
Após a meia-noite.
Muito mais do que momentos de inspiração, tenciono publicar aqui minhas frequentes indecisões. Como "definição", suponho ser um músico teimoso que brinca de estudar ... música mesmo. E de fazê-las. Mais que isso: mal escreve. E agora, pretensiosamente, publica. Riam!


Literatura é disfarce.
É inaugurar um boteco pra atrair ouvintes aos engodos de nossas mágoas. Castigá-los ou premiá-los, conforme seu estado de embriaguez. E o resto é encher linhas e esvaziar copos. Prosear sobre si, buscando afinidades. Fingir inventar, mas compilar: aproveitar-se de tudo o que chega a nós. Pensar em escrever sobre cada coisa que se passa. Forjar nelas a possibilidade textual. É o que faço. Falo de mim, numa espécie de busca de algo inesperado, porque restrito ao instante da escrita. Tem sincero empenho, mas é falso: ainda esconde aquilo que resguarda a credibilidade de quem escreve; o singular; o indizível. O que não quer ser alcançado.
Literatura é carência.
Escrever é sentir falta. É completar-se no moldar do alfabeto. E delegar ao outro o juízo sobre si. É jogar sujo: desculpar-se com as palavras. Mas sujeitar-se aos mais duros céticos. Alimentar o inimigo; enojar. Estimular o "puta, que bosta". E agradar também. Reiterar carinho. É vingar-se do mundo ao mesmo tempo em que lhe pede auxílio. Interpretar por não saber agir. Escritores são complexados. Não resistem às auto-avaliações. São neurastênicos sempre prontos às sensações extremas: ora demasiado contentes consigo; ora assaz decepcionados. A intensidade de tais sensações é pretexto pro texto. Empurra.*
Literatura é hábito.
Mais que tudo: um costume. Segue instintos, mas todos corriqueiros. Inspiraração vem com treino. Quando não vem, há sempre outros recursos. Como agora, basta falar daquilo que se almeja com as letras: teorizar. Reciclar seu modo de escrever pra ganhar tempo. E aí esperar um novo mote. Não decepcionar o hábito. Reforçar-lhe enquanto conceito para que não se desvirtue: hábito tem de ser cotidiano, quase natural. É, também, tornar involuntária a procura de uma imagem que complemente o texto. E depois pensar: "por que sempre tenho de colocar uma fotinha? mais uma atração? uma isca?". Acabo colocando. Se bem que... esse finalzinho talvez devesse estar na definição que vem logo a seguir. (mas valeu: equilibrou o número de linhas)
Literatura é enfeite.
Mais precisamente, é enfeitar. Premeditar metáforas, calcular sua recepção, fugir dos clichês. Maqueá-los pra lembrar que, ainda que hoje sejam clichês, um dia foram inéditos, e tiveram sentido. Remodelar esses sentidos é colocá-los sob o reino da forma. Submetê-los. Escrever sobre escrever é perfumaria. Ah, o rótulo de perfumaria! Cospem: "A vida segue dura, e a arte deve se engajar; precisa denunciar as injustiças!". Não vejo tanta transcendência assim. Literatura é ornamento. Que mal há?** Necessitamos de oxigênios diversos: esse é o meu maior. Conscientizar é coisa pra gente grande. Mudar o mundo é um fardo pesado demais pros escritores. Os amadores, então, vish... são isentos pela inexperiência. Enfeitemos nossas árvores de natal com luzes chamativas, que basta.
Literatura é remorso.
Por isso aí acima. Porque sempre há uma sensação de inutilidade. Aquele "tá, e aí? o que muda? aonde quer chegar?" E aí que nos resignamos em ser inócuos aos grandes problemas do mundo. Ao menos por aqui. Que centremos nossas forças transformadoras em outras ações, concretas. Ou nem isso, porque também há muita falácia. Por enquanto, só remorso incompleto. Desconfortos de fachada. Incomoda, mas não o suficiente pra impedir nada. É o "sofrer" de longe. O "dói mais em mim do que em você": blá, blá, blá.
