteses: a cidade maravilhosa poderia ser maior. Poderia ser maravilhosa por inteiro, e não apenas pra nós, visitantes dispostos a comprar cartões postais. Mas não é.)

O Rio que eu visitei continua sendo lindo. A exuberância de seus momumentos; a energia de uma tarde no maracanã; a magia de um crepúsculo no Arpoador ("O mar: a tela cristalina. O Sol: o guache já no fundinho do pote"*); o charme de uma noite na Lapa; a indescritível sensação de ser passageiro do bondinho de Santa Teresa, naquele misto de transporte e museu ambulante; o clima bucólico do Jardim Botânico; e as praias todas. Se topar imaginar (ou lembrar) tudo isso, adicione uma pitada de calor aos seus pensamentos. E sinta o Rio, como achar que lhe agrade.



Talvez esta tenha sido minha última viagem dessas férias. Fechou um ciclo repleto de bons momentos. De Joanópolis, pequena e pouco conhecida, ao Rio de Janeiro, imenso em suas famosas atrações internacionais, vivi dias que serão guardados com carinho e apreço. Contemplei grupos de amigos distintos, que distribuem suas qualidades no tempero de cada instante que compõe as viagens. Tenho mais histórias pra contar àqueles que sempre me esperam voltar. Compartilho emoções para revivê-las quantas vezes eu conseguir. Quisera eu passar o tempo vivendo, contando e ouvindo histórias. Não importa que sejam repetidas. São estas (as repetidas) que minha avó conta, sorrindo, e acreditando que sejam inéditas. Não deixam de ser. Ouço-as tentando esquecer o final antes que ele chegue e, assim, me tome a chance de errá-lo. É tão bom ficar surpreso com algo que poderia ser previsto!

Pois bem, trago anedotas do Rio. Lembrarei do David sendo impelido a comemorar um gol do Fluminense; dos caldos que a Geórgia levou na praia de Ipanema; do figuraça do Isidoro, companheiro de espera do bondinho; do mal-humor engraçado do maquinista do bondinho pra com os passageiros e transeuntes. E, como cada uma dessas historietas valeriam um texto, apenas as cito, como referência mnemônica. A partir de tais referências, posso remontar nosso fim de semana. A partir de fins de semana, reconstituo épocas. A partir de épocas não esquecidas ...

Posso ativar minha parcela carioca, juntá-la à minha parcela caipira, e me tornar um paulistano do acaso. Sem orgulho nem mágoa de minha morada. Um paulistano sem cidade natal. Sem raízes intocáveis. Urbano por mera coincidência.

Humano por pura persistência.



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"Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem"
(Ciranda da bailarina - CBH)


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*http://rabiscadores.blogspot.com/

P.S.: as férias vão acabando, e os textos vão ficando cada vez mais raros. é bem difícil falar de experiências coletivas. Esses textos não conseguiram abrilhantar as sensações das viagens. Elas foram inalcançaveis à minha pena.

Saudações aos companheiros de estrada!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - I

a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg5Ve0hlhNM6wV2pRek28u9c6J34n7hMMJCXGtyaMMQKCWO38ueiEJqsXp2wwh_SVywNYBlbtFVbh65dLPJGubDYaIKq0OQV6bEHuVcvenuHyxwedXVzljCSPlNeDZxF0YrWr-BnFy76uZT/s1600-h/macanudo.bmp"> ______________________________________________________

href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJTXeuHAQKuHKh5D8DXh-fSf5eXW0fJOvriSagtrnu9RvLP33FcBN6yRCxdFGFGreKY4Bn4CRIyRNaRHL_9HG4hQbUvUt2xT8IKO2KpwgOirOthij-nvtNrTlKwXoEBF9DDs88Dpx7G9Ug/s1600-h/GetAttachment3.jpg"> Em sentido inverso ao do último texto, iniciemos.


Não há especulações nem previsões. A imaginação não mais cria paisagens e momentos, mas os atesta e valoriza. Agora, é o após. Algumas expectativas ainda vivem, mas são outras, pertencentes a seus respectivos destinos e datas. Misturam-se e convivem com memórias recém-computadas. De Joanópolis, só há lembranças. E, por hora, não rasgarei elogios a tudo o que envolveu esses momentos, mas adianto que isso poderá ocorrer subitamente, feito a inevitabilidade de uma queda d'água*, ou de uma recordação autônoma, daquelas que geram sorrisos fáceis e elásticos, sem prévio aviso.




É até desconfortável falar bem das próprias experiências, mas não fiquemos com discursos modestos e anestésicos, que não é o dia nem o caso. Gostoso é aumentá-las, servindo de lupa a quem quiser (vi)vê-las; tornando-as belas aos olhos de quem não as sentiu. Ainda. Pela importância que pode ter o ainda. Pra romper preconceitos. Porque ir atrás de trilhas e cachoeiras sempre remete a passeio de índio, de hippie, de sem-praia. Eu mesmo concordo que as recompensas tradicionais dessas jornadas são discutíveis. Aquela leiga impressão de subir um baita morro, chegar lá em cima, e pensar: "e agora? Olhar e descer, pra não virar notícia de jornal de fim de tarde: 'grupo de amigos está perdido há 45 horas em mata fechada: família clama por notícias, e ameaça invadir'". Ou, mais cruelmente, alcançar uma parte nadável de uma cachoeira, e sentir: "está gelada pra caraca!"



