sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sobre a Dança. E a Vida.


Como se bailar fosse fácil!

Como se agir fosse tudo. O "vai lá e pronto!". O "Se solte! Deixe que a música te leve, leve".

Quem não dança, quer dançar. Pode até saber quais são os movimentos aceitáveis pra cada ritmo, mas não consegue abstrair a matemática dos membros do corpo: não sente, calcula passos. Acha lindo assistir. Aprecia os exímios dançarinos que parecem ter raptado a desenvoltura de todos os que vêem as próprias pernas teimarem em não amolecer. Inveja cada deslizar, cada giro. Pergunta-se: "será que meu calçado é apropriado?"; "será que não é apenas uma questão de sobriedade inconveniente? (e estar ébrio ajudaria!)".

Inseguranças dos durões. Porque dançar é uma linguagem, e não dominá-la é viver com a impressão de ser um analfabeto corporal. A noite fica incompleta pra quem não dança. Mesmo a vida, parece que fica mais curta. Não é o máximo ver casais de velhinhos dançando nos bailes por aí? Tais cenas não configuram uma reação à inexorabilidade do tempo? Talvez nem seja pra tanto, mas dançarinos autênticos me alegram. E agora não falo apenas dos bons, mas de todos que dançam pra si mesmos. Os que dançam de olhos fechados, alheios à platéia. Olhos fechados mesmo quando abertos. Porque, se abertos, restritos. Enquadram um pequeno campo de visão pra ilimitar o mundo dos sonhos.

Fixar um olhar distraído e contemplar a imaginação, escorregadia e flutuante.

Falo, falo, mas não me dou muito bem com a dança. Pretenso músico desde o fim da infância, os ritmos sempre estiveram por perto, mas foram inalcançáveis aos meus pés. Fiz dançar, mas dancei pouco e mal. Quase nem tentei. Pulo carnaval, vagueio num som dos anos dourados, sem saber direito o que estou fazendo. Aceito os bons momentos sem interrogá-los. Os maus, torturo.

Hoje, vejo minha cabeça dançar. De mãos dadas com meu coração, deixa tudo rodopiando por aqui. Por memórias e projetos. Por sensações opostas e flagelantes. Inéditas.

Vida boa, e vida ruim. A incompreensão dos outros. A incompreensão de si mesmo. Tudo muito líquido e novo, esperando o que não se pode esperar; ou o que se pode cobrar apenas do tempo, vulgo infalível. Como numa dança, a magia pode acabar no fim de uma música, mas a parceria, nem por isso, fora em vão.

(A Vida entrou atrasada nesse texto. Minha intenção era falar apenas da Dança. E não é que as coisas se misturam sem avisar? Quando notei, a Dança era a Vida.)

Matei a eternidade.

Por não saber dançar, pisei no pé de nossa história.







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P.S.: Música, maestro!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Oração

Essa é outra música, também não finalizada, mas nem tão aberta assim. Falta algo, mas talvez fique por isso mesmo. Na falta de tempo e de tino pra escrever, enrolo com canções! (quem não conseguir visualizar, apele ao youtube! :

http://www.youtube.com/watch?v=ofd_iE1ZA0Y



Oração


Se Tua força é maior que a minha
Não vou mais jogar
pra não perder
o que eu quero ser
se Você me deixar crescer

Se insiste em cortar a linha
Só vou me importar
em sobreviver
sem ver Você
prefiro não confessar
não mais brincar

E pra não Te esperar
Caminho só...

Deixo Teu jogo pra depois
Que há pouca vida pra nós dois
Não quero andar sobre o mar...
Porque sei na-dar!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - II

"Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar"
(Tom/Vinicius)




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Ir ao Rio de Janeiro é trair a identidade paulistana. É admitir que praia de paulista é Shopping Center, e que aceitamos o empréstimo das belezas naturais de nossos "rivais", numa trégua oportuna e turística. É zombar do sotaque alheio, só que às escondidas, quando se tenta imitá-lo. É questionar o movimento de banhistas na praia numa tarde de dia útil (útil pra quê?), apenas pra não esquecer de nossa condição de trabalhadores vorazes e locomotivas do país. No íntimo, o que se quer é tirar o terno e a gravata e ganhar a vida sem tanta seriedade, mas o discurso segue sufocado pelo receio de ser ocioso; de ceder ao ritmo maroto do carioca, que, numa gradação da cultura "sombra e água fresca", ainda não chega perto dos rótulos destinados ao baiano, lento legítimo e folclórico. Paulista não confessa, mas queria sair dos trilhos mais vezes. Ir ao Rio é chocar a rotina. Ir ao Rio é o primeiro passo pra ir à Bahia. Da disciplina do escritório ao gozo do esporte à beira-mar. E daí ao ápice: rede e água de côco.

(Sim, tudo isso no "jeito classe média" de viver. Abaixo disso, fica o suporte pra todo o resto: aquele (a) que serve café no escritório; que monta a rede na praia; que abre o côco. Estes sobrevivem noutro plano, entre parênteses. E textos como esse não fazem a mínima diferença às suas vidas. Sendo assim, deixemos a hipocrisia de lado: falemos de nosso mundinho quase burguês como se ele fosse comum a todos, nesse exercício de culpa atenuada porque assumida (ha)... Pra aproveitar os parênteses: a cidade maravilhosa poderia ser maior. Poderia ser maravilhosa por inteiro, e não apenas pra nós, visitantes dispostos a comprar cartões postais. Mas não é.)

O Rio que eu visitei continua sendo lindo. A exuberância de seus momumentos; a energia de uma tarde no maracanã; a magia de um crepúsculo no Arpoador ("O mar: a tela cristalina. O Sol: o guache já no fundinho do pote"*); o charme de uma noite na Lapa; a indescritível sensação de ser passageiro do bondinho de Santa Teresa, naquele misto de transporte e museu ambulante; o clima bucólico do Jardim Botânico; e as praias todas. Se topar imaginar (ou lembrar) tudo isso, adicione uma pitada de calor aos seus pensamentos. E sinta o Rio, como achar que lhe agrade.



Talvez esta tenha sido minha última viagem dessas férias. Fechou um ciclo repleto de bons momentos. De Joanópolis, pequena e pouco conhecida, ao Rio de Janeiro, imenso em suas famosas atrações internacionais, vivi dias que serão guardados com carinho e apreço. Contemplei grupos de amigos distintos, que distribuem suas qualidades no tempero de cada instante que compõe as viagens. Tenho mais histórias pra contar àqueles que sempre me esperam voltar. Compartilho emoções para revivê-las quantas vezes eu conseguir. Quisera eu passar o tempo vivendo, contando e ouvindo histórias. Não importa que sejam repetidas. São estas (as repetidas) que minha avó conta, sorrindo, e acreditando que sejam inéditas. Não deixam de ser. Ouço-as tentando esquecer o final antes que ele chegue e, assim, me tome a chance de errá-lo. É tão bom ficar surpreso com algo que poderia ser previsto!

Pois bem, trago anedotas do Rio. Lembrarei do David sendo impelido a comemorar um gol do Fluminense; dos caldos que a Geórgia levou na praia de Ipanema; do figuraça do Isidoro, companheiro de espera do bondinho; do mal-humor engraçado do maquinista do bondinho pra com os passageiros e transeuntes. E, como cada uma dessas historietas valeriam um texto, apenas as cito, como referência mnemônica. A partir de tais referências, posso remontar nosso fim de semana. A partir de fins de semana, reconstituo épocas. A partir de épocas não esquecidas ...

Posso ativar minha parcela carioca, juntá-la à minha parcela caipira, e me tornar um paulistano do acaso. Sem orgulho nem mágoa de minha morada. Um paulistano sem cidade natal. Sem raízes intocáveis. Urbano por mera coincidência.

Humano por pura persistência.



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"Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem"
(Ciranda da bailarina - CBH)


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*http://rabiscadores.blogspot.com/

P.S.: as férias vão acabando, e os textos vão ficando cada vez mais raros. é bem difícil falar de experiências coletivas. Esses textos não conseguiram abrilhantar as sensações das viagens. Elas foram inalcançaveis à minha pena.

Saudações aos companheiros de estrada!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Eu escrevo e te conto o que eu vi" - I

a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg5Ve0hlhNM6wV2pRek28u9c6J34n7hMMJCXGtyaMMQKCWO38ueiEJqsXp2wwh_SVywNYBlbtFVbh65dLPJGubDYaIKq0OQV6bEHuVcvenuHyxwedXVzljCSPlNeDZxF0YrWr-BnFy76uZT/s1600-h/macanudo.bmp"> ______________________________________________________

href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJTXeuHAQKuHKh5D8DXh-fSf5eXW0fJOvriSagtrnu9RvLP33FcBN6yRCxdFGFGreKY4Bn4CRIyRNaRHL_9HG4hQbUvUt2xT8IKO2KpwgOirOthij-nvtNrTlKwXoEBF9DDs88Dpx7G9Ug/s1600-h/GetAttachment3.jpg"> Em sentido inverso ao do último texto, iniciemos.


Não há especulações nem previsões. A imaginação não mais cria paisagens e momentos, mas os atesta e valoriza. Agora, é o após. Algumas expectativas ainda vivem, mas são outras, pertencentes a seus respectivos destinos e datas. Misturam-se e convivem com memórias recém-computadas. De Joanópolis, só há lembranças. E, por hora, não rasgarei elogios a tudo o que envolveu esses momentos, mas adianto que isso poderá ocorrer subitamente, feito a inevitabilidade de uma queda d'água*, ou de uma recordação autônoma, daquelas que geram sorrisos fáceis e elásticos, sem prévio aviso.