Literatura é paciência.
Isso mesmo: a sua. De chegar até aqui. Infeliz! Seu prêmio, sei lá... é seu próprio sorriso, de agora: esnobe, indeciso ou satisfeito. De que lhe vale? Ao espelho!
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E é mais um monte de coisas. Que o digam vcs. Estas são apenas as que me vieram aos dedos nesse momento. Agora, publicado, já me vieram outras definições, mas perderam sua oportunidade. Não coloco os créditos da imagem por não tê-los encontrado.
P.S.: Carol, isso se deve ao que vc falou aquele dia Nou Bar, sobre eu escrever sobre o próprio ato de escrever. Na verdade, vc falava de blogs, mas...tem a ver, porque o blog é onde publico, e me exponho. Bom, foi um estímulo seu, de um modo ou de outro.
*Demasiado contente! Pelos recentes textos de Camila e de João (Odisseu), que me estimulam pra caramba!; pelos comentários do último texto, que foram realmente outros textos, anônimos ou não; pelas férias que se anunciam ociosas!; pelo clima de natal (mentira!).
**cacófato notado, mas que seja! Que mal há!?

Não é bem um fracasso. É a relutante constatação de que não dá mais. Não há mais tempo pra tornar-se notável ainda jovem. O garoto prodígio morre sem ter nascido: fora sonhado e vivera sob a suposta incompreensão do mundo, perdido num espaço onde o irreal potencializa talentos inalcançaveis. É preciso renovar os planos de um futuro. Encontrar novos pretextos para pensá-lo promissor. À medida que a precocidade vai sumindo, há de se transferir a esperança aos feitos adultos. Uma boa experiência profissional poderia substituir o sentimento de realização inviabilizado pela adolescência comum. Mais tarde virão herdeiros para novamente justificar a impregnação da noção de vitória. O que não pude ser, meu filho será. Virá ao mundo como vítima da cobrança de seu próprio pai. Sob a máscara sincera de uma boa educação, será moldado desde criança. Falará inglês pra que não corra o risco de não compreender muita coisa boa que há por aí. Estudará música antes de pensar em fazer barulho com um violão. Tudo emoldurado pela idéia de "prepará-lo melhor para o mundo": pra sua crueldade travestida pelo tom sadio que a palavra "competição" imprime à essa bagunça humana. Uma tolice tremenda, mas que de algum modo nos acompanha: conquistar prestígio. Ser melhor que esse ou aquele... nisso ou naquilo. Pra minha tristeza, careço de impulsos. O oxigênio sofre suas mutações etárias, mas a necessidade de respirar persiste.
Quão natural seria colher da vida apenas seus prazeres, sem pensar em legados! Mas a vocês não parece uma relação parasita demais? Tiramos dos artistas nossos maiores deleites. Muitos não viveriam sem música, sem cinema, sem literatura. A obra dos outros nos mantém. E o que fazemos? Trabalhamos vendendo aparelhos que reproduzam música alheia; em locadoras promovendo filmes "imperdíveis"; em feiras do livro... vendendo livros. Será que o "dom" realmente é restrito a uma pequena parcela dos seres humanos? Você é daqueles que acreditam que alguém nasceu com o talento pra criar coisas belas e outro alguém possui a inclinação congênita para catalogar peças de um acervo político? Há PESSOAS e pessoas? talvez sim. O transcorrer do tempo me tem feito desistir da busca de um fim em mim mesmo. Uma resignação quase que imposta. Quando nos deparamos com o "curriculum" daqueles que admiramos, vemos quanto foi precoce a constatação de seus dotes. Não é mais possível ser um grande jogador de futebol; não se pode mais compor algo como "Sabiá"* aos 21 anos; nem escrever Queda que as mulheres têm para os tolos** também aos 21. É a famosa crise dos 21. Chegar aos 21 e não ter feito nada disso! ah! "Você ainda é novo...".