Tudo isso soa incoerente, mas unicamente por ser sensível, e não calculável. Pensar num rio gelado não é atraente: assusta. Mergulhar nele depois de ter cansado e aquecido o corpo num desafio aos sedentários, é revigorante: conforta. (por mais que eu não quissesse cair no clichê do banho revigorante, aceitei. Aceite também, por solidariedade leitora). Retoma-se a humanidade arcaica, onde os sentidos não lutam contra a fumaça, o barulho, e contra a própria humanidade. Não lutam, deleitam-se. E é isso: trilhas não-monitoradas e pós-meditadas mais (+) banhos congelantes e precavidos.


Mas não só. Qualquer um imagina que uma viagem pode ser melhor quando se tem boas companhias. (Não, não há intenção de menosprezar os feitos individuais, mas nesse texto eles são inoportunos, porque distintos.) Alguém junto é o poder comentar. Poder e precisar opinar. Ceder. E a viagem é o além-destino. É todo o restante. Nasce na indicação de um dentista, num falar pra distrair. Cresce com os preparativos e com as expectativas dos amigos da moça que confiara no dentista. Lota caixas e caixas de emails. Desata. Segue sem trilha porque a seleção musical, tão esperada, falha. Recorremos às modas de viola: prazer turista e resignação urbanóide. E reagimos! Trilhas re-tocadas, no voz e violão, madrugador. E eu poderia falar do pedalinho, das comidas, do boiacross, do desfile de fuscas antigos, mas seria apelar. (nesse pré-final, fiquemos com mais uma foto, pra não cansar. Já cansou? Ingrato!)




Eis a foto. Clique sobre ela e garanto que lhe valerá a pena. Pois sim, agora é só. Nem há motivo pra muito alarde. Nem pra que você ache que o lugar é excepcional e insubstituível. Joanópolis é a cidade de João, mas poderíamos estar falando da cidade de José, de David, de ninguém...talvez fosse bacana também. Falo de relembrar o quanto a vida pode ser suficiente.


Imagine que eu tentei uma ode ao ar puro: é plausível. Imagine que eu propus uma fuga efêmera de nossas capitais mal-habitadas: é provável. Imagine que eu fiz um elogio às amizades que constróem paisagens queridas: terás razão. Assim como estarás certo se pensar que meu conceito de viagem se baseia na busca de mim mesmo. O sair pra prucurar algo interno. Revirar o mundo pra encontrar sua porta de entrada. Buscar uma identidade que se reflita em águas claras, correntes e geladas.


("Com cheiro de mato e barulhinho de cachoeira", terminemos.)

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"Luz, olha o horizonte que maravilha
Vem comigo buscar uma outra ilha
Sobe no meu convés e navega a esmo
Nesse navio que sai em busca de si mesmo"

(Fernando Chuí - Uma outra ilha, do álbum Nunca vi mandacaru)

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*Quem esteve na trilha sabe muito bem que eu poderia falar da "inevitabilidade" dos tombos de um de nossos integrantes (David), que escorregava a cada metro de mato.

Créditos: a tirinha de abertura já está devidamente creditada, mas vale uma referência à Sarah, que ontem me apresentou o Liniers (Para quem gostou, mais: www.macanudoliniers.blogspot.com ). Ela também foi quem me enviou essas fotos, a título de adiantamento, pra que eu pudesse cumprir uns prazos. As autorias das fotos são diversas, mas têm seus autores retratados noutras. Uma saudação à galera dessa viagem! (Ju, Sarah, David, João e Gustavo: as pedras mudas!)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Temas de Janeiro


"Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto
."
(C.D.A -" O Lutador")

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Pensei em algo sobre a expectativa. Tratar a expectativa como se ela já fosse a sensação aguardada. Como se atenuasse a angústia. Uma experiência que se quer autônoma, e poderia ser, bastando que a prioridade fosse sonhar despretensiosamente, por sonhar. Se é derivada, ainda faz algum sentido por si só. Esperar é o viver em parcelas. O viver e voltar ao ponto de partida quantas vezes lhe aprouver. E re-imaginar tudo de novo, rearticulando minúcias. É especular os resultados do que está por vir, sem maculá-los com acasos e imprevistos não desejados. Se as lembranças são re-vivências, as expectativas são pré-vivências que também podem ser apreciadas. Extrair tudo o que a vida dissimula, mas não deixa de oferecer. (A vida, que me anda bela!)

(Mas só. O resto é ter um computador lento que permita leituras breves enquanto uma página se abre. Virar páginas, abrir novas, criar outras...)

E esperar.

Porque não há rancor que não ceda ao otimismo de dias bons. E é justo desfrutar do egoísmo de uma existência desconectada, quando nisso há indícios de alegria. Amar a vida acaba sendo desprender-se da totalidade dela. É discursar sob a noção invertida de ver além do superficial, e ser voluntário de uma paz mundial. É inspirar a comodidade da herança e expirar a liberdade admirável. É ser Peter Pan. Colher em casa e distribuir na esquina. Porque as expectativas também podem vir de berço. E ser livre só não é congênito quando de algum modo enfrentamos os dissabores da competição. Mas aí dá-se azo ao rótulo de vendido ao sistema. E então a liberdade vira brincadeira de fim de expediente. E só dura até a manhã do dia seguinte, quando já não se pode vestir bermudas e chinelos. (A vida mecânica, que, ainda assim, me anda bela)

A inveja sadia. Mas que é inveja, inevitavelmente. O que eu queria ter sido e agora assisto de longe. Num misto de aprovação e algum resquício de indignação com o mundo. (pertencimento x inadequação) A expectativa vencida. Que abre espaço a outras, menores. E recobra forças pelas palavras gentis. Busca pureza nos gestos de aquiescência e compreensão. Pessoas amáveis.

