
Eu não poderia deixar a poeira baixar. Não nesta noite. Quantas vezes ficamos extasiados com alguma coisa e perdemos a chance de registrar tal encanto? Muitas, mas hoje não. Hoje minhas horas de sono valem menos. Iludo-as num convite a dias sonâmbulos. Se eu não escrevesse agora, morreriam os exageros de uma mente neurastênica. Portanto, aguentem. Vocês se contentam em suportar meu ímpeto, e eu satisfaço minha vontade de "contar pra mais alguém".
Saí há pouco de uma sessão de cinema, e ela ainda não saiu de mim. Ela merece qualquer clichê ou paixonite, dessas bobinhas. Ela não, ele: o filme. Vi "Apenas o Fim", que é de um moleque chamado Matheus Souza, se não me engano. E moleque mesmo: tem a minha idade, e vários centímetros a menos. É um prodígiozinho formado em cinema pela PUC-Rio. Desde o trailer, coisas boas se anunciavam. Ouvir "Pois é"* assim, em cheio, só poderia ser incrível. Num filme em que as referências de alguém que cresceu nos anos noventa saltam, então...
Foi uma das melhores experiências desse ano. Depois de me esbaldar com "Sinédoque, Nova York", e com "Palavra (en)cantada", me deparo com algo tão marcante quanto, e tão mais próximo de minha vidazinha pacata. Se se pensar que a trama se concentra na última hora que um casal tem pra passar junto antes que a mocinha suma pelo mundo, não há de se eperar muito. Que nada! O filme é isso, e é mais. É uma sucessão de diálogos fantásticos, plenamente interpretados, que fazem com que você transporte aquelas falas para a sua pouca história. Você, como eu, que tem entre dezesseis e trinta anos, deve reservar um horário (ou mais) pra espiar essa película precoce. Pra outras faixas etárias pode não soar tão "identitário", mas, ainda assim, há o que se aproveitar.
De uma relação amorosa nascida no colégio e que resistiu à universidade, o cara extrai apontamentos à beça. Sei lá: o que você faria nos últimos minutos que pudesse passar com a mulher que um dia foi a da sua vida? (mas só sexo?) E, porra, você sabe que ela não vai morrer, e que apenas quer ir embora pra algum lugar desconhecido por você. É, camarada, fugir. Não dá tempo pra entender as razões dela: há uma vida pra isso. Tem de se protagonizar mais alguns belos momentos. Olhar bem pra ela. Guardar seu cheiro nos pulmões. E esperar como quem aprecia os segundos. Há tanto disso no filme.
Esperam que eu fale de fotografia, de luzes, de trilha? Não falo tanto. Sou aficcionado por diálogos e, quando eles jorram com tamanha agudeza, me distraio do resto. Certo, a trilha também se afeiçoou aos meus ouvidos (não só por ter "Pois é" na cena final, viu!). Isso não se nega. Não se nega quando se a está procurando pela net. A fotografia veio de bandeja com a beleza que é o campus da Puc no Rio. Luz? Do dia, já que a galera filmou com câmera emprestada, que era devolvida, sem choro, às 17:00hs. Como o filme se passa no espaço de uma hora, tudo bem.
Não sou crítico de cinema, nem de bosta nenhuma. Tenho até certa dificuldade pra transmitir minhas sensações a ponto de convencer alguém a querer senti-las. Quando falo de algo, não sou convincente, e por vezes é melhor nem falar. No caso de hoje, pouco importa. Escrevo apenas para não ignorar esse impulso. Pra não trair a conversa que tive há pouco no metrô, com João e Raquel: "dá vontade de chegar em casa e escrever...", concordamos. Ainda brinquei, dizendo ser perigoso até ligar o computador. A tentação seria muita, como estava sendo até que eu a libertasse: deixo que goze por mim. Amanhã é o depois: o dia seguinte à transa. É o ir embora como se nada tão importante tivesse acontecido. É olhar pro texto e não sentir mais tanto tesão. Pensar: "foi tudo isso mesmo?".
Agora, abraçando meus sentidos como quem acabara de amá-los, solto sorrisos bobos, juro eternidade.
Paletó esvoaçante, "Magic Pie"** a todo volume, cabeça longe, longe...pessoas encenando minha hora e vez: tal foi o caminho da estação até aqui.
Hoje não devo mais nada a mim mesmo***.
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* Los Hermanos (ainda!)
** Oasis (no filme tem uma cena em que o cara fala da fase em que pega bem gostar de rock inglês!)
***Nem devo nada à amiga que, ao dizer que não poderia ir conosco à pré-estréia, desejou (pediu!) que tivéssemos uma noite memorável!









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Em sentido inverso ao do último texto, iniciemos.