Eu sou adepto do fracasso. Da consciência dos dias passados, que é mais forte do que a esperança pelos que hão de vir. Uma abordagem cética? Hoje, sim. Hoje eu me rendo à mediocridade sem considerá-la a pior das coisas. Digestão incômoda. Escrevo pra legitimar a desistência em palavras. E, na verdade, isso é meio pedante. Dá a impressão de que fico sempre me auto-decapitando para suscitar nos outros uma reação de resgate de minha auto-estima. Se publico, oras, é porque vejo sim alguma importância. No entanto, faço do texto uma total expressão do que considero ser minha existência mediana. Entende? É um lance contraditório: eu mesmo me culpo. Mas não é depressivo, como a capa pode sugerir. É uma tristeza de caráter: enraizada, até normal.
Declaro minha impotência frente aos desafios todos. Chego num momento em que minhas forças perdem muito de seu altruísmo. Migram pro lado de cá. Se não há nada muito complexo a oferecer ao mundo, que me seja facultado o direito do desfrute "egoísta". Que sejam abolidas as noções de trivialidade, banalidade, superficialidade: tudo é lícito e bem-vindo na festa da vida. Foi-se o mocinho. (pensou em "veio o vilão"? essa era a isca. Pra mais nada serviu o "foi-se o mocinho"...rs) Todas essas comparações o fizeram perecer.
BREQUE. Esse último parágrafo foi uma piadinha de mau gosto. Uma brincadeirinha. Uma vã tentativa de prolongar um assunto que se esgotou. Essa baboseira de "impotência" e tudo o mais são falsos. Embora eu realmente ache que meus tempos de prodígio se foram; a despeito de eu achar também que nunca terei sucesso em minhas empreitadas artísticas, ainda há a chance da rosa nascer no asfalto. Existe a motivação de escrever no blog (e isso é mais estranho do que qualquer outra coisa, pois amanhã sempre odeio o que escrevo hoje, mas depois de amanhã volto a escrever); a busca incessante de uma composição (que há de sair!): aquele quezinho de fôlego que equilibra e torna melhor o ato de viver. Têm razão aqueles que não esperam de mim nada de "especial"; nada além do comum. Que fique claro, no entanto, que isso não abafará meu desejo de surpreendê-los.
Sentem-se.
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*música que Chico compôs com Tom aos 21 anos.
**obra de machado de assis escrita também aos 21 (pra completar a dupla e gerar sua inquietação: "ah, ele quer mostrar que conhece chico buarque e machado de assis...se acha cult")
Sugestão de tema: Sr. Molina, após ver uma matéria que falava sobre um garoto de 20 anos que dirigiu (ou escreveu) um filme super bacana. Isso foi trágico para o gustavo, já que ele já beira os 23 e "nada fez". "Um bom tema pra vc escrever no seu blog".

Nenhum artista deve gostar de todos os shows. Falo dos consagrados mas talentosos (as duas coisas podem formar uma dicotomia, não?). São mais ou menos as mesmas músicas, com as mesmas pessoas tocando, pra uma “mesma” multidão anônima. Há as identificações específicas de cada artista, claro: um lugar ou uma data especiais que constituem a minoria das noites realmente deleitosas. A recompensa. No mais, tudo é basicamente ritual. Cantar músicas compostas há vários anos, mostrar entrega ao público, e, vez ou outra, até interagir. Buscar lampejos cômicos pra “quebrar o gelo”. O “algo a mais”. Uma relação contratual: o fã pagou ingresso para ver o artista que embala seus momentos bons; o artista tem de superar a si mesmo e fazer melhor do que fez na gravação. Há o contato, e a emoção está subentendida. Certo, certo... com certeza é melhor do que trabalhar*, mas tem sua dose de rotina. Vira o teatro da música: representação.