Já nem falo mais de expectativas, mas de projeções esperançosas pra esses meses que se aproximam. O fim de um estágio e o começo da liberdade juntada mês a mês. (Liberdade com prazo de validade.) O início de amizades caras e o cultivo de antigas amizades que deveriam ter engrenado mais rapidamente. Viagens e shows programados: certo, expectativas das melhores. Tudo o que faz alguns dias serem senhores de outros. Como se aqueles emprestassem sopros de vida a estes. E aos que hão de vir, no após.

Liberdade é ser criança e não querer brincar. (ou ser "jovem de oitenta e poucos anos!" e querer sentar no colo do neto) Aos adultos, tolos e envenenados, resta a tentativa de resgatar a ingenuidade... pra que possam envelhecer meninos.

(à vida, que começa e termina bela!)




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"Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças
"
(C.D.A. - "Canção amiga")


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P.S.: as fotos são da dani, fotógrafa compulsiva. Na primeira, o vitor, filho da minha prima, bisneto de minha vó. Na segunda, exibindo os narizes sarkissian, minha vó e eu.
P.S.2: as citações, como vc pensou, estão aí de alegres. Não têm relação com o texto, mas fazem parte de meus temas desencontrados de janeiro. Não há articulação e coerência nem mesmo entre os parágrafos, mas aqui tudo bem.
P.S.3: o ser humano pode fazer bem!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Primeira Vez

Tentarei buscar algumas coisas novas... logo abaixo segue um esboço do que pode vir a ser minha primeira composição. Também pode vir a ser a última, se eu notar que não dará certo. Eu tenho várias ressalvas a fazer e bastantes coisas pra alterar, talvez. Critiquem preu me basear para as possíveis próximas, e terminar de vez essa. E relevem a qualidade do som (digo, minha voz corcunda e meu violão trastejado!), pois não consegui um computador pra gravar o aúdio, e acabei gravando o videozinho num celular emprestado, na correria, só pra não esquecer as sugestões melódicas. E, se houver paciência, sigam a letra (abaixo do video), porque ela ainda diz um pouco mais do que a música, pois traz consigo uma idéia cronológica, de progressão, e tem seu sentido quando ouvida como uma "historinha"...e...sei lá, tomara que as alusões sejam claras a vocês. O estilo também ainda permanece confuso, e não se aproxima de uma definição... porque é difícil pra caramba sair de tudo isso que já foi feito, e meus conhecimentos musicais não permitem harmonias muito sofisticadas. Aliás, devo estar cometendo um erro em publicar esse esboço, mas prefiro arriscar aqui, onde a maioria da galera me conhece, e as críticas serão voltadas a um aperfeiçoamento das coisas, e onde todos sabem que os lances são amadores, de "tempo livre", até curiosos. o video tá logo abaixo, mas, pra quem não conseguir visualizar (como eu), também está nesse link:

http://br.youtube.com/watch?v=7yVAQLllKC8

Abandonar





Vai pra casa, menino

Não há mais o que o convença a não voltar

A infância não merece tal luar

E sair foi o seu jeito de falar



Fica em casa, teu ninho

Olha lá como parecem se alegrar

Eles pensam que viver é se cuidar

Fica aí, que é o teu jeito de calar



Vê se casa, rapaz!

Crie asas e desista de voar

Sua casa agora é um canto pra jantar

e se unir foi o seu jeito de parar



Sai de casa, que é pai

E proteja quem ao mundo vai deixar

Vê se esquece essa bagunça que é pensar

e sair é o melhor jeito de acabar

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Daqui a pouco: fogos em copacabana!"


Decidi passar o ano novo em casa, sozinho. Pra ver como é. Uma atitude que fere meus vinte anos anteriores. Serve pra distinguir a grandeza desse ano, de pretensa maioridade de espírito. As coisas se deram de um jeito legal...


(Um momento: o Luigi Barrichelli está aqui na tv narrando o sorteio da mega-sena. Ele é maluco ou é tão feliz assim? Na hora do almoço eu o vi na mesma emissora, falando da expectativa de apresentar o show da virada, descrevendo sua satisfação pelo privilégio de "servir" a um "mar de gente", em sua cidade natal. E ele falava com a mesma empolgação de agora. Que pique. Aliás, ele deve sair direto do Ipiranga - local do sorteio - pra Paulista. Pela alegria que ele quer demonstrar, ou está sendo muito bem pago, ou é muito cafajeste ator, ou é feliz demais mesmo. Deve ter tido um ano sensacional. Meu pai não ganhou o sorteio, pombas!)


Bom, agora posso continuar: minha trilha voltou a ser o jornal nacional. Só pra não perder o ensejo, vale o registro de que algumas vezes escrevo profundamente afetado pelo volume desse TV aqui do lado, vigiado por minha vó (o aparelho). Considerem isso.


Dizia eu que... o ano foi bacana.


(Putz, mas quem consegue se concentrar em meio a essas reportagens tradicionais que mostram a virada de ano nos países orientais? Japão, Austrália: sempre! Qual a diferença dessas queimas de fogos? E já vem aquele papo de maior queima de fogos da história na cidade x. Meu cachorro ainda morre de medo de bombas. Não importa! Sem mais digressões globais!).