É até desconfortável falar bem das próprias experiências, mas não fiquemos com discursos modestos e anestésicos, que não é o dia nem o caso. Gostoso é aumentá-las, servindo de lupa a quem quiser (vi)vê-las; tornando-as belas aos olhos de quem não as sentiu. Ainda. Pela importância que pode ter o ainda. Pra romper preconceitos. Porque ir atrás de trilhas e cachoeiras sempre remete a passeio de índio, de hippie, de sem-praia. Eu mesmo concordo que as recompensas tradicionais dessas jornadas são discutíveis. Aquela leiga impressão de subir um baita morro, chegar lá em cima, e pensar: "e agora? Olhar e descer, pra não virar notícia de jornal de fim de tarde: 'grupo de amigos está perdido há 45 horas em mata fechada: família clama por notícias, e ameaça invadir'". Ou, mais cruelmente, alcançar uma parte nadável de uma cachoeira, e sentir: "está gelada pra caraca!"



Tudo isso soa incoerente, mas unicamente por ser sensível, e não calculável. Pensar num rio gelado não é atraente: assusta. Mergulhar nele depois de ter cansado e aquecido o corpo num desafio aos sedentários, é revigorante: conforta. (por mais que eu não quissesse cair no clichê do banho revigorante, aceitei. Aceite também, por solidariedade leitora). Retoma-se a humanidade arcaica, onde os sentidos não lutam contra a fumaça, o barulho, e contra a própria humanidade. Não lutam, deleitam-se. E é isso: trilhas não-monitoradas e pós-meditadas mais (+) banhos congelantes e precavidos.


Mas não só. Qualquer um imagina que uma viagem pode ser melhor quando se tem boas companhias. (Não, não há intenção de menosprezar os feitos individuais, mas nesse texto eles são inoportunos, porque distintos.) Alguém junto é o poder comentar. Poder e precisar opinar. Ceder. E a viagem é o além-destino. É todo o restante. Nasce na indicação de um dentista, num falar pra distrair. Cresce com os preparativos e com as expectativas dos amigos da moça que confiara no dentista. Lota caixas e caixas de emails. Desata. Segue sem trilha porque a seleção musical, tão esperada, falha. Recorremos às modas de viola: prazer turista e resignação urbanóide. E reagimos! Trilhas re-tocadas, no voz e violão, madrugador. E eu poderia falar do pedalinho, das comidas, do boiacross, do desfile de fuscas antigos, mas seria apelar. (nesse pré-final, fiquemos com mais uma foto, pra não cansar. Já cansou? Ingrato!)




Eis a foto. Clique sobre ela e garanto que lhe valerá a pena. Pois sim, agora é só. Nem há motivo pra muito alarde. Nem pra que você ache que o lugar é excepcional e insubstituível. Joanópolis é a cidade de João, mas poderíamos estar falando da cidade de José, de David, de ninguém...talvez fosse bacana também. Falo de relembrar o quanto a vida pode ser suficiente.


Imagine que eu tentei uma ode ao ar puro: é plausível. Imagine que eu propus uma fuga efêmera de nossas capitais mal-habitadas: é provável. Imagine que eu fiz um elogio às amizades que constróem paisagens queridas: terás razão. Assim como estarás certo se pensar que meu conceito de viagem se baseia na busca de mim mesmo. O sair pra prucurar algo interno. Revirar o mundo pra encontrar sua porta de entrada. Buscar uma identidade que se reflita em águas claras, correntes e geladas.


("Com cheiro de mato e barulhinho de cachoeira", terminemos.)

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"Luz, olha o horizonte que maravilha
Vem comigo buscar uma outra ilha
Sobe no meu convés e navega a esmo
Nesse navio que sai em busca de si mesmo"

(Fernando Chuí - Uma outra ilha, do álbum Nunca vi mandacaru)

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*Quem esteve na trilha sabe muito bem que eu poderia falar da "inevitabilidade" dos tombos de um de nossos integrantes (David), que escorregava a cada metro de mato.

Créditos: a tirinha de abertura já está devidamente creditada, mas vale uma referência à Sarah, que ontem me apresentou o Liniers (Para quem gostou, mais: www.macanudoliniers.blogspot.com ). Ela também foi quem me enviou essas fotos, a título de adiantamento, pra que eu pudesse cumprir uns prazos. As autorias das fotos são diversas, mas têm seus autores retratados noutras. Uma saudação à galera dessa viagem! (Ju, Sarah, David, João e Gustavo: as pedras mudas!)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Temas de Janeiro


"Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto
."
(C.D.A -" O Lutador")

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Pensei em algo sobre a expectativa. Tratar a expectativa como se ela já fosse a sensação aguardada. Como se atenuasse a angústia. Uma experiência que se quer autônoma, e poderia ser, bastando que a prioridade fosse sonhar despretensiosamente, por sonhar. Se é derivada, ainda faz algum sentido por si só. Esperar é o viver em parcelas. O viver e voltar ao ponto de partida quantas vezes lhe aprouver. E re-imaginar tudo de novo, rearticulando minúcias. É especular os resultados do que está por vir, sem maculá-los com acasos e imprevistos não desejados. Se as lembranças são re-vivências, as expectativas são pré-vivências que também podem ser apreciadas. Extrair tudo o que a vida dissimula, mas não deixa de oferecer. (A vida, que me anda bela!)

(Mas só. O resto é ter um computador lento que permita leituras breves enquanto uma página se abre. Virar páginas, abrir novas, criar outras...)

E esperar.

Porque não há rancor que não ceda ao otimismo de dias bons. E é justo desfrutar do egoísmo de uma existência desconectada, quando nisso há indícios de alegria. Amar a vida acaba sendo desprender-se da totalidade dela. É discursar sob a noção invertida de ver além do superficial, e ser voluntário de uma paz mundial. É inspirar a comodidade da herança e expirar a liberdade admirável. É ser Peter Pan. Colher em casa e distribuir na esquina. Porque as expectativas também podem vir de berço. E ser livre só não é congênito quando de algum modo enfrentamos os dissabores da competição. Mas aí dá-se azo ao rótulo de vendido ao sistema. E então a liberdade vira brincadeira de fim de expediente. E só dura até a manhã do dia seguinte, quando já não se pode vestir bermudas e chinelos. (A vida mecânica, que, ainda assim, me anda bela)

A inveja sadia. Mas que é inveja, inevitavelmente. O que eu queria ter sido e agora assisto de longe. Num misto de aprovação e algum resquício de indignação com o mundo. (pertencimento x inadequação) A expectativa vencida. Que abre espaço a outras, menores. E recobra forças pelas palavras gentis. Busca pureza nos gestos de aquiescência e compreensão. Pessoas amáveis.

Já nem falo mais de expectativas, mas de projeções esperançosas pra esses meses que se aproximam. O fim de um estágio e o começo da liberdade juntada mês a mês. (Liberdade com prazo de validade.) O início de amizades caras e o cultivo de antigas amizades que deveriam ter engrenado mais rapidamente. Viagens e shows programados: certo, expectativas das melhores. Tudo o que faz alguns dias serem senhores de outros. Como se aqueles emprestassem sopros de vida a estes. E aos que hão de vir, no após.

Liberdade é ser criança e não querer brincar. (ou ser "jovem de oitenta e poucos anos!" e querer sentar no colo do neto) Aos adultos, tolos e envenenados, resta a tentativa de resgatar a ingenuidade... pra que possam envelhecer meninos.

(à vida, que começa e termina bela!)




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"Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças
"
(C.D.A. - "Canção amiga")


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P.S.: as fotos são da dani, fotógrafa compulsiva. Na primeira, o vitor, filho da minha prima, bisneto de minha vó. Na segunda, exibindo os narizes sarkissian, minha vó e eu.
P.S.2: as citações, como vc pensou, estão aí de alegres. Não têm relação com o texto, mas fazem parte de meus temas desencontrados de janeiro. Não há articulação e coerência nem mesmo entre os parágrafos, mas aqui tudo bem.
P.S.3: o ser humano pode fazer bem!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Primeira Vez

Tentarei buscar algumas coisas novas... logo abaixo segue um esboço do que pode vir a ser minha primeira composição. Também pode vir a ser a última, se eu notar que não dará certo. Eu tenho várias ressalvas a fazer e bastantes coisas pra alterar, talvez. Critiquem preu me basear para as possíveis próximas, e terminar de vez essa. E relevem a qualidade do som (digo, minha voz corcunda e meu violão trastejado!), pois não consegui um computador pra gravar o aúdio, e acabei gravando o videozinho num celular emprestado, na correria, só pra não esquecer as sugestões melódicas. E, se houver paciência, sigam a letra (abaixo do video), porque ela ainda diz um pouco mais do que a música, pois traz consigo uma idéia cronológica, de progressão, e tem seu sentido quando ouvida como uma "historinha"...e...sei lá, tomara que as alusões sejam claras a vocês. O estilo também ainda permanece confuso, e não se aproxima de uma definição... porque é difícil pra caramba sair de tudo isso que já foi feito, e meus conhecimentos musicais não permitem harmonias muito sofisticadas. Aliás, devo estar cometendo um erro em publicar esse esboço, mas prefiro arriscar aqui, onde a maioria da galera me conhece, e as críticas serão voltadas a um aperfeiçoamento das coisas, e onde todos sabem que os lances são amadores, de "tempo livre", até curiosos. o video tá logo abaixo, mas, pra quem não conseguir visualizar (como eu), também está nesse link:

http://br.youtube.com/watch?v=7yVAQLllKC8

Abandonar





Vai pra casa, menino

Não há mais o que o convença a não voltar

A infância não merece tal luar

E sair foi o seu jeito de falar



Fica em casa, teu ninho

Olha lá como parecem se alegrar

Eles pensam que viver é se cuidar

Fica aí, que é o teu jeito de calar



Vê se casa, rapaz!