Parece-me penoso, depois de alguns anos de estrada, manter o tesão de viajar por aí pra tocar. É justamente o contrário do que se dá nos períodos de composição, anteriores às temporadas de shows. Isso na hipótese das duas coisas (criação / divulgação) acontecerem em espaços de tempo distintos. Bom, mesmo quando os dois “extremos” são indissociáveis, a criação deve ser como um respiro, uma notícia de sol**. Alivia os possíveis fardos da divulgação. Naquela cidade e momento em que o artista precisa lembrar quem é, compõe.
Aí sim! Imagino um processo mais inerente ao “caráter” do autor. Criar. Algo que acontece porque tem de acontecer. Uma necessidade fisiológica (nem tanto!). Silêncio. Age (trabalha) sozinho, desafiando o ritmo do mundo. Um tempo só seu. Se muito, pede opiniões àquelas pessoas mais próximas. É quando ainda é dono de sua obra. Pode ajustar suas minúcias e brincar de reinventá-la amiúde. Curte sua cria antes que ela ganhe o mundo e saia de sua jurisdição. O diálogo entre o autor e sua obra. Depois, se o resultado agradar, é hora de lançá-la aos fãs, afoitos por novidade, ávidos de cultura.
Ponderemos.
Óbvio que deve ser bastante gratificante ouvir uma multidão cantando sua música. Mas isso logo após sua divulgação, como uma resposta do público: como o reflexo da recepção da arte por parte de seus consumidores. Porra! Chegar no palco e ser ovacionado depois de alguns meses de produção. O reencontro. Bacana, talvez incomensurável.
Passada essa fase do novo, vêm as grandes temporadas de promoção e divulgação do disco, e aí a arte vira trabalho. O artista perde seu estigma de "fazer o que gosta" e necessita cumprir obrigações formalmente contratadas. Há de se ir nas rádios, conceder entrevistas a repórteres cada vez mais leigos, cumprir um set list (tocar aquela que "não pode faltar"), e tirar fotos com os fãs mais abastados que pagaram pela área vip e pelo direito de ir ao camarim. Sua arte invoca uma invasão de todas as outras esferas de sua vida. Sua assinatura muda de nome. Então, o artista vira ornamento de orkut. "Eu conheço o camelo", dizia a legenda da foto abaixo. Ele (camelo) não parece lá tão satisfeito...


Quem viu aquele par de ótimos filmes: "O Declínio do Império Americano" e "As invasões bárbaras"? São fantásticos, mas essa impressão cada um teve ou terá ao assisti-lo: não cabem aqui meus recônditos elogios. Só uso-os como ensejo pra falar sobre o destino das amizades. O segundo dos filmes é gravado 17 anos depois do primeiro, com os mesmos atores/personagens. Tenta reconstituir os laços de um grupo de amigos que foi separado pelas tais das escolhas que a vida nos impõe. "As invasões bárbaras" é encontro de memórias, é nostalgia, é o lembrar por anedotas. Voltar ao passado pra fazê-lo melhor.
Isso tudo pra falar de um comentário que o miragaia fez há um tempinho. Ele falou sobre o futuro das reuniões despojadas lá nos bancos da faculdade de história (e que podem simbolizar as reuniões nos outros tantos prédios de tantas outras faculdades). Sobre aquele instinto adquirido de, ao chegar à faculdade, olhar pros cantos do prédio e procurar algum amigo. Por vontade de conversar sobre coisas menores: subtrair um pouco da seriedade implícita no lugar. A academia. Esse nome medonho! Como se passássemos por um treinamento mental. Se isso existe, meu caráter picareta pode ser comparado aos atletas que tomam anabolizantes. Aparentemente, tenho treinado, mas, de verdade, é só desleixo. (Dispenso os alertas de que estou usando dinheiro público e devo me esforçar ao máximo). Minha academia também é ouvir as canalhices de uns, as posições reaças ou inconformadas de outros, as indecisões, os machismos, as classificações de meu gosto musical (de corno), e os projetos pro fim de semana. É o além-aula. Calma: estudar é bacana pra caramba também! Mas pode ser feito em casa ou qualquer outro lugar. O que dá sentido à faculdade são as pessoas. Afinidades. Quanto mais afastado delas, mais insípido fica o ambiente universitário.