Ah, e agora cabe uma auto-crítica: meu texto, tal qual a reportagem, também é óbvio. Pega carona com a data e com o clima. Estou aí. Pois bem, não o consideremos "texto". Como definição lhe delegarei o rótulo de folha virtual de um diário que não existe. Uma espécie de confessionário eventual e oportunista. Contradiz minha "rebeldia" de abdicar da festa familiar pra explicitar minha indiferença às efemérides. Só existe pela ocasião. Hoje vivo, de fato, um dia importante, mas de um modo menos espetacular: continuarei assistindo aos viciantes episódios de "Six Feet Under " ("A sete palmos") e me envolvendo com a família Karamázov. Ao menos enquanto os fogos me permitirem. E hoje isso é relevante pro meu último dia de 2008. Um dia de solidão desejada, em que a interação se resumiu em dar o aval às vestimentas das mulheres aqui de casa, especialmente produzidas para o ano que vem. Agora me veio à mente: será que minha vó e minha mãe não terão seu empenho desprezado por minha ausência à casa de meu tio? (local da festa de logo mais). Pensando bem, se eu notar que isso pode se dar, até vou! E não por um ato de "caridade", mas pelo prazer de vê-las satisfeitas e recompensadas: isso pode valer a noite. Se, de outra forma, eu atestar a indiferença de minha presença à alegria delas, fico! E, aí sim, num gesto de "caridade", acolho o Bolinha (cachorro que tem medo de bombas) aqui na sala, e lhe ofereço os gatos.


Desfragmentando esses doze últimos meses:


(Bom, não dá mais: começaram os links da praia de copacabana. Eu sou muito rabugento pra não me abalar com isso. A repórter ainda soltou um "feliz ano novo a todos!" Ela não deseja um feliz ano novo a todos! Desejamos morte ao Frank Aguiar, no mínimo! Na verdade só citei ele pelo prazer que tenho em pronunciar o slogan "Cachorrinho dos teclados"! é ótimo pra quem quer dar um tom pejorativo ao "artista"! Cachorrinho dos teclados! Certo, que ele não morra. Tem família, não é mesmo? É justo que sobreviva. Que ninguém morra e a repórter esteja com a razão. Os felizes tem de estar com a razão. Supondo que ela seja feliz, claro. Enfim, está em copacabana no reveillon e, na hipótese de isso ser invejável, ela ao menos Está feliz.)


Dizia eu que... bem, já estão soltando bombas (21:17 hs). Eu considerei que fosse algo semelhante a um ensaio, treino. Meu pai foi mais ácido e blasfemou: "o pior é que esses caras não têm onde cair morto, mas têm dinheiro pra comprar rojões!" Ano novo também é isso: oportunidade de disputa pirotécnica. Deleite do caos! Contemplação do barulho que adorna uma noite que poderia ser uma outra qualquer. Se é pra ser honesto, admito que até estou com vontade de rever alguns tios e primos, mas talvez prevaleça a preguiça de cumprimentar dezenas de pessoas, sem a mínima originalidade nos votos, nem a mínima coragem de fugir muito de um "feliz ano novo" seguido de um abraço.


Sobre o ano que se passou:


Nem sei mais o que dizer. As palavras foram se moldando de acordo com as interferências aleatórias da sala de casa. Agiram por conta de minha vulnerabilidade de caráter. E agora cheguei a um número de linhas que beira a um limite. Mais que isso ultrapassaria o desejável pra um início de ano, que imagino ser o tempo em que você lê. Exausto dos temas natalinos e ano-novistas, terás ainda o aborrecimento de ter sido alvo de uma armadilha textual (do meio, entorno: uma armadilha determinista! falei), cujo efeito também sofri. No final, não falei das mazelas de meu ano, tampouco de tantas coisas agradáveis que você mesmo me proporcionou. O mote de uma retrospectiva perdeu sua chance e cedeu espaço a um texto que só pode ser um último. Não há mais paciência pra contar nem pra "ouvir". Que fique pra outra hora.


De algum modo, porém, eu falei sempre de mim. Nesse ano todo, com mais afinco nos últimos meses, estive mais frequentemente por essas bandas. E meus dias não foram tão diferentes uns dos outros. Portanto, o que se passou nessa véspera, deverá fazer parte do ano novo. Tentarei manter alguma disciplina quanto ao número de postagens, num ponto que não desespere a mim nem a você. É possível que logo essa nossa sintonia se extingua, ainda que esse não seja meu desejo. Se este espaço pode servir preu fazer algo como um balanço do ano que morre, saiba que tenho grande prazer em tê-lo como parceiro de meus passeios em prosa. Que pude usufruir de todas as participações (diretas ou indiretas) que, já disse outras vezes, acabam se tornando novos textos. Que, por fim, ganhei um pouco mais de confiança em mim mesmo.


Contente-se com meus verdadeiros agradecimentos por sua generosidade leitora e, para continuar com meus enigmáticos paradoxos, com meus votos de uma vida melhor a todos vocês, nesse desatinado mas gostoso instante de felicidade.


Bum!




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P.S.: Dizia eu que... a aritmética!!!