Crie asas e desista de voar

Sua casa agora é um canto pra jantar

e se unir foi o seu jeito de parar



Sai de casa, que é pai

E proteja quem ao mundo vai deixar

Vê se esquece essa bagunça que é pensar

e sair é o melhor jeito de acabar

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Daqui a pouco: fogos em copacabana!"


Decidi passar o ano novo em casa, sozinho. Pra ver como é. Uma atitude que fere meus vinte anos anteriores. Serve pra distinguir a grandeza desse ano, de pretensa maioridade de espírito. As coisas se deram de um jeito legal...


(Um momento: o Luigi Barrichelli está aqui na tv narrando o sorteio da mega-sena. Ele é maluco ou é tão feliz assim? Na hora do almoço eu o vi na mesma emissora, falando da expectativa de apresentar o show da virada, descrevendo sua satisfação pelo privilégio de "servir" a um "mar de gente", em sua cidade natal. E ele falava com a mesma empolgação de agora. Que pique. Aliás, ele deve sair direto do Ipiranga - local do sorteio - pra Paulista. Pela alegria que ele quer demonstrar, ou está sendo muito bem pago, ou é muito cafajeste ator, ou é feliz demais mesmo. Deve ter tido um ano sensacional. Meu pai não ganhou o sorteio, pombas!)


Bom, agora posso continuar: minha trilha voltou a ser o jornal nacional. Só pra não perder o ensejo, vale o registro de que algumas vezes escrevo profundamente afetado pelo volume desse TV aqui do lado, vigiado por minha vó (o aparelho). Considerem isso.


Dizia eu que... o ano foi bacana.


(Putz, mas quem consegue se concentrar em meio a essas reportagens tradicionais que mostram a virada de ano nos países orientais? Japão, Austrália: sempre! Qual a diferença dessas queimas de fogos? E já vem aquele papo de maior queima de fogos da história na cidade x. Meu cachorro ainda morre de medo de bombas. Não importa! Sem mais digressões globais!).


Ah, e agora cabe uma auto-crítica: meu texto, tal qual a reportagem, também é óbvio. Pega carona com a data e com o clima. Estou aí. Pois bem, não o consideremos "texto". Como definição lhe delegarei o rótulo de folha virtual de um diário que não existe. Uma espécie de confessionário eventual e oportunista. Contradiz minha "rebeldia" de abdicar da festa familiar pra explicitar minha indiferença às efemérides. Só existe pela ocasião. Hoje vivo, de fato, um dia importante, mas de um modo menos espetacular: continuarei assistindo aos viciantes episódios de "Six Feet Under " ("A sete palmos") e me envolvendo com a família Karamázov. Ao menos enquanto os fogos me permitirem. E hoje isso é relevante pro meu último dia de 2008. Um dia de solidão desejada, em que a interação se resumiu em dar o aval às vestimentas das mulheres aqui de casa, especialmente produzidas para o ano que vem. Agora me veio à mente: será que minha vó e minha mãe não terão seu empenho desprezado por minha ausência à casa de meu tio? (local da festa de logo mais). Pensando bem, se eu notar que isso pode se dar, até vou! E não por um ato de "caridade", mas pelo prazer de vê-las satisfeitas e recompensadas: isso pode valer a noite. Se, de outra forma, eu atestar a indiferença de minha presença à alegria delas, fico! E, aí sim, num gesto de "caridade", acolho o Bolinha (cachorro que tem medo de bombas) aqui na sala, e lhe ofereço os gatos.


Desfragmentando esses doze últimos meses:


(Bom, não dá mais: começaram os links da praia de copacabana. Eu sou muito rabugento pra não me abalar com isso. A repórter ainda soltou um "feliz ano novo a todos!" Ela não deseja um feliz ano novo a todos! Desejamos morte ao Frank Aguiar, no mínimo! Na verdade só citei ele pelo prazer que tenho em pronunciar o slogan "Cachorrinho dos teclados"! é ótimo pra quem quer dar um tom pejorativo ao "artista"! Cachorrinho dos teclados! Certo, que ele não morra. Tem família, não é mesmo? É justo que sobreviva. Que ninguém morra e a repórter esteja com a razão. Os felizes tem de estar com a razão. Supondo que ela seja feliz, claro. Enfim, está em copacabana no reveillon e, na hipótese de isso ser invejável, ela ao menos Está feliz.)


Dizia eu que... bem, já estão soltando bombas (21:17 hs). Eu considerei que fosse algo semelhante a um ensaio, treino. Meu pai foi mais ácido e blasfemou: "o pior é que esses caras não têm onde cair morto, mas têm dinheiro pra comprar rojões!" Ano novo também é isso: oportunidade de disputa pirotécnica. Deleite do caos! Contemplação do barulho que adorna uma noite que poderia ser uma outra qualquer. Se é pra ser honesto, admito que até estou com vontade de rever alguns tios e primos, mas talvez prevaleça a preguiça de cumprimentar dezenas de pessoas, sem a mínima originalidade nos votos, nem a mínima coragem de fugir muito de um "feliz ano novo" seguido de um abraço.


Sobre o ano que se passou:


Nem sei mais o que dizer. As palavras foram se moldando de acordo com as interferências aleatórias da sala de casa. Agiram por conta de minha vulnerabilidade de caráter. E agora cheguei a um número de linhas que beira a um limite. Mais que isso ultrapassaria o desejável pra um início de ano, que imagino ser o tempo em que você lê. Exausto dos temas natalinos e ano-novistas, terás ainda o aborrecimento de ter sido alvo de uma armadilha textual (do meio, entorno: uma armadilha determinista! falei), cujo efeito também sofri. No final, não falei das mazelas de meu ano, tampouco de tantas coisas agradáveis que você mesmo me proporcionou. O mote de uma retrospectiva perdeu sua chance e cedeu espaço a um texto que só pode ser um último. Não há mais paciência pra contar nem pra "ouvir". Que fique pra outra hora.


De algum modo, porém, eu falei sempre de mim. Nesse ano todo, com mais afinco nos últimos meses, estive mais frequentemente por essas bandas. E meus dias não foram tão diferentes uns dos outros. Portanto, o que se passou nessa véspera, deverá fazer parte do ano novo. Tentarei manter alguma disciplina quanto ao número de postagens, num ponto que não desespere a mim nem a você. É possível que logo essa nossa sintonia se extingua, ainda que esse não seja meu desejo. Se este espaço pode servir preu fazer algo como um balanço do ano que morre, saiba que tenho grande prazer em tê-lo como parceiro de meus passeios em prosa. Que pude usufruir de todas as participações (diretas ou indiretas) que, já disse outras vezes, acabam se tornando novos textos. Que, por fim, ganhei um pouco mais de confiança em mim mesmo.


Contente-se com meus verdadeiros agradecimentos por sua generosidade leitora e, para continuar com meus enigmáticos paradoxos, com meus votos de uma vida melhor a todos vocês, nesse desatinado mas gostoso instante de felicidade.


Bum!




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P.S.: Dizia eu que... a aritmética!!!


P.S.2: pra me prevenir quanto ao maluco relógio desse blog, digo que comecei esse texto às 20:37 e o acabo às 21:48. Por sinal, é bem estranho olhar minha galera aqui atrás (pai, mãe e vó), estirados no sofá, prontos pra sair, me olhando com aquele ar de quem vê alguém em frente ao computador, e fala como se "internet" fosse uma coisa só, próxima do google ou do orkut. Desse lado, também olho pra eles como se assistir a uma novela fosse uma coisa só.









sábado, 27 de dezembro de 2008

O Natal de cada um. E o meu.



Uma parte significativa da família se reúne. Não por desejo momentâneo de encontro, mas por força de data. Os parentes ilustres e bem-sucedidos; e os apirantes a fracassados: parecem pedaços de um mesmo todo, sangüíneo. A mesa e as cadeiras são comuns a todos, assim como o ente mais velho, mais ou menos próximo de cada um dos presentes, e responsável pela compilação da estirpe.


Além disso, hierarquia. (im)Pura classificação.


Há os naturalmente carismáticos e agradáveis, a quem os cumprimentos são mais longos e sinceros - quase um priviégio -, e há os que só são recebidos pelo acaso do parentesco, pois, pra além disso, não possuem as qualidades requeridas pela sociabilidade: são geralmente introspectivos, abstêmios; não riem muito nem sabem fazer rir; não têm boas histórias pra contar; e disfarçam o deslocamento com periódicas inspeções em seu próprio celular. São os que solicitam rapidez aos minutos.


Aliás, uns contam suas viagens - passadas ou agendadas -; outros vêem as fotos, ouvem, e aprovam. Aqueles falam de empreendimentos profissionais vultosos; estes (que são minoria, hein!) ponderam suas escolhas. E procuram estágios ou empregos. Reflexos das classes que compõem uma mesma família, há os filhos. Os fidalgos e os desgraçados. Os que fizeram intercâmbio no exterior e os que ainda vão entrar numa escolinha de inglês. Muita inveja e indignação ocultados por sorrisos de "você merece" ("e eu não?").


Em tão aguardada noite, tudo isso conta. Da escolha do cardápio ao volume e qualidade dos presentes, nota-se a gradação humana: do mais festejado e querido ao mais alheio e relevado. Muitos se sentem realmente felizes nesses instantes de confraternização. Sentem prazer em esquecer as animosidades e desejar dias melhores a todos. Têm seu pretexto pra ver as pessoas aparentemente alegres. Outros se contentam em reparar nos vestidos repetidos e em torcer pra que alguém não ligue pra felicitar a família, dando ensejo às críticas relativas ao seu descaso.