Os bancos da história, por isso, confortam. O que será deles daqui uns anos? (pra não dizer de nós) Outros grupos de amigos farão daqueles lugares seu ponto de encontro. Nosso espaço vê o tempo prevalecer. A proximidade da formação assusta. Volta-se às fases em que escolhas tem de ser feitas em detrimento de outras. Há de se pensar no futuro novamente. O discurso "de velho" já não é tão longínquo assim. Responsabilidades começam a ultrapassar os prazeres. Amigos se formando, indo trabalhar. Outros projetando mestrado ou vislumbrando outra graduação. Uns até planejando casamento. A realidade é inexorável: um dia nos alcança. Anuncia a necessidade de se aproveitar um pouco melhor as coisas. Talvez eu sinta mais falta da faculdade do que eu imaginei no meu primeiro semestre. Vivo um caminho inverso. Hoje estudo mais, tenho mais contatos e desejo estar por lá. Vejo bons motivos. Empolgo-me com a alegria da turma da dani, que vive uma fase de reconhecimento e ainda não precisa sofrer algumas pressões.
O miragaia levantou a possibilidade de não nos afastarmos definitivamente. De simular novos bancos da história por aí. Algumas ferramentas que poderiam atenuar a distância que naturalmente surgirá. Os encontros físicos deverão mesmo ser cada vez mais raros. Compromissos, outras pessoas pra rever, preguiça. Ele falou do blog, mas não sei quanto tempo isso aqui irá durar. As pessoas vão perdendo a paciência. Pra algumas, só o email de divulgação de um novo texto já deve causar repúdio. Este espaço serve bastante pra quem busca saber um pouco mais de minhas opiniões, e me ajuda mais ainda a notar semelhanças. As omissões dizem muito também. O mais misterioso é imaginar alguém que passa por aqui "por acaso" e não se manifesta pela impressão de que os textos são muito restritos a um grupo.
O provável, como eu disse e é óbvio, é que nossas relações se tornem cada vez mais superficiais e que grupos cada vez menores mantenham contato. Nossos amigos de colegial já não são tantos (Ah, os tempos de ETE!); os de infância quase sumiram (o futebol no quintal de casa). No entanto, não dá pra ser tão frio com essas coisas. Sempre é bom pensar que pode ser diferente. Resistir à dureza da vida. Até pra não antecipar decepções, pra não permitir que as amizades prescrevam subitamente. Pra ficar imaginando qual será a galera que comporá a minha edição de "Invasões Bárbaras". Aqueles que, mesmo depois de muito tempo, sentirão prazer em estar ao meu lado pra rememorar algo. Falar de qualquer coisa passada. Enganar o futuro enquanto ele não chega.

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Legendas (como se fossem)
1) Uma das últimas cenas de "As invasões Bárbaras", quando os personagens se encontram pra relembrar.
2) Fachada do prédio de História e Geografia - FFLCH
3) é... não dá pra perceber que eu quis desfocar meu rosto, pra tentar dar a idéia de envelhecimento,né?rs... bom, mas é isso!
P.S.: além dos créditos ao miragaia, devo dizer que o gustavo também estimulou esse "desabafo". Ele é chato: cobrou referências e fica aqui, do meu lado, alertando pro tamanho do texto, que pode fazer com que algumas pessoas desistam de ler.


- Vó, vamos lá no seu quarto preu tirar uma foto sua com seus bonecos e pelúcias?
- Foto?
- É, pra pôr na internet, vó... no computador.
- Ah, naquele que você mostra sempre, né? que todo mundo pode ver...vamos, Bita! Aí você tira uma bem bonitinha...pra ficar uma lembrança bonita, né? (sorriso)
- Então vai, vó...pega o Bidu também (o gato)...e os bichinhos da parmalat.