P.S.2: pra me prevenir quanto ao maluco relógio desse blog, digo que comecei esse texto às 20:37 e o acabo às 21:48. Por sinal, é bem estranho olhar minha galera aqui atrás (pai, mãe e vó), estirados no sofá, prontos pra sair, me olhando com aquele ar de quem vê alguém em frente ao computador, e fala como se "internet" fosse uma coisa só, próxima do google ou do orkut. Desse lado, também olho pra eles como se assistir a uma novela fosse uma coisa só.









sábado, 27 de dezembro de 2008

O Natal de cada um. E o meu.



Uma parte significativa da família se reúne. Não por desejo momentâneo de encontro, mas por força de data. Os parentes ilustres e bem-sucedidos; e os apirantes a fracassados: parecem pedaços de um mesmo todo, sangüíneo. A mesa e as cadeiras são comuns a todos, assim como o ente mais velho, mais ou menos próximo de cada um dos presentes, e responsável pela compilação da estirpe.


Além disso, hierarquia. (im)Pura classificação.


Há os naturalmente carismáticos e agradáveis, a quem os cumprimentos são mais longos e sinceros - quase um priviégio -, e há os que só são recebidos pelo acaso do parentesco, pois, pra além disso, não possuem as qualidades requeridas pela sociabilidade: são geralmente introspectivos, abstêmios; não riem muito nem sabem fazer rir; não têm boas histórias pra contar; e disfarçam o deslocamento com periódicas inspeções em seu próprio celular. São os que solicitam rapidez aos minutos.


Aliás, uns contam suas viagens - passadas ou agendadas -; outros vêem as fotos, ouvem, e aprovam. Aqueles falam de empreendimentos profissionais vultosos; estes (que são minoria, hein!) ponderam suas escolhas. E procuram estágios ou empregos. Reflexos das classes que compõem uma mesma família, há os filhos. Os fidalgos e os desgraçados. Os que fizeram intercâmbio no exterior e os que ainda vão entrar numa escolinha de inglês. Muita inveja e indignação ocultados por sorrisos de "você merece" ("e eu não?").


Em tão aguardada noite, tudo isso conta. Da escolha do cardápio ao volume e qualidade dos presentes, nota-se a gradação humana: do mais festejado e querido ao mais alheio e relevado. Muitos se sentem realmente felizes nesses instantes de confraternização. Sentem prazer em esquecer as animosidades e desejar dias melhores a todos. Têm seu pretexto pra ver as pessoas aparentemente alegres. Outros se contentam em reparar nos vestidos repetidos e em torcer pra que alguém não ligue pra felicitar a família, dando ensejo às críticas relativas ao seu descaso.



Alguns ficam responsáveis pela compra dos mantimentos, pelos enfeites e pela oferta do imóvel; todo o resto desfruta. Às vezes, admito, lava a louça. (Mas que chatice! É natal!) Pois sim, conforto de um depende de esforço do outro. Há de se sacrificar o tempo e o trabalho de uns pra que outros possam celebrar de forma mais cômoda. Celebrar o óbvio. Admirar lâmpadas piscantes e coloridas. Nem as crianças acreditam em papai noel. Nem há esforço pra isso: tudo faz parte de uma lenda que não tem intenção de convencer. Nasce desacreditada, voluntariamente. Só resta o espírito natalino. Dá-se um video game de última geração ao filho e uma bola de plástico à ONG da esquina: solidariedade. O "eu faço minha parte".



Por fim, há os ranzinzas. Podem ser os mesmos introvertidos descritos no início desse desabafo, mas não necessariamente. Eles estão ali por algum motivo que transcenda seu livre arbítrio. Ou são filhos submissos e obedientes; ou cônjuges que cedem à vontade do parceiro; ou agregados, que, por não terem laços familiares suficientemente arraigados a ponto de constituirem sua própria ceia, se envolvem no camarão dos outros. No campo dos cônjuges, inclua os namorados (as) que comemoram à revelia. Estes lutam contra sua inibição e, ao mesmo tempo, tem de conquistar o carinho da família de seu amor. Celebram culpa e deslocamento.


Com seus sobrenomes inconvenientes, ocupam espaços escondidos nos cômodos de casas estranhas.


Esse é o meu ritual de natal. Não foge de todo o aparato do ritual cotidiano. Há vencedores e vencidos. Representação e espontaneidade. Como toda manifestação de alegria, ele atrai casmurros que procuram incoerências e desigualdades travestidas. Dá oportunidade aos observadores desleais que discorrem sobre o contentamento alheio. Esses que falam mal de tudo; que acham o ser humano um bicho bem estranho e inadaptado; que se deleitam em jogar água na champagne dos outros. Eu os conheço: alguns deles até se metem a escrever...


Após a meia-noite.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Literatura: (in) definições



Literatura é disfarce.


É inaugurar um boteco pra atrair ouvintes aos engodos de nossas mágoas. Castigá-los ou premiá-los, conforme seu estado de embriaguez. E o resto é encher linhas e esvaziar copos. Prosear sobre si, buscando afinidades. Fingir inventar, mas compilar: aproveitar-se de tudo o que chega a nós. Pensar em escrever sobre cada coisa que se passa. Forjar nelas a possibilidade textual. É o que faço. Falo de mim, numa espécie de busca de algo inesperado, porque restrito ao instante da escrita. Tem sincero empenho, mas é falso: ainda esconde aquilo que resguarda a credibilidade de quem escreve; o singular; o indizível. O que não quer ser alcançado.


Literatura é carência.