Alguns ficam responsáveis pela compra dos mantimentos, pelos enfeites e pela oferta do imóvel; todo o resto desfruta. Às vezes, admito, lava a louça. (Mas que chatice! É natal!) Pois sim, conforto de um depende de esforço do outro. Há de se sacrificar o tempo e o trabalho de uns pra que outros possam celebrar de forma mais cômoda. Celebrar o óbvio. Admirar lâmpadas piscantes e coloridas. Nem as crianças acreditam em papai noel. Nem há esforço pra isso: tudo faz parte de uma lenda que não tem intenção de convencer. Nasce desacreditada, voluntariamente. Só resta o espírito natalino. Dá-se um video game de última geração ao filho e uma bola de plástico à ONG da esquina: solidariedade. O "eu faço minha parte".



Por fim, há os ranzinzas. Podem ser os mesmos introvertidos descritos no início desse desabafo, mas não necessariamente. Eles estão ali por algum motivo que transcenda seu livre arbítrio. Ou são filhos submissos e obedientes; ou cônjuges que cedem à vontade do parceiro; ou agregados, que, por não terem laços familiares suficientemente arraigados a ponto de constituirem sua própria ceia, se envolvem no camarão dos outros. No campo dos cônjuges, inclua os namorados (as) que comemoram à revelia. Estes lutam contra sua inibição e, ao mesmo tempo, tem de conquistar o carinho da família de seu amor. Celebram culpa e deslocamento.


Com seus sobrenomes inconvenientes, ocupam espaços escondidos nos cômodos de casas estranhas.


Esse é o meu ritual de natal. Não foge de todo o aparato do ritual cotidiano. Há vencedores e vencidos. Representação e espontaneidade. Como toda manifestação de alegria, ele atrai casmurros que procuram incoerências e desigualdades travestidas. Dá oportunidade aos observadores desleais que discorrem sobre o contentamento alheio. Esses que falam mal de tudo; que acham o ser humano um bicho bem estranho e inadaptado; que se deleitam em jogar água na champagne dos outros. Eu os conheço: alguns deles até se metem a escrever...


Após a meia-noite.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Literatura: (in) definições



Literatura é disfarce.


É inaugurar um boteco pra atrair ouvintes aos engodos de nossas mágoas. Castigá-los ou premiá-los, conforme seu estado de embriaguez. E o resto é encher linhas e esvaziar copos. Prosear sobre si, buscando afinidades. Fingir inventar, mas compilar: aproveitar-se de tudo o que chega a nós. Pensar em escrever sobre cada coisa que se passa. Forjar nelas a possibilidade textual. É o que faço. Falo de mim, numa espécie de busca de algo inesperado, porque restrito ao instante da escrita. Tem sincero empenho, mas é falso: ainda esconde aquilo que resguarda a credibilidade de quem escreve; o singular; o indizível. O que não quer ser alcançado.


Literatura é carência.


Escrever é sentir falta. É completar-se no moldar do alfabeto. E delegar ao outro o juízo sobre si. É jogar sujo: desculpar-se com as palavras. Mas sujeitar-se aos mais duros céticos. Alimentar o inimigo; enojar. Estimular o "puta, que bosta". E agradar também. Reiterar carinho. É vingar-se do mundo ao mesmo tempo em que lhe pede auxílio. Interpretar por não saber agir. Escritores são complexados. Não resistem às auto-avaliações. São neurastênicos sempre prontos às sensações extremas: ora demasiado contentes consigo; ora assaz decepcionados. A intensidade de tais sensações é pretexto pro texto. Empurra.*


Literatura é hábito.


Mais que tudo: um costume. Segue instintos, mas todos corriqueiros. Inspiraração vem com treino. Quando não vem, há sempre outros recursos. Como agora, basta falar daquilo que se almeja com as letras: teorizar. Reciclar seu modo de escrever pra ganhar tempo. E aí esperar um novo mote. Não decepcionar o hábito. Reforçar-lhe enquanto conceito para que não se desvirtue: hábito tem de ser cotidiano, quase natural. É, também, tornar involuntária a procura de uma imagem que complemente o texto. E depois pensar: "por que sempre tenho de colocar uma fotinha? mais uma atração? uma isca?". Acabo colocando. Se bem que... esse finalzinho talvez devesse estar na definição que vem logo a seguir. (mas valeu: equilibrou o número de linhas)


Literatura é enfeite.


Mais precisamente, é enfeitar. Premeditar metáforas, calcular sua recepção, fugir dos clichês. Maqueá-los pra lembrar que, ainda que hoje sejam clichês, um dia foram inéditos, e tiveram sentido. Remodelar esses sentidos é colocá-los sob o reino da forma. Submetê-los. Escrever sobre escrever é perfumaria. Ah, o rótulo de perfumaria! Cospem: "A vida segue dura, e a arte deve se engajar; precisa denunciar as injustiças!". Não vejo tanta transcendência assim. Literatura é ornamento. Que mal há?** Necessitamos de oxigênios diversos: esse é o meu maior. Conscientizar é coisa pra gente grande. Mudar o mundo é um fardo pesado demais pros escritores. Os amadores, então, vish... são isentos pela inexperiência. Enfeitemos nossas árvores de natal com luzes chamativas, que basta.


Literatura é remorso.

Por isso aí acima. Porque sempre há uma sensação de inutilidade. Aquele "tá, e aí? o que muda? aonde quer chegar?" E aí que nos resignamos em ser inócuos aos grandes problemas do mundo. Ao menos por aqui. Que centremos nossas forças transformadoras em outras ações, concretas. Ou nem isso, porque também há muita falácia. Por enquanto, só remorso incompleto. Desconfortos de fachada. Incomoda, mas não o suficiente pra impedir nada. É o "sofrer" de longe. O "dói mais em mim do que em você": blá, blá, blá.

Literatura é paciência.


Isso mesmo: a sua. De chegar até aqui. Infeliz! Seu prêmio, sei lá... é seu próprio sorriso, de agora: esnobe, indeciso ou satisfeito. De que lhe vale? Ao espelho!




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E é mais um monte de coisas. Que o digam vcs. Estas são apenas as que me vieram aos dedos nesse momento. Agora, publicado, já me vieram outras definições, mas perderam sua oportunidade. Não coloco os créditos da imagem por não tê-los encontrado.

P.S.: Carol, isso se deve ao que vc falou aquele dia Nou Bar, sobre eu escrever sobre o próprio ato de escrever. Na verdade, vc falava de blogs, mas...tem a ver, porque o blog é onde publico, e me exponho. Bom, foi um estímulo seu, de um modo ou de outro.


*Demasiado contente! Pelos recentes textos de Camila e de João (Odisseu), que me estimulam pra caramba!; pelos comentários do último texto, que foram realmente outros textos, anônimos ou não; pelas férias que se anunciam ociosas!; pelo clima de natal (mentira!).


**cacófato notado, mas que seja! Que mal há!?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O enterro do prodígio


Não é bem um fracasso. É a relutante constatação de que não dá mais. Não há mais tempo pra tornar-se notável ainda jovem. O garoto prodígio morre sem ter nascido: fora sonhado e vivera sob a suposta incompreensão do mundo, perdido num espaço onde o irreal potencializa talentos inalcançaveis. É preciso renovar os planos de um futuro. Encontrar novos pretextos para pensá-lo promissor. À medida que a precocidade vai sumindo, há de se transferir a esperança aos feitos adultos. Uma boa experiência profissional poderia substituir o sentimento de realização inviabilizado pela adolescência comum. Mais tarde virão herdeiros para novamente justificar a impregnação da noção de vitória. O que não pude ser, meu filho será. Virá ao mundo como vítima da cobrança de seu próprio pai. Sob a máscara sincera de uma boa educação, será moldado desde criança. Falará inglês pra que não corra o risco de não compreender muita coisa boa que há por aí. Estudará música antes de pensar em fazer barulho com um violão. Tudo emoldurado pela idéia de "prepará-lo melhor para o mundo": pra sua crueldade travestida pelo tom sadio que a palavra "competição" imprime à essa bagunça humana. Uma tolice tremenda, mas que de algum modo nos acompanha: conquistar prestígio. Ser melhor que esse ou aquele... nisso ou naquilo. Pra minha tristeza, careço de impulsos. O oxigênio sofre suas mutações etárias, mas a necessidade de respirar persiste.

Quão natural seria colher da vida apenas seus prazeres, sem pensar em legados! Mas a vocês não parece uma relação parasita demais? Tiramos dos artistas nossos maiores deleites. Muitos não viveriam sem música, sem cinema, sem literatura. A obra dos outros nos mantém. E o que fazemos? Trabalhamos vendendo aparelhos que reproduzam música alheia; em locadoras promovendo filmes "imperdíveis"; em feiras do livro... vendendo livros. Será que o "dom" realmente é restrito a uma pequena parcela dos seres humanos? Você é daqueles que acreditam que alguém nasceu com o talento pra criar coisas belas e outro alguém possui a inclinação congênita para catalogar peças de um acervo político? Há PESSOAS e pessoas? talvez sim. O transcorrer do tempo me tem feito desistir da busca de um fim em mim mesmo. Uma resignação quase que imposta. Quando nos deparamos com o "curriculum" daqueles que admiramos, vemos quanto foi precoce a constatação de seus dotes. Não é mais possível ser um grande jogador de futebol; não se pode mais compor algo como "Sabiá"* aos 21 anos; nem escrever Queda que as mulheres têm para os tolos** também aos 21. É a famosa crise dos 21. Chegar aos 21 e não ter feito nada disso! ah! "Você ainda é novo...".

Eu sou adepto do fracasso. Da consciência dos dias passados, que é mais forte do que a esperança pelos que hão de vir. Uma abordagem cética? Hoje, sim. Hoje eu me rendo à mediocridade sem considerá-la a pior das coisas. Digestão incômoda. Escrevo pra legitimar a desistência em palavras. E, na verdade, isso é meio pedante. Dá a impressão de que fico sempre me auto-decapitando para suscitar nos outros uma reação de resgate de minha auto-estima. Se publico, oras, é porque vejo sim alguma importância. No entanto, faço do texto uma total expressão do que considero ser minha existência mediana. Entende? É um lance contraditório: eu mesmo me culpo. Mas não é depressivo, como a capa pode sugerir. É uma tristeza de caráter: enraizada, até normal.