- Ah, não! É só com o Chaves...os outros já estão velhos, Bita (risadas).
Entre uma trapalhada e outra, tirei várias fotos da velha! Com os bonecos, com o gato...e só com o Chaves, exigência da modelo. A foto que ilustra essa postagem é parte desse conjunto. Optei pela imagem traiçoeira, em construção, sem pose. Um pouco mais fiel. Mantive o pacto implícito, que consistia em dar destaque ao novo membro da família alternativa de minha vó: o Chaves! Certo dia dessa semana, ao chegar em casa, a velha me recebeu com a risonha novidade: "Bita, temos visita em casa. Ele veio do México pra ficar aqui...rs...está lá na sua cama, descansando". Era o boneco do Chaves (eu nunca imaginei que ela sabia a origem do Chaves!). O boneco é mal feito, desproporcional e oportunista: não importa! Pra ela, é igualzinho ao do "desenho". É seu mais novo xodó. No segundo dia de estada aqui em casa, ele já ganhou um colete de lã feito sob medida, "porque logo o frio chega, né, Bita...rs". Frio, vó? Ok, lindo o colete!
Minha vó é a pessoa que mais me alegra. Sua capacidade de criar afazares e afetos é comovente. Casada desde os trezes anos de idade devido a um acordo entre famílias (no Egito), ela viveu uma vida pro meu vô, falecido há 25 anos, e vive outra pros netos. Sempre espera nosso beijo atrasado pela manhã, arruma nossa cama e separa o chinelo pro final de semana. Aos 78 anos, ainda trabalha. Digo, ajuda meus pais na loja de embalagem e, como ela diz, "se distrai". Vira e mexe, aos risos, ela conta histórias de fregueses brincalhões que a chamam de "menininha" e a convidam pro forró. De tão concentrada em seu bordado, ela teve a proeza de estar na loja durante um assalto e não perceber nada! Nada mesmo! "O quê? levaram o carro, Noubar? ãh, entraram com arma aqui? que horor" (sim, não existe som de dois erres na pronúncia da egípcia!).
Com a graninha que ela junta na loja, mais a mesada que ganha dos netos, ela vai às compras em todas as "lojas de 1 real" aqui do bairro. Mas isso é o rotineiro, que todos que a conhecem já sabem. Cerca de um mês atrás, no entnato, realmente aconteceu algo de inusitado. Ao voltar de um bate-e-volta à cidade de Socorro, e após ter gasto 200 reais em presentes, bijouterias e roupas, a velha ficou duas noites sem dormir! Sério! Ela conta isso com uma felicidade imprevisível. "Bita, sabe quando você fica feliz por comprar as coisas que acha bonito? Nossa, eu comprei tanta coisa, né...fiquei tão contente que não dormi essas duas últimas noites". Mesmo conhecendo muito bem a velhinha, eu não esperava por isso. Foi inevitável a lembrança de quando ganhei meu primeiro video-game e varei algumas noites jogando. A diferença é que pra ela as "coisas" têm um poder mais de contemplação do que de uso, desfrute. É meio que uma legitimação do estar viva. Um sentido pra uma existência marcada pela submissão à figura masculina e à família. Minha vó nunca me deu presente de natal, nem de aniversário, nem nada. (E não lembro, sinceramente, de isso ter feito falta ou causado decepção) Sempre destinou seus lucros da loja às coisas "pra casa". Enquanto meu irmão e eu fomos seus companheiros de tarde, ela não precisava de nada além de sua presença pra nos cativar. Contava as mesmas e engraçadas histórias do egito e das peripécias de meu pai. Contava as mesmas piadas sem notar que já sabíamos os desfechos. Melhor, ria de suas piadas mesmo antes do final! isso hoje é mais raro...é coisa de feriado.