Escrever é sentir falta. É completar-se no moldar do alfabeto. E delegar ao outro o juízo sobre si. É jogar sujo: desculpar-se com as palavras. Mas sujeitar-se aos mais duros céticos. Alimentar o inimigo; enojar. Estimular o "puta, que bosta". E agradar também. Reiterar carinho. É vingar-se do mundo ao mesmo tempo em que lhe pede auxílio. Interpretar por não saber agir. Escritores são complexados. Não resistem às auto-avaliações. São neurastênicos sempre prontos às sensações extremas: ora demasiado contentes consigo; ora assaz decepcionados. A intensidade de tais sensações é pretexto pro texto. Empurra.*


Literatura é hábito.


Mais que tudo: um costume. Segue instintos, mas todos corriqueiros. Inspiraração vem com treino. Quando não vem, há sempre outros recursos. Como agora, basta falar daquilo que se almeja com as letras: teorizar. Reciclar seu modo de escrever pra ganhar tempo. E aí esperar um novo mote. Não decepcionar o hábito. Reforçar-lhe enquanto conceito para que não se desvirtue: hábito tem de ser cotidiano, quase natural. É, também, tornar involuntária a procura de uma imagem que complemente o texto. E depois pensar: "por que sempre tenho de colocar uma fotinha? mais uma atração? uma isca?". Acabo colocando. Se bem que... esse finalzinho talvez devesse estar na definição que vem logo a seguir. (mas valeu: equilibrou o número de linhas)


Literatura é enfeite.


Mais precisamente, é enfeitar. Premeditar metáforas, calcular sua recepção, fugir dos clichês. Maqueá-los pra lembrar que, ainda que hoje sejam clichês, um dia foram inéditos, e tiveram sentido. Remodelar esses sentidos é colocá-los sob o reino da forma. Submetê-los. Escrever sobre escrever é perfumaria. Ah, o rótulo de perfumaria! Cospem: "A vida segue dura, e a arte deve se engajar; precisa denunciar as injustiças!". Não vejo tanta transcendência assim. Literatura é ornamento. Que mal há?** Necessitamos de oxigênios diversos: esse é o meu maior. Conscientizar é coisa pra gente grande. Mudar o mundo é um fardo pesado demais pros escritores. Os amadores, então, vish... são isentos pela inexperiência. Enfeitemos nossas árvores de natal com luzes chamativas, que basta.


Literatura é remorso.

Por isso aí acima. Porque sempre há uma sensação de inutilidade. Aquele "tá, e aí? o que muda? aonde quer chegar?" E aí que nos resignamos em ser inócuos aos grandes problemas do mundo. Ao menos por aqui. Que centremos nossas forças transformadoras em outras ações, concretas. Ou nem isso, porque também há muita falácia. Por enquanto, só remorso incompleto. Desconfortos de fachada. Incomoda, mas não o suficiente pra impedir nada. É o "sofrer" de longe. O "dói mais em mim do que em você": blá, blá, blá.

Literatura é paciência.


Isso mesmo: a sua. De chegar até aqui. Infeliz! Seu prêmio, sei lá... é seu próprio sorriso, de agora: esnobe, indeciso ou satisfeito. De que lhe vale? Ao espelho!




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E é mais um monte de coisas. Que o digam vcs. Estas são apenas as que me vieram aos dedos nesse momento. Agora, publicado, já me vieram outras definições, mas perderam sua oportunidade. Não coloco os créditos da imagem por não tê-los encontrado.

P.S.: Carol, isso se deve ao que vc falou aquele dia Nou Bar, sobre eu escrever sobre o próprio ato de escrever. Na verdade, vc falava de blogs, mas...tem a ver, porque o blog é onde publico, e me exponho. Bom, foi um estímulo seu, de um modo ou de outro.


*Demasiado contente! Pelos recentes textos de Camila e de João (Odisseu), que me estimulam pra caramba!; pelos comentários do último texto, que foram realmente outros textos, anônimos ou não; pelas férias que se anunciam ociosas!; pelo clima de natal (mentira!).


**cacófato notado, mas que seja! Que mal há!?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O enterro do prodígio


Não é bem um fracasso. É a relutante constatação de que não dá mais. Não há mais tempo pra tornar-se notável ainda jovem. O garoto prodígio morre sem ter nascido: fora sonhado e vivera sob a suposta incompreensão do mundo, perdido num espaço onde o irreal potencializa talentos inalcançaveis. É preciso renovar os planos de um futuro. Encontrar novos pretextos para pensá-lo promissor. À medida que a precocidade vai sumindo, há de se transferir a esperança aos feitos adultos. Uma boa experiência profissional poderia substituir o sentimento de realização inviabilizado pela adolescência comum. Mais tarde virão herdeiros para novamente justificar a impregnação da noção de vitória. O que não pude ser, meu filho será. Virá ao mundo como vítima da cobrança de seu próprio pai. Sob a máscara sincera de uma boa educação, será moldado desde criança. Falará inglês pra que não corra o risco de não compreender muita coisa boa que há por aí. Estudará música antes de pensar em fazer barulho com um violão. Tudo emoldurado pela idéia de "prepará-lo melhor para o mundo": pra sua crueldade travestida pelo tom sadio que a palavra "competição" imprime à essa bagunça humana. Uma tolice tremenda, mas que de algum modo nos acompanha: conquistar prestígio. Ser melhor que esse ou aquele... nisso ou naquilo. Pra minha tristeza, careço de impulsos. O oxigênio sofre suas mutações etárias, mas a necessidade de respirar persiste.