Declaro minha impotência frente aos desafios todos. Chego num momento em que minhas forças perdem muito de seu altruísmo. Migram pro lado de cá. Se não há nada muito complexo a oferecer ao mundo, que me seja facultado o direito do desfrute "egoísta". Que sejam abolidas as noções de trivialidade, banalidade, superficialidade: tudo é lícito e bem-vindo na festa da vida. Foi-se o mocinho. (pensou em "veio o vilão"? essa era a isca. Pra mais nada serviu o "foi-se o mocinho"...rs) Todas essas comparações o fizeram perecer.

BREQUE. Esse último parágrafo foi uma piadinha de mau gosto. Uma brincadeirinha. Uma vã tentativa de prolongar um assunto que se esgotou. Essa baboseira de "impotência" e tudo o mais são falsos. Embora eu realmente ache que meus tempos de prodígio se foram; a despeito de eu achar também que nunca terei sucesso em minhas empreitadas artísticas, ainda há a chance da rosa nascer no asfalto. Existe a motivação de escrever no blog (e isso é mais estranho do que qualquer outra coisa, pois amanhã sempre odeio o que escrevo hoje, mas depois de amanhã volto a escrever); a busca incessante de uma composição (que há de sair!): aquele quezinho de fôlego que equilibra e torna melhor o ato de viver. Têm razão aqueles que não esperam de mim nada de "especial"; nada além do comum. Que fique claro, no entanto, que isso não abafará meu desejo de surpreendê-los.

Sentem-se.


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*música que Chico compôs com Tom aos 21 anos.
**obra de machado de assis escrita também aos 21 (pra completar a dupla e gerar sua inquietação: "ah, ele quer mostrar que conhece chico buarque e machado de assis...se acha cult")

Sugestão de tema: Sr. Molina, após ver uma matéria que falava sobre um garoto de 20 anos que dirigiu (ou escreveu) um filme super bacana. Isso foi trágico para o gustavo, já que ele já beira os 23 e "nada fez". "Um bom tema pra vc escrever no seu blog".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Sobre a relação contratual entre artista e fã.

Uma apresentação que coube dentro das minhas expectativas. Ele não parecia muito empolgado com o show. No entanto, representou bem.







Nenhum artista deve gostar de todos os shows. Falo dos consagrados mas talentosos (as duas coisas podem formar uma dicotomia, não?). São mais ou menos as mesmas músicas, com as mesmas pessoas tocando, pra uma “mesma” multidão anônima. Há as identificações específicas de cada artista, claro: um lugar ou uma data especiais que constituem a minoria das noites realmente deleitosas. A recompensa. No mais, tudo é basicamente ritual. Cantar músicas compostas há vários anos, mostrar entrega ao público, e, vez ou outra, até interagir. Buscar lampejos cômicos pra “quebrar o gelo”. O “algo a mais”. Uma relação contratual: o fã pagou ingresso para ver o artista que embala seus momentos bons; o artista tem de superar a si mesmo e fazer melhor do que fez na gravação. Há o contato, e a emoção está subentendida. Certo, certo... com certeza é melhor do que trabalhar*, mas tem sua dose de rotina. Vira o teatro da música: representação.

Parece-me penoso, depois de alguns anos de estrada, manter o tesão de viajar por aí pra tocar. É justamente o contrário do que se dá nos períodos de composição, anteriores às temporadas de shows. Isso na hipótese das duas coisas (criação / divulgação) acontecerem em espaços de tempo distintos. Bom, mesmo quando os dois “extremos” são indissociáveis, a criação deve ser como um respiro, uma notícia de sol**. Alivia os possíveis fardos da divulgação. Naquela cidade e momento em que o artista precisa lembrar quem é, compõe.

Aí sim! Imagino um processo mais inerente ao “caráter” do autor. Criar. Algo que acontece porque tem de acontecer. Uma necessidade fisiológica (nem tanto!). Silêncio. Age (trabalha) sozinho, desafiando o ritmo do mundo. Um tempo só seu. Se muito, pede opiniões àquelas pessoas mais próximas. É quando ainda é dono de sua obra. Pode ajustar suas minúcias e brincar de reinventá-la amiúde. Curte sua cria antes que ela ganhe o mundo e saia de sua jurisdição. O diálogo entre o autor e sua obra. Depois, se o resultado agradar, é hora de lançá-la aos fãs, afoitos por novidade, ávidos de cultura.

Ponderemos.

Óbvio que deve ser bastante gratificante ouvir uma multidão cantando sua música. Mas isso logo após sua divulgação, como uma resposta do público: como o reflexo da recepção da arte por parte de seus consumidores. Porra! Chegar no palco e ser ovacionado depois de alguns meses de produção. O reencontro. Bacana, talvez incomensurável.

Passada essa fase do novo, vêm as grandes temporadas de promoção e divulgação do disco, e aí a arte vira trabalho. O artista perde seu estigma de "fazer o que gosta" e necessita cumprir obrigações formalmente contratadas. Há de se ir nas rádios, conceder entrevistas a repórteres cada vez mais leigos, cumprir um set list (tocar aquela que "não pode faltar"), e tirar fotos com os fãs mais abastados que pagaram pela área vip e pelo direito de ir ao camarim. Sua arte invoca uma invasão de todas as outras esferas de sua vida. Sua assinatura muda de nome. Então, o artista vira ornamento de orkut. "Eu conheço o camelo", dizia a legenda da foto abaixo. Ele (camelo) não parece lá tão satisfeito...




Esse texto já me cheira a mais um dos destinados às profissões que parecem muito fáceis, e são, mas também não são. Não sei se estou sendo minimamente claro: jogar bola e cantar é melhor do que trabalhar, mas, quando levados como meio de vida, trazem consigo umas chatices: é trabalho também. Tal como sexo em die e hora marcados, o show programado por um produtor, seis meses antes de seu acontecimento, pode não corresponder a todas as expectativas que o circundam. Há coisas que não combinam com o compromisso, embora sejam estritamente necessárias num mundo prático.



Mas dane-se! Com ou sem o prazer do artista, adoro ir a shows. E o do Marcelo, como certamente notaram, tem algo a ver com isso aqui. Meu pretexto. Foi como a chance única de estar presente em dois momentos de um mesmo artista. Era o Marcelo Camelo, num voz e violão que me agrada, cheio de sutileza e melodia, e era o vocalista dos Hermanos, que tocou "Além do que se vê" e transportou a platéia aos shows da extinta banda, cheio de emoções e alusões. Enfim, o show foi o que eu construi pra mim mesmo. Vi o que esperava ver. Inconscientemente, cumpri o ritual implícito no evento: suas regras informais e seu universo superior. "Que foda ficou essa!", "Pô, se ele tocar 'De onde vem a calma' eu me atiro no palco!"


(A grande distinção da emoção de um show e de um jogo de futebol, é a infabilidade daquele em detrimento da incerteza deste. Num show, "sabe-se" o que vai ser tocado: vamos prontos e dispostos a gritar e bater palmas [quem grita mais alto as letras - todas -, é o fã número 1]. Num jogo, a predisposição existe. A emoção, porém, depende do desempenho de nosso time: podemos nos arrepender e jurar - em vão - nunca mais voltar, e podemos ficar contentes pela escolha de correr o risco. Intensidade. )

Texto prolixo. Que eu termine:

Paguei mais do que eu devia. Esperei com certa angústia. Desfrutei da companhia de duas pessoas bacaníssimas (dani e daniel). Nem cogitei a possibilidade de o Camelo não estar ali com toda a sua vontade. Curti pra caralho! Mas, passados esses quinze dias... acho que ele, naquela noite, preferia estar comendo uma pizza.

Ou uma menininha de, sei lá, uns 16 aninhos... ***
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P.S: Ruivo, tá aí!
P.S.2: Bom, fui simplista, e talvez não tenha ponderado como deveria, pela tal da complexidade. Algum artista diria que eu não tenho cabedal pra julgar suas emoções. Que me seja permitido especular, ao menos.
Foto 1: pra te assustar!
Foto 2: a Sra. Ética pediu que eu razurasse a lata do rapaz. Mas a legenda realemnte dizia: "eu conheço o Camelo". Bom, sei de alguém que diria: "E eu tenho axilas!".
* Sem tanto rigor, vai. é notória a ironia. foi mais pra remeter àqueles comentários que não vêem um "trabalho" nas funções do artista. ou do professor.
** "Notícias de sol" é o nome de uma música do Brandão, amigo do meu irmão! e achei o termo fantástico.
***Acho horrível ter de aguentar críticas quanto a esse namoro de camelo e malu magalhães. Quem não gosta do cara, que não use isso pra justificar a aversão. Que ele pegue quem quiser. Curto seu som, não sua vida sexual. (se é que, nesse caso, há.)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os bancos da faculdade de história





Quem viu aquele par de ótimos filmes: "O Declínio do Império Americano" e "As invasões bárbaras"? São fantásticos, mas essa impressão cada um teve ou terá ao assisti-lo: não cabem aqui meus recônditos elogios. Só uso-os como ensejo pra falar sobre o destino das amizades. O segundo dos filmes é gravado 17 anos depois do primeiro, com os mesmos atores/personagens. Tenta reconstituir os laços de um grupo de amigos que foi separado pelas tais das escolhas que a vida nos impõe. "As invasões bárbaras" é encontro de memórias, é nostalgia, é o lembrar por anedotas. Voltar ao passado pra fazê-lo melhor.