Agora, com meu irmão morando fora e eu usando a casa como dormitório, ela vibra cada instante de nossa companhia. Despeja todas as fofocas da semana em poucos minutos, fala das novidades da loja de 1 real e, não sei se pra redimir algo, nos dá pequenos presentes, cheios de simbolismo e cuidado. Perto dela, eu sou o menino que fugia da loja pra jogar bolinha de gude na calçada. Por algum motivo difícil de explicar eu não a culpo por absolutamente nada, não noto seus defeitos: admiro-os. Nem ouso falar mal de um possível impulso consumista que ela desenvolveu. Foi seu modo de driblar a solidão. De preencher um espaço que deixamos vazio. Um espaço ocupado pelos gatos, pelos bordados e pelas compras que desconhecem o glamour de um shopping. Se atrasamos o pagamento de mesada, ela cobra juros! "Igual o banco, Thiago" (gargalhadas!). É disso que falo: acho lindo quando vem dela! Vem com a ingenuidade de uma alma realmente "jovem ainda". Que só conhece seu bairro. Que chama o centro de "cidade". Que tem medo de escada rolante. Que tem a pachorra de fazer promessas que terceiros têm de cumprir! (sim, ELA prometeu à nossa senhora de aparecida que, se eu passasse na prova - vestibular - , EU teria de ir até Aparecida do Norte para agradecer!). Assim.
Sou um neto babão. Pra ela eu sou o Bita, um menino que gosta de falar como os apresentadores de jornal; que pede permissão pra ir tocar violão no quarto dela; que pede pra ela cortar banana em cima do açaí; que gosta de estudar de noite; que é chato quando fica corrigindo os enganos causados pelo sotaque dela ("barulhos" ao invés de "Guarulhos", "sábato" ao invés de "sábado", e aí vai!!!). Mais cedo, quando eu pedi pra ela posar pras fotos com os bichinchos, ela só sabia que apareceria no computador, e que a dani iria poder ver lá de São carlos. Usou a palavra "lembrança" como estímulo pra posar para uma foto oficial. Sentiu-se importante naquele momento...quis contar a todos:
- Cida, olha o que seu filho fez...rs...colocou eu e o Chaves no computador...
- Olha, meu filho (pro thiago), seu irmão é louco que nem você...rs
P.S.: quem quiser conhecer melhor a velhinha, veja!! : http://br.youtube.com/watch?v=Fz53V04rqSk


Invariavelmente, não trocavam muitas palavras. Os diálogos só serviam para comunicar compromissos:
- Hoje chegarei uma hora mais tarde, não mais nem menos que isso, pois preciso resolver pendências de nosso futuro apartamento - dizia ele enquanto acertava o nó da gravata.
- Não há problema! Hoje, justamente hoje (!) eu prometi que iria visitar aquela minha amiga que está doente, e posso chegar exatamente a tempo de lhe servir o jantar - emendava ela, entretida com uma mancha tenaz que se instalou em seu pano-de-prato predileto.
As noites, é bem verdade, passavam juntos. Tão próximos e tão distantes quanto eu e esse texto. Pensavam no cansativo e repleto dia de hoje e planejavam o de amanhã. Sexo só faziam aos sábados, mas compensavam a abstinência do resto da semana com intermináveis 20 segundos de satisfação: era apenas ele pensar na garota que não conquistou em sua época de colégio e...pronto! Ela já havia decorado as caretas que anunciavam o orgasmo dele e, na hora exata, encenava o seu! Os dois aproveitavam o ar convidativo da luz apagada e dormiam virados para mundos opostos. O domingo viria e toda a culpa por possíveis deslizes seria paga diante de Deus, na missa das oito. Eles não tinham muito do que reclamar. Todos os tinham como modelo de vida harmoniosa, pacífica, compreensiva: conjugal. Acreditavam nisso e agradeciam por estarem juntos há vinte anos, sem discussões nem traições físicas.