Quão natural seria colher da vida apenas seus prazeres, sem pensar em legados! Mas a vocês não parece uma relação parasita demais? Tiramos dos artistas nossos maiores deleites. Muitos não viveriam sem música, sem cinema, sem literatura. A obra dos outros nos mantém. E o que fazemos? Trabalhamos vendendo aparelhos que reproduzam música alheia; em locadoras promovendo filmes "imperdíveis"; em feiras do livro... vendendo livros. Será que o "dom" realmente é restrito a uma pequena parcela dos seres humanos? Você é daqueles que acreditam que alguém nasceu com o talento pra criar coisas belas e outro alguém possui a inclinação congênita para catalogar peças de um acervo político? Há PESSOAS e pessoas? talvez sim. O transcorrer do tempo me tem feito desistir da busca de um fim em mim mesmo. Uma resignação quase que imposta. Quando nos deparamos com o "curriculum" daqueles que admiramos, vemos quanto foi precoce a constatação de seus dotes. Não é mais possível ser um grande jogador de futebol; não se pode mais compor algo como "Sabiá"* aos 21 anos; nem escrever Queda que as mulheres têm para os tolos** também aos 21. É a famosa crise dos 21. Chegar aos 21 e não ter feito nada disso! ah! "Você ainda é novo...".

Eu sou adepto do fracasso. Da consciência dos dias passados, que é mais forte do que a esperança pelos que hão de vir. Uma abordagem cética? Hoje, sim. Hoje eu me rendo à mediocridade sem considerá-la a pior das coisas. Digestão incômoda. Escrevo pra legitimar a desistência em palavras. E, na verdade, isso é meio pedante. Dá a impressão de que fico sempre me auto-decapitando para suscitar nos outros uma reação de resgate de minha auto-estima. Se publico, oras, é porque vejo sim alguma importância. No entanto, faço do texto uma total expressão do que considero ser minha existência mediana. Entende? É um lance contraditório: eu mesmo me culpo. Mas não é depressivo, como a capa pode sugerir. É uma tristeza de caráter: enraizada, até normal.

Declaro minha impotência frente aos desafios todos. Chego num momento em que minhas forças perdem muito de seu altruísmo. Migram pro lado de cá. Se não há nada muito complexo a oferecer ao mundo, que me seja facultado o direito do desfrute "egoísta". Que sejam abolidas as noções de trivialidade, banalidade, superficialidade: tudo é lícito e bem-vindo na festa da vida. Foi-se o mocinho. (pensou em "veio o vilão"? essa era a isca. Pra mais nada serviu o "foi-se o mocinho"...rs) Todas essas comparações o fizeram perecer.

BREQUE. Esse último parágrafo foi uma piadinha de mau gosto. Uma brincadeirinha. Uma vã tentativa de prolongar um assunto que se esgotou. Essa baboseira de "impotência" e tudo o mais são falsos. Embora eu realmente ache que meus tempos de prodígio se foram; a despeito de eu achar também que nunca terei sucesso em minhas empreitadas artísticas, ainda há a chance da rosa nascer no asfalto. Existe a motivação de escrever no blog (e isso é mais estranho do que qualquer outra coisa, pois amanhã sempre odeio o que escrevo hoje, mas depois de amanhã volto a escrever); a busca incessante de uma composição (que há de sair!): aquele quezinho de fôlego que equilibra e torna melhor o ato de viver. Têm razão aqueles que não esperam de mim nada de "especial"; nada além do comum. Que fique claro, no entanto, que isso não abafará meu desejo de surpreendê-los.

Sentem-se.


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*música que Chico compôs com Tom aos 21 anos.
**obra de machado de assis escrita também aos 21 (pra completar a dupla e gerar sua inquietação: "ah, ele quer mostrar que conhece chico buarque e machado de assis...se acha cult")

Sugestão de tema: Sr. Molina, após ver uma matéria que falava sobre um garoto de 20 anos que dirigiu (ou escreveu) um filme super bacana. Isso foi trágico para o gustavo, já que ele já beira os 23 e "nada fez". "Um bom tema pra vc escrever no seu blog".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Sobre a relação contratual entre artista e fã.

Uma apresentação que coube dentro das minhas expectativas. Ele não parecia muito empolgado com o show. No entanto, representou bem.







Nenhum artista deve gostar de todos os shows. Falo dos consagrados mas talentosos (as duas coisas podem formar uma dicotomia, não?). São mais ou menos as mesmas músicas, com as mesmas pessoas tocando, pra uma “mesma” multidão anônima. Há as identificações específicas de cada artista, claro: um lugar ou uma data especiais que constituem a minoria das noites realmente deleitosas. A recompensa. No mais, tudo é basicamente ritual. Cantar músicas compostas há vários anos, mostrar entrega ao público, e, vez ou outra, até interagir. Buscar lampejos cômicos pra “quebrar o gelo”. O “algo a mais”. Uma relação contratual: o fã pagou ingresso para ver o artista que embala seus momentos bons; o artista tem de superar a si mesmo e fazer melhor do que fez na gravação. Há o contato, e a emoção está subentendida. Certo, certo... com certeza é melhor do que trabalhar*, mas tem sua dose de rotina. Vira o teatro da música: representação.