Isso tudo pra falar de um comentário que o miragaia fez há um tempinho. Ele falou sobre o futuro das reuniões despojadas lá nos bancos da faculdade de história (e que podem simbolizar as reuniões nos outros tantos prédios de tantas outras faculdades). Sobre aquele instinto adquirido de, ao chegar à faculdade, olhar pros cantos do prédio e procurar algum amigo. Por vontade de conversar sobre coisas menores: subtrair um pouco da seriedade implícita no lugar. A academia. Esse nome medonho! Como se passássemos por um treinamento mental. Se isso existe, meu caráter picareta pode ser comparado aos atletas que tomam anabolizantes. Aparentemente, tenho treinado, mas, de verdade, é só desleixo. (Dispenso os alertas de que estou usando dinheiro público e devo me esforçar ao máximo). Minha academia também é ouvir as canalhices de uns, as posições reaças ou inconformadas de outros, as indecisões, os machismos, as classificações de meu gosto musical (de corno), e os projetos pro fim de semana. É o além-aula. Calma: estudar é bacana pra caramba também! Mas pode ser feito em casa ou qualquer outro lugar. O que dá sentido à faculdade são as pessoas. Afinidades. Quanto mais afastado delas, mais insípido fica o ambiente universitário.




Os bancos da história, por isso, confortam. O que será deles daqui uns anos? (pra não dizer de nós) Outros grupos de amigos farão daqueles lugares seu ponto de encontro. Nosso espaço vê o tempo prevalecer. A proximidade da formação assusta. Volta-se às fases em que escolhas tem de ser feitas em detrimento de outras. Há de se pensar no futuro novamente. O discurso "de velho" já não é tão longínquo assim. Responsabilidades começam a ultrapassar os prazeres. Amigos se formando, indo trabalhar. Outros projetando mestrado ou vislumbrando outra graduação. Uns até planejando casamento. A realidade é inexorável: um dia nos alcança. Anuncia a necessidade de se aproveitar um pouco melhor as coisas. Talvez eu sinta mais falta da faculdade do que eu imaginei no meu primeiro semestre. Vivo um caminho inverso. Hoje estudo mais, tenho mais contatos e desejo estar por lá. Vejo bons motivos. Empolgo-me com a alegria da turma da dani, que vive uma fase de reconhecimento e ainda não precisa sofrer algumas pressões.



O miragaia levantou a possibilidade de não nos afastarmos definitivamente. De simular novos bancos da história por aí. Algumas ferramentas que poderiam atenuar a distância que naturalmente surgirá. Os encontros físicos deverão mesmo ser cada vez mais raros. Compromissos, outras pessoas pra rever, preguiça. Ele falou do blog, mas não sei quanto tempo isso aqui irá durar. As pessoas vão perdendo a paciência. Pra algumas, só o email de divulgação de um novo texto já deve causar repúdio. Este espaço serve bastante pra quem busca saber um pouco mais de minhas opiniões, e me ajuda mais ainda a notar semelhanças. As omissões dizem muito também. O mais misterioso é imaginar alguém que passa por aqui "por acaso" e não se manifesta pela impressão de que os textos são muito restritos a um grupo.


O provável, como eu disse e é óbvio, é que nossas relações se tornem cada vez mais superficiais e que grupos cada vez menores mantenham contato. Nossos amigos de colegial já não são tantos (Ah, os tempos de ETE!); os de infância quase sumiram (o futebol no quintal de casa). No entanto, não dá pra ser tão frio com essas coisas. Sempre é bom pensar que pode ser diferente. Resistir à dureza da vida. Até pra não antecipar decepções, pra não permitir que as amizades prescrevam subitamente. Pra ficar imaginando qual será a galera que comporá a minha edição de "Invasões Bárbaras". Aqueles que, mesmo depois de muito tempo, sentirão prazer em estar ao meu lado pra rememorar algo. Falar de qualquer coisa passada. Enganar o futuro enquanto ele não chega.



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Legendas (como se fossem)

1) Uma das últimas cenas de "As invasões Bárbaras", quando os personagens se encontram pra relembrar.

2) Fachada do prédio de História e Geografia - FFLCH

3) é... não dá pra perceber que eu quis desfocar meu rosto, pra tentar dar a idéia de envelhecimento,né?rs... bom, mas é isso!

P.S.: além dos créditos ao miragaia, devo dizer que o gustavo também estimulou esse "desabafo". Ele é chato: cobrou referências e fica aqui, do meu lado, alertando pro tamanho do texto, que pode fazer com que algumas pessoas desistam de ler.

sábado, 1 de novembro de 2008

A volta. Lá pelas cinco pra uma.


Descobrir mais sobre a rua. Andar em meio à multidão com o fone de ouvido a ditar suas sensações. Não caminhar, apenas dar sentido à intangível trilha sonora que grita em sua mente. Optar por canções em inglês, por não entender a língua, e então dar-se a chance de supor que todas as palavras não precisam de sentido pra serem escritas. Ou que essas, que completam a música, retratam você. E seu momento. Esquecer que tudo virou objeto de análise e, naqueles instantes, sentir-se o melhor ser do mundo. Fazer com que tudo pareça seu cenário. Que as pessoas sejam seus figurantes. Inventar uma cena pra si mesmo. Olhar em preto e branco. Simular. Maravilhar o cotidiano para torná-lo texto. Procurar texto nos intervalos do dever. Ao menos nesses três minutos ofertados pela música, rir dos ínfimos problemas que precisamos ter. Os que procuramos pelo simples fato de exigirem resolução. Nossa afirmação. Ter a certeza de que ninguém suspeita de sua descoberta instantânea. Ao contrário, pelas expressões de bobeira facial por você emitidas, julgam-lhe maluco; um drogado qualquer. Ainda que alguém possa intuir o que estás a ouvir, não terá como captar a dimensão ritualística da canção. Aí, voltar a especular, a analisar. Rir disso também. Da tolice do mundo; da busca de uma função pra todas as coisas; das opiniões engessadas e peremptórias. Pensar que... ninguém sabe de nada. Que, enquanto você se move apenas pra não parar, todos eles procuram a superação do tempo, ou um emprego. Um uso. Julgar também a multidão, em sua unicidade. Não notar a moça que também vive uma cena singular, e que partilha de sua câmera onipresente, coletiva. A moça que você imagina para o texto, pois não a notou na hora, ora. E então suicidar seus minutos lentamente. Até um semáforo lhe barrar. Pra mostrar que você ainda não poderia resistir a um atropelamento. Pra dizer-lhe que sua hora de estrela não vale a pena. Até você notar que a música acabou. Que os fones não trazem mais um universo particular. Agora só abafam os sons da rua. E funcionam como seu relógio. Ao calar, ironizam. Dizem que sua descoberta já fora inventada e reinventada outras vezes. Que segundos belos são criados todos os dias, nas horas em que apenas eles podem substituir sua vontade de estar em outro lugar. Tempo infalível, e esgotado. A realidade se apresenta revirada, revoltante, dura. Sua única saída, agora, seria parar. Imaginar bloqueios e prostrar-se a cada metro avançado. Aumentar o caminho do restaurante ao trabalho. No elevador, contentar-se com o consolo de poder escrever tudo depois. De registrar seu roteiro sem fidelidade total. Poder fazer as coisas parecerem maiores do que realmente são. Protelar seu despertar e respirar fundo seus últimos segundos de horário de almoço...
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P.S.: só pra que isso aqui não fique sério demais. a permissão para as "viagens textuais". o retorno à irreflexão barata.

e esse texto, por amostragem, reflete o que acontece raramente comigo: momentos em que uma música vale mais que seu valor intrínseco. A foto é da rua xavier de toledo, por onde passo na hora do almoço. A música do dia foi "Mistaken for strangers", do The National, e até hoje eu preferi não procurar a tradução na net. Com o texto escrito, vou atrás.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Quem me vende uma opinião?



Quanto maior é a repercussão dos atos de violência, parece que mais desorientado eu fico. Toda opinião acerca de determinado caso me confunde mais um tanto. Não há mais certeza de quais reflexões são minhas e quais adentraram ao meu pensamento e dele passaram a pertencer. Confusão de argumentos e conclusões. Falo de idéias alheias como se tivesse acabado de formulá-las; lanço algo meu com a impressão de ter pedido de vista as origens de tal concepção. De tal apropriação, digo. Já nem creio naquilo que eu defendo. São pensamentos que só funcionam na superfície. São independentes: dispensam revisões. As palavras dos outros, no entanto, me são transplantadas ainda com vida! Ecoam. Misturam-se às minhas e lhes dão sentido para serem empregadas na análise específica que me disponho a ensaiar em dado momento.

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O certo é que opinar não é facultativo. Querendo ou não, temos de nos manifestar sobre os maiores espetáculos da violência. Sobre os ecolhidos da mídia. O recente caso da adolescente de Santo André é um exemplo suficiente. Em todos os ambientes sociais que frequentamos, não houve escapatória. Chefes, parentes, colegas, estranhos, especialistas: todos comentavam. Mesmo aqueles que se julgam maiores e se pensam imunes ao sensacionalismo, não puderam se esquivar das centenas de horas dispensadas à cobertura do evento. A tática dos seres inalienáveis é quase sempre a de errar ou de esquecer, de propósito (!), os nomes dos personagens do episódio: "Ahhh, você tá falando daquele negócio da menina, lá...a E... Elair, né? Não? Claro, claro...Eloá. Bom, é que eu não acompanho essas coisas...sensacionalismo barato, sabe?" Os mais trapaceiros até chegam a encenar o desconhecimento do fato: "Nossa, sério que todo mundo já tá sabendo? É que eu não assisto tv."