Só um detalhe os desviava do destino ideal: nunca tiveram filhos. Nos primeiros anos de casamento, até procuraram auxilio médico, mas ambos foram considerados aptos à concepção. Como prudência e cautela eram-lhe qualidades abundantes, isso não os afligia, tão pouco desesperava. Quando fosse a vontade divina, num sábado qualquer, produziriam um herdeiro que, se a probabilidade for uma ciência confiável, seria eleito Presidente da República pelo PSDB, e ovacionado em seu discurso de posse onde a honra e a seriedade seriam aclamadas em todas as frases.
Agora, com a menopausa e a impotência se aproximando, talvez recorrecem mais uma vez à medicina para escapar dessa orfandade às avessas. Os colegas viviam angustiados pelo drama não sentido pelo casal. A vida não poderia se privar de uma estirpe desse calibre. A reprodução das espécies admiradas tinha de ser prioridade pro barbudo lá de cima. Neste mundo perfeito que Ele criou, não há espaço para a injustiça que recai sobre o nosso casal.



(1) "tênue" é O adjetivo pra "fronteira", sempre. Pode reparar!
(2) "Elogio da loucura", Erasmo de Roterdam
(3) Mandar "à merda", pro meu pai, é o pior dos xingamentos.








Prometa-me uma coisa: se tiver a paciência de ler, leia os dois.
Nesta data querida...(17/06/06)
Na véspera de um aniversário, me deparo com a ausência daquele estímulo natural dos que completam mais um ano. A ansiedade característica das debutantes e dos meninos que vislumbram a maioridade. Meus dezoitos anos chegaram de mansinho, e passaram sem que eu notasse. Há algo pra comemorar? Não sei. Aliás, essa é a “imagem recuperada” do ano que passou: não sei.As dúvidas me perseguem. Fui ingênuo quando, ao entrar na faculdade, pensei estar com o futuro encaminhado. Ao contrário, a indecisão só fez aumentar. Por causa dela é que eu não planejo mais nada. Vou vivendo, sobrevivendo e revivendo. Revivendo a fase em que eu me senti mais feliz: a parcela musical de minhas experiências. Mesmo “sem dar futuro”, me apraz. A literatura também. A usp ainda me traz alguns benefícios, por isso, viajo a ela algumas vezes por mês. O ambiente, salvo grandes exceções, me é inóspito, infelizmente. Eu também não ajudo a torná-lo melhor. Devem me achar um cara estranhíssimo, talvez com alguma razão.Enfim, não peço muitos anos de vida, mas os quero bons, cada vez melhores. Quem sabe no ano que vem, nesta data que devia ser querida, eu comemore com você, moça. Meus Parabéns!
Nesta data querida (2) (23/06/07)
Muito tempo se foi desde o texto anterior. Será mesmo que vivi grandes mudanças? Boa parte de minha indecisão, senão toda, permanece aqui. È fato que consegui aproveitar um pouco mais das coisas que tentei estudar. Alcancei um mínimo de liberdade de pensamento. Hoje estou novamente tocando violão com alguma disciplina. Pra quê? Ao menos pra aborrecer e fazer barulho lá em casa, serve! E, nas reuniões pra família, ouvir um : “toca aquela que a mamãe (vó) gosta...” Se eu perguntar o nome, nem mesmo sabem. No trabalho, nada. Não possuo mais uma ocupação válida. Tiro do suor e da velhice de meu pai, meus caprichos. Altamente transformados, de oito meses pra cá. A “moça” do ano passado agora é real. Viajar é preciso. Não há mais do que me queixar e reclamar: tive um bom emprego (abandonei), estou em escolas públicas, tenho a namorada que desejei. O que ainda me traz tristeza? É complicado saber quando serei maduro o bastante pra fugir do meu “eu sozinho”. Conviver é difícil. Eita cara que não sabe se relacionar! Nem com as palavras tenho tido entendimento. Acompanham-me na greve que meu cérebro impõe. Meu aniversário passou. Dois amigos se lembraram (foram avisados). Eu também não lembraria de mim, se não fosse eu mesmo. Vinte anos, tá.