Parece-me penoso, depois de alguns anos de estrada, manter o tesão de viajar por aí pra tocar. É justamente o contrário do que se dá nos períodos de composição, anteriores às temporadas de shows. Isso na hipótese das duas coisas (criação / divulgação) acontecerem em espaços de tempo distintos. Bom, mesmo quando os dois “extremos” são indissociáveis, a criação deve ser como um respiro, uma notícia de sol**. Alivia os possíveis fardos da divulgação. Naquela cidade e momento em que o artista precisa lembrar quem é, compõe.

Aí sim! Imagino um processo mais inerente ao “caráter” do autor. Criar. Algo que acontece porque tem de acontecer. Uma necessidade fisiológica (nem tanto!). Silêncio. Age (trabalha) sozinho, desafiando o ritmo do mundo. Um tempo só seu. Se muito, pede opiniões àquelas pessoas mais próximas. É quando ainda é dono de sua obra. Pode ajustar suas minúcias e brincar de reinventá-la amiúde. Curte sua cria antes que ela ganhe o mundo e saia de sua jurisdição. O diálogo entre o autor e sua obra. Depois, se o resultado agradar, é hora de lançá-la aos fãs, afoitos por novidade, ávidos de cultura.

Ponderemos.

Óbvio que deve ser bastante gratificante ouvir uma multidão cantando sua música. Mas isso logo após sua divulgação, como uma resposta do público: como o reflexo da recepção da arte por parte de seus consumidores. Porra! Chegar no palco e ser ovacionado depois de alguns meses de produção. O reencontro. Bacana, talvez incomensurável.

Passada essa fase do novo, vêm as grandes temporadas de promoção e divulgação do disco, e aí a arte vira trabalho. O artista perde seu estigma de "fazer o que gosta" e necessita cumprir obrigações formalmente contratadas. Há de se ir nas rádios, conceder entrevistas a repórteres cada vez mais leigos, cumprir um set list (tocar aquela que "não pode faltar"), e tirar fotos com os fãs mais abastados que pagaram pela área vip e pelo direito de ir ao camarim. Sua arte invoca uma invasão de todas as outras esferas de sua vida. Sua assinatura muda de nome. Então, o artista vira ornamento de orkut. "Eu conheço o camelo", dizia a legenda da foto abaixo. Ele (camelo) não parece lá tão satisfeito...




Esse texto já me cheira a mais um dos destinados às profissões que parecem muito fáceis, e são, mas também não são. Não sei se estou sendo minimamente claro: jogar bola e cantar é melhor do que trabalhar, mas, quando levados como meio de vida, trazem consigo umas chatices: é trabalho também. Tal como sexo em die e hora marcados, o show programado por um produtor, seis meses antes de seu acontecimento, pode não corresponder a todas as expectativas que o circundam. Há coisas que não combinam com o compromisso, embora sejam estritamente necessárias num mundo prático.



Mas dane-se! Com ou sem o prazer do artista, adoro ir a shows. E o do Marcelo, como certamente notaram, tem algo a ver com isso aqui. Meu pretexto. Foi como a chance única de estar presente em dois momentos de um mesmo artista. Era o Marcelo Camelo, num voz e violão que me agrada, cheio de sutileza e melodia, e era o vocalista dos Hermanos, que tocou "Além do que se vê" e transportou a platéia aos shows da extinta banda, cheio de emoções e alusões. Enfim, o show foi o que eu construi pra mim mesmo. Vi o que esperava ver. Inconscientemente, cumpri o ritual implícito no evento: suas regras informais e seu universo superior. "Que foda ficou essa!", "Pô, se ele tocar 'De onde vem a calma' eu me atiro no palco!"


(A grande distinção da emoção de um show e de um jogo de futebol, é a infabilidade daquele em detrimento da incerteza deste. Num show, "sabe-se" o que vai ser tocado: vamos prontos e dispostos a gritar e bater palmas [quem grita mais alto as letras - todas -, é o fã número 1]. Num jogo, a predisposição existe. A emoção, porém, depende do desempenho de nosso time: podemos nos arrepender e jurar - em vão - nunca mais voltar, e podemos ficar contentes pela escolha de correr o risco. Intensidade. )

Texto prolixo. Que eu termine:

Paguei mais do que eu devia. Esperei com certa angústia. Desfrutei da companhia de duas pessoas bacaníssimas (dani e daniel). Nem cogitei a possibilidade de o Camelo não estar ali com toda a sua vontade. Curti pra caralho! Mas, passados esses quinze dias... acho que ele, naquela noite, preferia estar comendo uma pizza.

Ou uma menininha de, sei lá, uns 16 aninhos... ***
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P.S: Ruivo, tá aí!
P.S.2: Bom, fui simplista, e talvez não tenha ponderado como deveria, pela tal da complexidade. Algum artista diria que eu não tenho cabedal pra julgar suas emoções. Que me seja permitido especular, ao menos.
Foto 1: pra te assustar!
Foto 2: a Sra. Ética pediu que eu razurasse a lata do rapaz. Mas a legenda realemnte dizia: "eu conheço o Camelo". Bom, sei de alguém que diria: "E eu tenho axilas!".
* Sem tanto rigor, vai. é notória a ironia. foi mais pra remeter àqueles comentários que não vêem um "trabalho" nas funções do artista. ou do professor.
** "Notícias de sol" é o nome de uma música do Brandão, amigo do meu irmão! e achei o termo fantástico.
***Acho horrível ter de aguentar críticas quanto a esse namoro de camelo e malu magalhães. Quem não gosta do cara, que não use isso pra justificar a aversão. Que ele pegue quem quiser. Curto seu som, não sua vida sexual. (se é que, nesse caso, há.)