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Prefiro aqueles que, apesar de intelectuais, chegam à faculdade com o rosto esbaforido, confessando seu envolvimento com todas as questões suscitadas a partir da explosiva publicidade do ato. Sua adesão à discussão de um assunto nacional. Há uma espécie de alarme que toca e anuncia que todos podem despejar seus pontos de vista. (Alguns os defecam). Nesses momentos as diferenças de classe saem de cena e dão lugar ao fato comum a ricos e pobres. A lembrança de que todos são passíveis da violência. Lindemberg diz ter matado por amor. Assassinos do amor não se restringem às cohabs. Jovens ricos também amam, e podem matar. Estão na parte de dentro do condomínio: não podem ser barrados; sua arma é destinada à caça esportiva e à proteção pessoal. Talvez essa conclusão aproxime as pessoas, diminua as discrepâncias. A lembrança de que alguns traços ainda nos unem. Que sentimentos pulam muros e que só a razão pode ser blindada.

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O que se passa no cotidiano é a profusão de pessoas se expressando. Humanos tentando explicar atitudes humanas. Buscando desumanizá-las pra desenhar-se oposto ao criminoso da vez. Padecemos de uma necessidade de atribuir culpa a alguém. Pra uns, a imprensa agiu mal e tem culpa no desfecho. Pra outros, a polícia é que falhou ao optar por não atirar no rapaz. Há ainda quem culpe Eloá e sua mãe por conceberem um namoro de uma menina de doze anos com um menino de dezenove. Encarnamos a postura de um repórter cidadão, de um atirador de elite, e de seres que controlam seus instintos e sentimentos. Perde-se a mais plausível dimensão do ato. Torna-se imprecisa qualquer especulação sobre o fato de seu grau hediondo ser ou não ser merecedor de tal repercussão.

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A mim, ao menos, tudo soa indecifrável. Não sei quem devo odiar ou adorar. O que esperam que eu pense? Quais opiniões devo dar? Bom, devo raciocinar como se Eloá fosse uma pessoa genérica ou como se ela fosse minha irmã? Sim, pois os direitos humanos também são flexíveis (aquela velha pergunta: se me deixam sozinho com um assassino de alguém que eu amava, o que eu faço? Busco compreendê-lo ou descarrego minha indignação?). Como explicar a ética dos detentos, por exemplo, que condena certos crimes, e força as leis a moldarem-se para garantir a integridade daquele que ultrapassa o bom senso criminal? É tudo muito confuso! Não dêem ouvidos às minhas opiniões! Elas saem porque têm de sair. São efêmeras, pra sempre. (Que bosta! Isso soou como o clichê do "sou uma metamorfose ambulante"! Sempre acabo caindo em clichês!) O real e o fantástico. O real é fantástico. Informações demais que impossibilitam sua ordenação. A incerteza das próprias idéias. O perto e o longe.

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A desorientação.

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Tradicional P.S.: Sei que cansa, mas não é inoportuno mais um agradecimento! O último texto rendeu muito mais do que eu pensava! A velhinha fez sucesso! rs. Conto pra ela que todos adoraram vê-la no computador e ela sorri num misto de orgulho e satisfação!

sábado, 25 de outubro de 2008

Pra ela, que me espera



- Vó, vamos lá no seu quarto preu tirar uma foto sua com seus bonecos e pelúcias?


- Foto?


- É, pra pôr na internet, vó... no computador.


- Ah, naquele que você mostra sempre, né? que todo mundo pode ver...vamos, Bita! Aí você tira uma bem bonitinha...pra ficar uma lembrança bonita, né? (sorriso)


- Então vai, vó...pega o Bidu também (o gato)...e os bichinhos da parmalat.


- Ah, não! É só com o Chaves...os outros já estão velhos, Bita (risadas).



Entre uma trapalhada e outra, tirei várias fotos da velha! Com os bonecos, com o gato...e só com o Chaves, exigência da modelo. A foto que ilustra essa postagem é parte desse conjunto. Optei pela imagem traiçoeira, em construção, sem pose. Um pouco mais fiel. Mantive o pacto implícito, que consistia em dar destaque ao novo membro da família alternativa de minha vó: o Chaves! Certo dia dessa semana, ao chegar em casa, a velha me recebeu com a risonha novidade: "Bita, temos visita em casa. Ele veio do México pra ficar aqui...rs...está lá na sua cama, descansando". Era o boneco do Chaves (eu nunca imaginei que ela sabia a origem do Chaves!). O boneco é mal feito, desproporcional e oportunista: não importa! Pra ela, é igualzinho ao do "desenho". É seu mais novo xodó. No segundo dia de estada aqui em casa, ele já ganhou um colete de lã feito sob medida, "porque logo o frio chega, né, Bita...rs". Frio, vó? Ok, lindo o colete!



Minha vó é a pessoa que mais me alegra. Sua capacidade de criar afazares e afetos é comovente. Casada desde os trezes anos de idade devido a um acordo entre famílias (no Egito), ela viveu uma vida pro meu vô, falecido há 25 anos, e vive outra pros netos. Sempre espera nosso beijo atrasado pela manhã, arruma nossa cama e separa o chinelo pro final de semana. Aos 78 anos, ainda trabalha. Digo, ajuda meus pais na loja de embalagem e, como ela diz, "se distrai". Vira e mexe, aos risos, ela conta histórias de fregueses brincalhões que a chamam de "menininha" e a convidam pro forró. De tão concentrada em seu bordado, ela teve a proeza de estar na loja durante um assalto e não perceber nada! Nada mesmo! "O quê? levaram o carro, Noubar? ãh, entraram com arma aqui? que horor" (sim, não existe som de dois erres na pronúncia da egípcia!).



Com a graninha que ela junta na loja, mais a mesada que ganha dos netos, ela vai às compras em todas as "lojas de 1 real" aqui do bairro. Mas isso é o rotineiro, que todos que a conhecem já sabem. Cerca de um mês atrás, no entnato, realmente aconteceu algo de inusitado. Ao voltar de um bate-e-volta à cidade de Socorro, e após ter gasto 200 reais em presentes, bijouterias e roupas, a velha ficou duas noites sem dormir! Sério! Ela conta isso com uma felicidade imprevisível. "Bita, sabe quando você fica feliz por comprar as coisas que acha bonito? Nossa, eu comprei tanta coisa, né...fiquei tão contente que não dormi essas duas últimas noites". Mesmo conhecendo muito bem a velhinha, eu não esperava por isso. Foi inevitável a lembrança de quando ganhei meu primeiro video-game e varei algumas noites jogando. A diferença é que pra ela as "coisas" têm um poder mais de contemplação do que de uso, desfrute. É meio que uma legitimação do estar viva. Um sentido pra uma existência marcada pela submissão à figura masculina e à família. Minha vó nunca me deu presente de natal, nem de aniversário, nem nada. (E não lembro, sinceramente, de isso ter feito falta ou causado decepção) Sempre destinou seus lucros da loja às coisas "pra casa". Enquanto meu irmão e eu fomos seus companheiros de tarde, ela não precisava de nada além de sua presença pra nos cativar. Contava as mesmas e engraçadas histórias do egito e das peripécias de meu pai. Contava as mesmas piadas sem notar que já sabíamos os desfechos. Melhor, ria de suas piadas mesmo antes do final! isso hoje é mais raro...é coisa de feriado.



Agora, com meu irmão morando fora e eu usando a casa como dormitório, ela vibra cada instante de nossa companhia. Despeja todas as fofocas da semana em poucos minutos, fala das novidades da loja de 1 real e, não sei se pra redimir algo, nos dá pequenos presentes, cheios de simbolismo e cuidado. Perto dela, eu sou o menino que fugia da loja pra jogar bolinha de gude na calçada. Por algum motivo difícil de explicar eu não a culpo por absolutamente nada, não noto seus defeitos: admiro-os. Nem ouso falar mal de um possível impulso consumista que ela desenvolveu. Foi seu modo de driblar a solidão. De preencher um espaço que deixamos vazio. Um espaço ocupado pelos gatos, pelos bordados e pelas compras que desconhecem o glamour de um shopping. Se atrasamos o pagamento de mesada, ela cobra juros! "Igual o banco, Thiago" (gargalhadas!). É disso que falo: acho lindo quando vem dela! Vem com a ingenuidade de uma alma realmente "jovem ainda". Que só conhece seu bairro. Que chama o centro de "cidade". Que tem medo de escada rolante. Que tem a pachorra de fazer promessas que terceiros têm de cumprir! (sim, ELA prometeu à nossa senhora de aparecida que, se eu passasse na prova - vestibular - , EU teria de ir até Aparecida do Norte para agradecer!). Assim.



Sou um neto babão. Pra ela eu sou o Bita, um menino que gosta de falar como os apresentadores de jornal; que pede permissão pra ir tocar violão no quarto dela; que pede pra ela cortar banana em cima do açaí; que gosta de estudar de noite; que é chato quando fica corrigindo os enganos causados pelo sotaque dela ("barulhos" ao invés de "Guarulhos", "sábato" ao invés de "sábado", e aí vai!!!). Mais cedo, quando eu pedi pra ela posar pras fotos com os bichinchos, ela só sabia que apareceria no computador, e que a dani iria poder ver lá de São carlos. Usou a palavra "lembrança" como estímulo pra posar para uma foto oficial. Sentiu-se importante naquele momento...quis contar a todos:



- Cida, olha o que seu filho fez...rs...colocou eu e o Chaves no computador...


- Olha, meu filho (pro thiago), seu irmão é louco que nem você...rs






P.S.: quem quiser conhecer melhor a velhinha, veja!! : http://br.youtube.com/watch?v=Fz53V04rqSk

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sobre o MENDIGO. Impressões de sofá.




O mendigo é aquele que não nos causa medo. Não se impõe, implora com o olhar. É o autêntico desistente. Mendigo de verdade não quer ter um trabalho, uma família pra cumprimentar ou qualquer outro laço social. Rejeita a hospitalidade dos albergues e não aceita esmola demais. Quer o suficiente, ou pouco menos que isso: o imprescindível. O ócio de uma reserva monetária lhe é humilhante: mendigo tem de mendigar. Só assim ele existe! É a representação da coragem sem rodeios! Do fracasso pelado. ereto. O que não tolera acabamento; que não se disfarça. Mendigo é o que dorme várias vezes ao dia pra ser acordado. Odeia o sol porque traz com a luz uma multidão de pessoas pra sua sala, mas o ama porque o sustenta. Mendigo a gente não imagina se transa. Desconfia-se que se masturba, e seus "mendiguinhos" (espermatozóides) são despejados na calçada pra serem pisoteados por homens brancos inconscientes. Pra ZL, mendigo é mindingo.

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Em sua pré-abordagem, profetiza o constrangimento que irá causar e é capaz de dublar o "não tenho nada..." que sua "vítima" (seu carrasco!) encenará. A negação da esmola mascarada pela mentira do "só tenho o bilhete único"(e mendigo não usa transporte público: se arrasta) é o alimento de que o mendigo necessita para seguir à margem do sistema (!). Sobreviver de seus restos. O descaramento por nós destinado a ele é legitimador de sua "opção" pelo "ficar de fora". Nada pode lhe estimular a lutar pela ascensão social. Se obtivesse um sucesso raro, conseguiria um emprego de distribuidor de folhetos que trazem a figura ímpar de um astro da música nacional: "para vereador, vote Netinho ! do Negritude, mano!". Algo ali no centro mesmo, em casa. Ao invés de esmolar, saudaria os transeuntes com um "bom dia!" e ofertaria o folheto. Muitas pessoas abusariam de sua inteligència ao pegar o papel e jogar no próximo cesto de lixo (sendo otimista, tá...). Sabe, pra não ignorar...não "ficar chato".

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Sua atuação daria quase na mesma, mas não lhe seria possível rir por completo, pois não estaria totalmente entregue. Haveria algum indício de resistência triste. Melhor mendigar! Rebaixar-se à posição que carece da mínima credibilidade! A quem não se deve explicação! "Não tenho e pronto". Onde a falsidade soa falsa desde sua concepção: a mentira "automática", involuntária. A que nós dizemos. Melhor voltar à rua e esperar alguém que lhe jorre vitalidade. Alguém que tenha se preparado para triunfar sobre seu destino público. Que lhe responda: "tenho grana mas não quero te dar. não sei onde e pra quê irá usar... você tem cara é de bêbado! E eu também tenho medo de abrir minha carteira aqui...aqueles trombadinhas devem estar de trato com você: eu abro a carteira e zapt! ... sumiu. essa bolacha? na verdade eu gosto demais dela e não suporto que me peçam. Vai trabalhar!". Qual não seria a satisfação do mendigo! O tapa na cara! O jogo limpo numa vida sem barba feita nem banho tomado. A clara noção de estar fazendo o papel do vagabundo que justifica a busca da disciplina por todos os outros. O espelho pro qual o sorriso operário prefere não se abrir.

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Fede.




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P.S.: Tenho respondido aos comentários no email da galera, mas agradeço aqui mais uma vez pela força!! É foda!




crédito: ao "sorriso operário" que o Gustavo definiu como ninguém!


sábado, 4 de outubro de 2008

Conceber não é preciso


Ela gozava de um certo prestígio na comunidade: recebia as cartas e as direcionava aos respectivos destinatários; cuidava de crianças cujas mães eram atarefadas demais; promovia festas e bazares beneficentes; sempre tinha um café a oferecer às visitas. Ele, por sua vez, também era um contemporâneo exemplar: acordava mais cedo que eu; ia sempre aprumado ao trabalho; era solícito às ordens dos superiores (mesmo quando inúteis, indevidas ou amadoras); frequentava cursos de inglês e informática duas vezes por semana, e aos sábados pela manhã enfrentava aulas de como falar e se comportar em público. Ele brilhava no mundo dos negócios; ela era sinônimo de solidariedade e ternura.

Invariavelmente, não trocavam muitas palavras. Os diálogos só serviam para comunicar compromissos:


- Hoje chegarei uma hora mais tarde, não mais nem menos que isso, pois preciso resolver pendências de nosso futuro apartamento - dizia ele enquanto acertava o nó da gravata.


- Não há problema! Hoje, justamente hoje (!) eu prometi que iria visitar aquela minha amiga que está doente, e posso chegar exatamente a tempo de lhe servir o jantar - emendava ela, entretida com uma mancha tenaz que se instalou em seu pano-de-prato predileto.


As noites, é bem verdade, passavam juntos. Tão próximos e tão distantes quanto eu e esse texto. Pensavam no cansativo e repleto dia de hoje e planejavam o de amanhã. Sexo só faziam aos sábados, mas compensavam a abstinência do resto da semana com intermináveis 20 segundos de satisfação: era apenas ele pensar na garota que não conquistou em sua época de colégio e...pronto! Ela já havia decorado as caretas que anunciavam o orgasmo dele e, na hora exata, encenava o seu! Os dois aproveitavam o ar convidativo da luz apagada e dormiam virados para mundos opostos. O domingo viria e toda a culpa por possíveis deslizes seria paga diante de Deus, na missa das oito. Eles não tinham muito do que reclamar. Todos os tinham como modelo de vida harmoniosa, pacífica, compreensiva: conjugal. Acreditavam nisso e agradeciam por estarem juntos há vinte anos, sem discussões nem traições físicas.


Só um detalhe os desviava do destino ideal: nunca tiveram filhos. Nos primeiros anos de casamento, até procuraram auxilio médico, mas ambos foram considerados aptos à concepção. Como prudência e cautela eram-lhe qualidades abundantes, isso não os afligia, tão pouco desesperava. Quando fosse a vontade divina, num sábado qualquer, produziriam um herdeiro que, se a probabilidade for uma ciência confiável, seria eleito Presidente da República pelo PSDB, e ovacionado em seu discurso de posse onde a honra e a seriedade seriam aclamadas em todas as frases.


Agora, com a menopausa e a impotência se aproximando, talvez recorrecem mais uma vez à medicina para escapar dessa orfandade às avessas. Os colegas viviam angustiados pelo drama não sentido pelo casal. A vida não poderia se privar de uma estirpe desse calibre. A reprodução das espécies admiradas tinha de ser prioridade pro barbudo lá de cima. Neste mundo perfeito que Ele criou, não há espaço para a injustiça que recai sobre o nosso casal.


Se me fosse possível, lhes asseguro que pediria ao Criador que desse azo à preservação de seres paradigmáticos como os descritos aqui. Imagino até qual seria meu argumento para persuadir o Pai supremo. Diria eu:


-Enquanto a maior parte das pessoas busca a estabilidade, eles a têm e não conseguem transmitir. Vivem o que os outros sonham viver, mas não podem se fundir completamente. Dê-lhes essa lambuja na próxima noite de natal! (que cair no sábado).


O que receio é adivinhar sua resposta...simples, direta, Providencial:


- Concedo seu pedido, pobre militante do PCO (Partido das Cegonhas Ociosas). Mais do que depender do famigerado vigor sexual de nosso amigo, eles terão de se olhar e, mesmo que só por esta vez, notar que um não é apenas a principal aquisição do outro, e que não os fiz como metades perfeitas, mas eles é que moldaram-se e abdicaram da felicidade para alcançar o equílíbrio. Pra conquistarem um rebento, precisam reconquistar os seres frágeis e inconstantes que existem em si próprios.








terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sobre estar Só




Periodicamente, busco a solidão. Depois de fases efêmeras em que a vida social se mostra mais gentil e em que consigo cumprir razoavelmente minhas atribuições estudantis, sinto um esgotamento que tende a me afastar da existência pública. As boas aulas da faculdade perdem seu magnetismo; teatros, cinemas e casas de shows ficam pra mais tarde. Passo a querer estar em casa, deitado a violão, filmes, e leituras descontraídas. Saio do trabalho banal e corro em busca do prazer que só encontro aqui ! Colocar o pé no sofá, comer na sala, mijar de porta aberta: de verdade e sem culpa.



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O que pode parecer sombrio e melancólico, no meu caso, é benéfico demais. Nestas circunstâncias, isolo-me até mesmo pra lembrar da magnitude de tudo. Pra não esquecer que há outras coisas pra se fazer, que por diversas vezes serão por mim melhor aproveitadas do que uma aula, mesmo que tais coisas sejam as mais singelas ou aparentemente pouco profícuas atividades mundanas (exemplo: tocar sempre a mesma música, pra você mesmo). O mundo acadêmico é maravilhoso, mas cansa os que, como eu, carecem de disciplina e estabilidade. Fujo dele para retiros ignorantes mas revigorantes! Pra cultivar saudades...sentir falta...voltar ávido de conhecimento!
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Ah, solidão! Quanto bem você me faz! Como afastamento voluntário (temporário), e não como reflexo de abandono, eu gosto. Uso parte desse tempo reciclado para pensar no que meus amigos podem estar fazendo (especulo sobre o que pensam numa digressão em meio à fala de um profesor prolixo); no que, por ventura, supõem que estou fazendo; quanto àqueles com quem já não tenho contato, imagino destinos: revivo algo bom. A maior parte do tempo, no entanto, eu reservo aos meus descompromissos. O certo é que estar sozinho é um ritual salutar à manutenção de minha saúde mental, mas também indispensável à doce loucura de imaginar que o mundo é, por um instante, só meu: vê-lo de fora...e notá-lo dentro de mim.
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P.S. Paradoxalmente, esta é uma solidão compartilhada, pois publicada.
P.S.2. Se preferir, considere tudo isso como uma inócua apologia à vadiagem (vagabundagem) ou aos sintomas iniciais da depressão. Associação sua.